Por que estais com tanto medo, homens de pouca fé?

| 12 Fev 21

“O crescimento pessoal e da humanidade não se dão numa linha contínua, mas costumam acontecer abruptamente” (Foto © NASA / Unsplash)

 

O crescimento pessoal e da humanidade não se dão numa linha contínua, mas costumam acontecer abruptamente, com “saltos” que nos levam para o nível seguinte: verifica-se nas eras da história humana e acontece na vida de cada um de nós.

Cada uma dessas etapas é normalmente precedida por crises, sofrimentos e, não raramente, confrontos decisivos. São os tempos dos labirintos e das escolhas difíceis – porque sabemos que, no que quer que escolhamos, outros caminhos ficam para trás.

Para os crentes, esses são também os tempos dos extraordinários apelos de Deus, os chamamentos que nos cegam (de tão luminosos), mas que também nos amedrontam (de tão desajustados). Pois é no deserto que Deus nos fala ao coração (Oseias, 2:14-23).

Há sempre luz e há sempre medo quando nos sentimos interpelados por Deus: a perceção da grandiosidade da empreitada, a par da incerteza total do caminho e da abrupta consciência das próprias limitações.

E é assim que podemos ler os dias de hoje: uma enorme adversidade à escala global, incertezas absolutas, incapacidade percebida e ausência de respostas.

Vem-nos à mente o episódio do evangelho de Mateus, sobre a barca açoitada pela tempestade onde Jesus dormia tranquilo, enquanto os discípulos achavam que morriam. As ondas a cobrir o barco e Jesus a dormir (como poderia estar Jesus a dormir no meio daquela barulheira e confusão, senão para nos revelar qualquer coisa importante?).  “Senhor, salva-nos! Vamos todos perecer!”  Mas Jesus disse-lhes: “Por que estais com tanto medo, homens de pouca fé?” (Mateus 8, 25-26)

Na barcaça estamos todos, a humanidade inteira chamada a unir-se na privação, na tempestade, na aparente ausência de Deus. A beleza crua de um trajeto comum num mundo ainda tão (primariamente) fragmentado, como um sinal e uma oportunidade para crescermos decididamente na fé e estarmos mais próximos uns dos outros a todos os níveis: ontológico, espiritual, material.

Talvez tenha chegado o tempo para nos desprendermos do que nos divide, de pormenores, modos, espaços e razões. Tudo isso é vão, volátil, acessório. Só interessa o que permanece. E, para os cristãos, o que permanece é a Fé, a Esperança e o Amor. Que ultrapassam o tempo e a história e unem na plenitude de um presente cujo eixo é Cristo.

O eixo da permanência tem um nome, é Cristo. Cristo não é só o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim, mas o tempo do meio, de hoje, inteiro na Sua Igreja e em nós, o Seu corpo.

Para quem é cristão, não O sufoque com o medo, antes deixe que Ele viva em si, através de si, onde e como Ele quiser, neste tempo que passa. Que Ele viva através da fé, com obras de esperança e de amor – os Seus sinais distintivos, sempre heroicos, porque a medida de Deus é sem medida.

Se somos crentes, devemos ainda estar profundamente gratos. Porque o tempo presente para um crente é sempre um dom onde se encontra um tesouro escondido. O tesouro escondido de um desígnio que devemos descortinar em benefício dos nossos irmãos, dando tudo de nós, mas não deixando de dar, ainda que achemos bem pouco.

E se, ainda assim, nos sentirmos impotentes e cegos, podemos repetir com o cardeal Newman: “Senhor, não te peço que me mostres o caminho, mas que guies os meus passos.”

Quando, de nós, já não houver mais nada a entregar a não ser o desejo (e a disponibilidade) de sermos conduzidos por Deus onde quer que Ele nos leve, teremos chegado à idade maior da fé, teremos cumprido o caminho.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária

 

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