Na última sexta-feira, 25 de julho, tal como todos os anos e como anunciou o 7Margens, as igrejas na Áustria tocaram os sinos em simultâneo, durante 5 minutos, por iniciativa da Caritas do país, para chamar a atenção para a fome no mundo.
A explicação é importante, mas as imagens falam por si e, este ano, as imagens da fome são de Gaza. Quando o 7Margens noticiou essa iniciativa, lembrei-me imediatamente do título do livro de Hemingway, transposto posteriormente para cinema. Mas não foi por causa do conteúdo do livro, nem do filme, sequer, que me lembrei de Hemingway. Foi por causa do título desse livro: “Por quem os sinos dobram”. E pensei no título como uma pergunta que nos desafia. Enquanto escrevo este pequeno texto continuam a morrer crianças, aliás, pessoas de todas as idades. Mas as imagens das crianças são particularmente pungentes. Ontem, vi imagens de uma mãe que tinha ao colo um filho com meses, com sinais nítidos de subnutrição, de fome, e que olhava par ele num misto de desespero e de abandono total. Vemos todos os dias as filas de pessoas ou a tentativa desesperada de chegar a um pouco de comida, sendo que uma médica que está como voluntária em Gaza dizia que as pessoas hesitavam: vou para a fila, melhor, para o enxame de pessoas, correndo o risco de ser abatido? Ou não vou e os meus filhos não terão nada para comer? Não sabemos mais que escrever, porque “ignomínia” já é uma palavra suave para o que se passa. Ultrapassou-se há muito a barreira do “dizível”, seja qual for a justificação que se pretenda dar para aquilo que é considerar que uns são pessoas, outros são considerados animais, não-gente, “ratos”, que era como os nazis chamavam aos judeus. “Ratos” – que alguns, agora, consideram ser uma designação “aplicável” aos palestinianos encurralados precisamente num jogo do gato e do rato, mas em que o gato é o governo de Israel e os ratos são os palestinianos. Um jogo perverso, que não tem nada a ver com religião. Nada. Criticar um governo não é ser contra uma religião. Entrar nesse jogo de interpretações é, até, um desrespeito pelos milhões de vítimas do Holocausto. Nenhuma religião pode ser invocada para tornar aceitável o abominável. Usar a fome como arma é insuportável, maligno, blasfemo.
E o mundo fica parado… E há países da Europa em que não se pode falar no assunto, porque não sabem como superar um sentimento de culpa que, neste momento, repete a lógica de silenciamento da morte, ainda que com vítimas diferentes. E nos EUA, isso pode dar direito a ser expulso de universidades, mesmo que aqueles que protestam sejam judeus e por outros motivos que conhecemos.

Manifestação da Comunidade Judaica dos EUA contra o genocídio em Gaza. Foto © Jewish Voice for Peace
“Por quem dobram os sinos”? Pelas vítimas, pelas dezenas de milhares de crianças a morrerem à fome e pelos pais a assistirem ao que não tem nome (porque está para lá do dizível ver um filho a morrer à fome), sem poderem fazer nada contra, porque o poder decidiu que eles não têm direito a existir.
Mas os sinos também dobram por todos nós, por toda a humanidade: que mundo é este em que o sofrimento nos entra todos os dias pela casa adentro, nos telejornais, pelos olhos adentro, nos jornais, e ficamos calados? O livro do Génesis, um livro escrito ao contrário (como dizia Carlos Mesters), isto é, em que olhando para a realidade à volta se procura a raiz do que acontece, através de uma narrativa simbólica que pretende voltar ao início, aparece o primeiro fratricídio. E está escrito: “Então o Senhor perguntou a Caim: ‘Onde está o teu irmão Abel?’ Respondeu ele: ‘Não sei; acaso sou eu o responsável pelo meu irmão?’ Disse o Senhor: ‘O que fizeste? O sangue do teu irmão clama da terra por mim.’” O sangue dos nossos irmãos clama da terra por nós. Sempre clamou ao longo da história. Clama hoje. Os sinos dobram e nós não percebemos que também dobram por nós. Esta pergunta de Deus: “o que fizeste do teu irmão?” persegue a humanidade desde sempre. Os sinos dobram pelas vítimas e por nós todos: testemunhas (quase mudas) da desumanização que abre a porta ao extermínio, como sempre abriu, como continua a abrir.
Teresa Toldy é professora universitária de Ética e teóloga; publicou Deus e a Palavra de Deus nas teologias feministas (Paulinas Editora).










