Existe uma dimensão do nosso comportamento em que raramente pensamos de forma consciente, mas que organiza silenciosamente a forma como ocupamos o espaço e nos relacionamos com os outros. O antropólogo Edward T. Hall, no livro A Dimensão Oculta, defende precisamente isso: o espaço não é neutro — é cultural, mesmo quando inconsciente.
A forma como nos aproximamos ou afastamos uns dos outros, como ocupamos um lugar ou como nos posicionamos numa sala, não é apenas física. É também uma linguagem. Uma linguagem que assimilamos sem darmos conta.
É neste contexto que Hall desenvolveu a ideia de proxémia: o estudo do uso do espaço nas relações humanas. Para o autor, o espaço fala, mesmo quando não dizemos nada.
Basta pensar no Salmo que diz “senta-te à minha direita” — um lugar de destaque, honra e privilégio. Ou no protocolo oficial que, em eventos públicos, organiza cuidadosamente o lugar de cada convidado. Não é mera formalidade: são regras de ordem, hierarquia e relacionamento. Sentimos imediatamente, sempre que essa ordem é quebrada de forma evidente. A forma como alguém ocupa ou ultrapassa um lugar não passa despercebida — como aconteceu, por exemplo, com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante uma visita ao Reino Unido, numa imagem que ilustra bem a importância do espaço e do protocolo.

“A forma como alguém ocupa ou ultrapassa um lugar não passa despercebida — como aconteceu, por exemplo, com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante uma visita ao Reino Unido” Foto: Visita de Donald Trump a Inglaterra (3 junho 2019). @Shealah Craighead | White House
Quem já organizou um casamento e teve de distribuir os convidados por uma sala sabe bem do que falo. Existem regras subliminares que regem a proximidade e a distância entre as pessoas. O mesmo acontece numa festa de aniversário ou num jantar de família. No espaço público — e muitas vezes no privado — a forma como nos colocamos diz muito sobre nós.
Hall ajuda-nos a perceber que estas escolhas não são apenas individuais: são culturais. E traduzem-se em diferentes formas de proximidade. O autor identificou quatro distâncias, cada uma com dois modos — o próximo e o afastado.
A distância íntima é reservada aos afetos, aos abraços, aos sussurros — às pessoas a quem permitimos entrar no nosso espaço mais desprotegido (dos 15 aos 40 centímetros).
A distância pessoal é mais equilibrada e quotidiana: é onde cabem as amizades e as conversas entre colegas, do dia a dia (dos 45 aos 125 centímetros).
A distância social está associada ao mundo profissional e às formalidades que organizam a convivência — grupos de trabalho, reuniões, relações hierárquicas (de 1,20 a 3,60 metros).
Por último, a distância pública é a da sala de aula, da conferência ou do palco, onde a comunicação não é dirigida a um indivíduo, mas a um coletivo (a partir dos 3,60 metros).
Estas distâncias ajudam-nos a perceber como o espaço traduz intimidade, poder, confiança ou formalidade. No entanto, foram pensadas num mundo essencialmente presencial, onde o contacto direto prevalecia.
Hoje, vivemos num tempo em que podemos estar próximos sem estar fisicamente presentes — e distantes mesmo quando estamos lado a lado. Trabalhamos com pessoas que nunca vimos, criamos relações através de ecrãs e, por vezes, sentimos um estranhamento profundo em espaços partilhados. As distâncias continuam lá, mas mudaram de forma.
É aqui que entra Erving Goffman. Em A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias, o sociólogo lembra-nos que também representamos papéis sociais — ajustamos a forma como nos mostramos aos outros, quase sempre sem pensar nisso. Se Hall nos ajuda a perceber o espaço, Goffman ajuda-nos a perceber o comportamento dentro dele. E juntos, lembram-nos que quase nada é neutro: nem o espaço, nem a forma como o ocupamos.
Ainda assim, há sempre algo que escapa a estas explicações — uma espécie de intuição que também governa a forma como nos aproximamos ou afastamos.
Fica o desafio: observar, de forma mais consciente e atenta, o espaço que ocupamos, a maneira como o fazemos e as pessoas com quem o partilhamos.
Marta Cerqueira é antropóloga de formação académica, trabalha na área da formação e acredita em Deus e na humanidade — mesmo nos dias mais difíceis.
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