
“A religião é um instrumento do poder, isto é, uma forma de garantir a legitimidade do poder político.” Ilustração: Pieter Bruegel, A Torre de Babel, Pintura a óleo (1563).
No dia 9 deste mês de fevereiro, o deputado federal Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) assumiu o comando da Frente Parlamentar Evangélica, uma das mais importantes do Congresso Nacional do Brasil, reunindo 115 deputados e 14 senadores. Sóstenes é aliado do pastor Silas Malafaia (Assembleia de Deus, Ministério Vitória em Cristo). O pastor Silas Malafaia, por sua vez, rompeu com o bispo Samuel Ferreira (Assembleia de Deus, Ministério Madureira) porque o acordo de revezamento do comando da Frente Parlamentar Evangélica foi quebrado; Ferreira apoiou Cezinha de Madureira (PSD-SP) para que seguisse na presidência da Frente em 2022, em vez de Sóstenes Cavalcante. Somada a essa disputa político-religiosa, o bispo Edir Macedo da Igreja Universal do Reino de Deus, até então apoiante do Governo Bolsonaro como os demais, parece querer distanciar-se do atual Governo, sendo cortejado pelo pré-candidato à Presidência Sergio Moro (Podemos). Essas disputas evidenciam, portanto, as divergências políticas do segmento evangélico.
Em paralelo às disputas internas, a eleição presidencial de 2022 se demonstra cada vez mais acirrada. No passado, o apoio de líderes religiosos costumava ocorrer depois que, de fato, as candidaturas fossem oficializadas e definidas em primeiro ou segundo turno. Desta vez, no entanto, os líderes religiosos e, sobretudo, evangélicos, têm sido procurados e têm lançado mão de apoio ainda em fase pré-candidatura. Nesse sentido, a religião é um instrumento do poder, isto é, uma forma de garantir a legitimidade do poder político. Para a cientista política Mayra Goulart, a identificação religiosa não é determinante na decisão do voto, pois “as pessoas têm múltiplas identidades, elas são evangélicas, são sudestinas ou nordestinas […] são mais progressistas nos costumes ou menos progressistas nos costumes. E isso não necessariamente está atrelado ao seu pertencimento religioso”. O que escapa a essa afirmação, no entanto, é que as crenças e as doutrinas religiosas não apenas movimentam a fé das pessoas, mas também os agenciamentos ideológicos, culturais e políticos.
Na cultura brasileira, mais da metade da população brasileira participa de sistemas religiosos em que a crença em espíritos e sua manifestação é fundamental. Nesse sentido, não é importante saber quantas (e se as) pessoas confessam publicamente sua fé ou credo, mas perceber o significado desse conjunto de crenças para as construções sociais em nossa cultura, como aponta o teólogo Adilson Schultz, no artigo Estrutura Teológica do Imaginário Religioso Brasileiro. As múltiplas identidades existem porque também são múltiplas as pertenças religiosas e cada uma dessas pertenças oferecem um corpo doutrinário que constrói e alimenta os posicionamentos políticos. Nesse sentido, se os evangélicos são mais ou menos progressistas nos costumes, apoiantes ou não dos direitos reprodutivos das mulheres, a favor de um Estado mais ou menos intervencionista, contra ou a favor do porte de armas, essas opções são feitas, justamente, de acordo com as teologias que fundam e transitam entre o segmento.
Com isso, não é o objetivo afirmar que todas as esferas da vida, inclusive a política, continuam submetidas à religião, mas que as crenças são fundamentais em decisões de qualquer natureza porque formam a visão de mundo dos indivíduos. Portanto, em vez de minimizarmos o impacto da religião na política, devemos entender que o poder pode manipular símbolos e influir no comportamento, mas, por outro lado, não pode dominar totalmente o ser humano, pois ele, como construtor, tem liberdade de mudar o que quiser e “faz isso quando a sua situação na sociedade não corresponde mais com a visão do mundo”, como afirma o cientista da religião André Droogers, no artigo Sincretismo. Nesse sentido, é importante que a relação entre política e religião seja debatida, inclusive dentro da esfera da religião, sobretudo pelos líderes evangélicos, para que os problemas sociais do Brasil não sejam agravados por essa relação, mas que se estabeleça vias de cooperação.
Referências
DROOGERS, André. Sincretismo. BOBSIN, Oneide; SALDANHA, Marcelo Ramos (Org.). Ciências da Religião. Uma hóspede impertinente. São Leopoldo: EST,2020. pp. 26-40. (Disponível aqui.)
SCHULTZ, Adilson. “Estrutura teológica do imaginário religioso brasileiro.” BOBSIN, Oneide; LINK, Rogério; LA PAZ, Nivia; REBLIN, Iuri Andréas. Uma religião chamada Brasil. Estudos sobre religião e contexto brasileiro. São Leopoldo, Oikos, Est, 2008. p. 27-60. (Disponível aqui.)
Maria Angélica Martins é socióloga e mestra em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Pesquisa a relação entre fenómeno religioso e política com ênfase para o protestantismo histórico e o neocalvinismo holandês.










