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autores - Rúben Azevedo

[Entre Margens]

Pôr quanto se é no mínimo que se faz

| 15/01/2026

 

A natureza, admiravelmente, põe quanto é no mínimo que faz. Não procura ser vista; não pensa em reconhecimento; apenas é, e nos mais pequeninos e insuspeitos fenómenos naturais há belezas e mistérios de tirar o fôlego. Ela cumpre e leva até ao fim tudo o que é, no microscópico como no macro. Não por ela mesma, entenda-se, mas porque nela há um fundamento que é absoluto e infinito, e que se caracteriza precisamente por estar infinitamente em toda a parte e em cada uma das suas partes — Deus.

Também há pessoas assim, e a elas devemos tudo o que temos de melhor na nossa vida e civilização. Cumprem, cuidam, fazem bem, fazem o bem, sem porquê. São as guardiãs da Esperança.

O amor é difícil. O amor sem porquê. Em quase tudo o que fazemos perguntamos, estejamos ou não plenamente conscientes disso, “para quê isto? Para que me serve? O que é que ganho com isto?” E quanto mais assim é, menos nos damos ao trabalho de criar, amar, construir sem porquê.

“O encontro entre os amantes do Cântico dos Cânticos dá-se no jardim, cheio de sons, flores, cores e aromas que cantam a beleza da vida e do amor.” Ilustração © Ilda David’. 

“O encontro entre os amantes do Cântico dos Cânticos dá-se no jardim, cheio de sons, flores, cores e aromas que cantam a beleza da vida e do amor.” Ilustração © Ilda David’.

Mas a beleza autêntica é sempre um produto de um amor autêntico, que está muito para além dessas considerações mesquinhas. Se acharmos que não vale a pena a beleza ou o amor, e enfim a vida, acabaremos talvez por achar que nada de verdadeiramente importante vale a pena. E assim nunca construiremos nada nem experienciaremos nada de realmente profundo nesta vida.

Se nos limitarmos à imanência e às suas exigências — quer dizer, ao imediato da materialidade e da conveniência pessoal —perderemos a substância transcendente da vida, que sem palavras nos quer falar da nossa verdadeira pátria — a eternidade.

Alguém dizia, e com razão, que na vida às vezes é preciso perder, e perder muito, para ganhar. Dante teve de perder tudo, ser exilado, condenado à morte, incompreendido pelos seus, para descobrir em si o seu mestre, a luz da eternidade sob cuja claridade edificou o monumento da Divina Comédia, especialmente o “Paraíso”. Camões nunca deixou de escrever e forjar pela palavra pedaços de eternidade, mesmo não tendo ninguém que o lesse e apreciasse, na maior pobreza e durante as intermináveis bolandas do seu “exílio” de 17 anos pelos mares do Oriente.

Aprender o essencial requer por vezes uma espécie de morte em vida, que longe de ser morte, é um verdadeiro despertar para a verdade.

No essencial, está a aprendizagem do amor e da esperança sem porquê. Está a descoberta do espírito dentro de cada um, do incrível poder da mente sobre a matéria, enfim, da raiz imortal da esperança que jaz sob os sedimentos acumulados do desespero.

Não tenho quaisquer dúvidas, mesmo com todas as minhas dúvidas, de que a morte é uma doença da imaginação e de que não existe senão Vida e Eternidade.

É do amor que nos alimentamos, do amor feito gesto, feito pessoa, feito arte, feito esperança. A falta de amor é o verdadeiro cancro que nos mina, pessoal e coletivamente. É o amor que nos exalta e que nos enriquece até ao limiar do sonho. Saber que somos amados, apesar de tudo.

Não saber amar é o que nos torna realmente miseráveis e indigentes.

Homens a pescarem em silêncio mas águas azuis sob um manto de nuvens no mar de Visayan, nas Filipinas. Foto © Vyacheslav Argenberg / http://www.vascoplanet.com/, CC BY 4.0 , via Wikimedia Commons

Homens a pescarem em silêncio mas águas azuis sob um manto de nuvens no mar de Visayan, nas Filipinas. Foto © Vyacheslav Argenberg / Wikimedia Commons

É preciso amar o silêncio e também amar no silêncio. Longe de holofotes e hipotéticos aplausos. Como a larva na crisálida. Fazer o que deve ser feito, fazer bem, fazer o bem, criar com persistência, não desprezar os pequenos gestos, as pequenas construções, as pequenas dádivas. Pôr o coração no que se faz. Abrir caminho. Exprimir. Não ter medo de imaginar e de ir até onde ninguém foi. E de dizer o que ainda ninguém disse, pelo menos daquela maneira. Sozinho? Seja.

Incompreendido? Não há ninguém grande (escreveu Emerson) que não tenha sido incompreendido. Intelectual, artista, político ou santo.

“Se não for visto e compreendido, perder-se-á”, dizes tu. “Portanto, de que vale?” Achas mesmo? Tens de ter fé. Tens de acreditar que nada do que é honestamente produzido e expresso pela alma humana se perderá alguma vez. A memória do universo e do absoluto que a transcende, não é a tua. Achas mesmo que alguma coisa que vem ao ser chega realmente a morrer? Nem que seja um gesto? Julgas mal e precipitas-te. Falas daquilo que está muito para além da tua capacidade de compreender. Nada do que é honesta expressão de uma verdade da consciência e da alma pode morrer. Mesmo que desapareça aos olhos dos mortais. Nem te deves importar com isso, apenas e somente cumprires o teu dever e a tua vocação.

Se é que queres realmente viver, experienciar, compreender, o que há de verdadeiramente profundo e essencial nesta vida.

Parece-me que todos os grandes criadores, mesmo aqueles que trabalharam ou trabalham por uma certa medida de reconhecimento, foram muito mais além do que isso. Procuraram não só manifestar a eternidade no mundo, mas confirmá-la em si próprios. O seu próprio esforço criador revelou-os superiores a si mesmos e cidadãos de uma eternidade que está acima de todas as desventuras, misérias e desencontros deste mundo. Assim viveram com uma profundidade e autenticidade que escapa à grande maioria de nós. Tocaram no essencial. Tangeram o nervo da alma. Suspeito que nenhum deles, depois dessa experiência radical, terá sentido ter sido vão o seu esforço. Pelo menos imediatamente, ainda que muitos tenham sentido dolorosamente a insuficiência da sua obra para exprimir o ideal que acarinhavam, por demasiado elevado. São Tomás de Aquino, depois do seu mais famoso transe místico nos últimos anos da sua vida, prometeu nunca mais escrever, mas não renegou nada do que escreveu antes. Apenas o terá considerado insuficiente, limitado, baço, perante o infinito fulgor da realidade divina que pressentiu, que nenhuma palavra ou raciocínio pode descrever com justiça.

Mas isso não significa que o esforço não valha a pena.

 

Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Enigma – Noemas em torno do Mistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.

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