Por quem os sinos dobram

| 30 Mar 2024

© UnicefAbed Zagout Pessoas clamam por comida na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza

Pessoas clamam por comida na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza. © Unicef/Abed Zagout

 

Nas férias da passagem de ano li Não Terão o Meu Ódio, o diário que Antoine Leiris escreveu nos dias que se seguiram ao ataque ao Bataclan [em Paris], onde perdeu a sua companheira. O quotidiano subitamente rasgado pela violência. As coisas simples: a hora do banho do filhinho, as papas que as mães de outras crianças do infantário preparavam para o bebé, os vestígios da existência da companheira no cheiro das coisas espalhadas pela casa, nos rituais. E em tudo, para sempre: a sua ausência.

Lia isto na passagem de 2023 para 2024, e a cada frase pensava: Gaza. Em Gaza, a tragédia da família de Antoine Leiris multiplica-se por cem todos os dias.

Gaza. No meio de descalabro total que hora após hora se atira com fúria renovada contra as famílias, como pode alguém fazer o luto? Quem anda há meses em fuga, sem casa nem comida, quem foi reduzido à condição de um animal acossado que tenta a todo o custo sobreviver: como pode chorar na hora do banho e na hora da papa do bebé? A violência que se soma à violência, os choques consecutivos. Quando esta terrível guerra terminar por fim, como será possível curar os sobreviventes dos traumas que ela lhes deixou?

E agora Moscovo. De novo um Bataclan, de novo centenas de famílias como a de Antoine Leiris: dilaceradas pela violência.

E também o Sudão, e também o Iémen, e também a limpeza étnica em Nagorno-Karabakh que passou por entre os pingos de chuva da nossa atenção. Também ali descalabros de violência, não menos terríveis e não menos dolorosos para as suas vítimas, mas que escapam ao nosso radar.

Esta semana vi Zona de Interesse.

Aqueles somos nós, não somos?

Não “repartimos entre nós as suas vestes, nem lançamos sortes sobre a sua túnica” com a crueza dessa cena no Evangelho e no filme, mas somos nós os herdeiros e beneficiários de uma ordem mundial onde outros são despojados e morrem para nós vivermos melhor. Ou menos mal.

Por isso, não perguntem por quem os sinos dobram: eles dobram por nós, e pelos que morrem por nós – e somos nós quem os faz soar, anunciando o horror da morte. Agitamos as suas cordas com as nossas mãos sujas, numa algazarra onde o alarme e o ódio se misturam, onde todos querem ser donos da razão e onde a razão emudece, perplexa, sempre que morre um inocente.

Que fazer?

Regresso a Antoine Leiris: “não terão o meu ódio” é o primeiro passo num caminho para longe da lógica de destruição e antagonismo em que mergulhámos o nosso mundo, onde nos estamos a afundar.

 

 

 

 

Não Terão o Meu Ódio, Antoine Leiris
Editora: Objectiva
144 pág.
Ano: 2016

 

 

 

 

 Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blogue Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado.

 

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