O Papa Leão vai aos Camarões, de 15 a 18 de abril. Jogando por antecipação, passei no país o mês de janeiro. Tive a alegria e felicidade de percorrer a larga geografia das dioceses de Doumé-Abong’Mbang, Bertoua, Obala, Mbalmayo, Yagoua, Maroua-Mokolo e Yaoundé para visitar as comunidades de Missionários Espiritanos e o povo com quem eles vivem e partilham o quotidiano.
A Leste do paraíso…

Exploração de madeiras no Leste dos Camarões. Foto © Tony Neves
Yaoundé a Abong Mbang são 223 quilómetros de alcatrão razoável. É preciso andar com calma porque os condutores abusam e os veículos não merecem grande confiança. Mas anda-se bem e, sobretudo, muito depressa. A estrada que se segue é uma picada de terra batida com 126 kms que parecem não ter fim. Mas chegamos vivos (e pintados de laranja, a cor do pó!) a Lomié. Ali encontrei a comunidade espiritana e participei na grande celebração da passagem de ano, uma missa com a Igreja à pinha que, ao bater as badaladas da meia-noite, entrou em delírio de ação de graças, pois era esse o momento que se celebrava na eucaristia. A festa continuou noite dentro…
A viagem para Lomié foi uma de várias. Nos Camarões, palmilhei, por longas horas, estradas boas, ruas esburacadas e muita terra batida, com fartura de poeira ou lama, dependendo das condições climatéricas. Andei de avião, de transportes públicos, de jipe, de automóvel ligeiro e de moto. Transpirei muito e nem sempre por causa da temperatura do ar! Mudei de clima várias vezes, como também passei de áreas relativamente calmas para um extremo norte ‘vermelho’, lá onde os terroristas do Boko Haram fazem investidas bárbaras e frequentes, semeando a morte e o pânico entre populações pobres e indefesas.
A viagem seguinte levou-me de Lomié a Bertoua. Deveria ter demorado umas cinco horas, cheguei ao destino ao fim de um dia e meio, por causa de duas grandes avarias. Mas chegaria, vivo. Também pude celebrar com o povo na periferia desta grande cidade e regressar a Yaoundé, em transporte público, numa viagem que durou o dia todo.
Extremo norte, zona “vermelha”

Crianças em Kondje, Camarões. Foto © Tony Neves
Voei até ao extremo norte dos Camarões, lá onde o deserto do Sara está mais próximo, o que justifica o facto de a maioria da população ser muçulmana. Aterrado em Maroua, fui levado pelos Espiritanos até Guémé, a missão mais distante, situada na fronteira com o Chade. Foram seis horas e meia aos saltos e a comer muita poeira. O bom destas viagens são as conversas e as paisagens.
Em Guidguis, visitámos uma comunidade de irmãs brasileiras que fugiram de Guemé há oito anos, quando o Boko Haram ameaçava atacar e fazer reféns os missionários estrangeiros. Celebrei com o povo de Guemé a missa dominical e fui até Mokond, já na região de Maroua. A missão está construída no sopé de montanha. Momento alto foi a visita a Kondje, uma das 21 comunidades de sector, onde me esperavam dezenas de pessoas que cantaram, dançaram e partilharam as alegrias e dores do dia a dia, numa área onde os muçulmanos controlam tudo. Tive ainda a alegria de acompanhar o padre Adamo na visita ao projeto que ele lançou para acolhimento de crianças e jovens vulneráveis.
Por onde o diálogo impera…

O padre Juan Antonio (à direita) com um pastor na Casa do Encontro, centro de diálogo entre cristãos e muçulmanos. Foto © Tony Neves.
Fui ao encontro do padre Juan António, espiritano espanhol, há quatro décadas neste extremo norte. Fala perfeitamente o fulfuldê (a língua dos fulbê) e é um especialista em cultura islâmica. Com ele visitei a Casa do Encontro, da Antena Regional da Acadir (Associação Camaronesa para o Diálogo Inter-religioso), do Extremo Norte, que foi reconhecida pelo Governo em 2006. Partilhou comigo o facto de ter sido retirado à força, em 2017, de uma missão interior, por causa dos ataques dos Boko Haram. Vive agora nas periferias de Maroua, mantendo o seu radical compromisso pelo diálogo entre muçulmanos e cristãos.
Esta Casa do Encontro, aberta em 2015, recebe muçulmanos e cristãos, de segunda a sábado, para conferências, debates e leitura na sua vasta biblioteca (1308 livros catalogados!). Contou-me que Maroua era uma cidade cosmopolita e toda a região habitada e visitada por muita gente, vinda do mundo inteiro. Mas os grupos do Boko Haram, a partir da vizinha Nigéria, iniciaram os ataques brutais em 2013, atingindo o seu máximo de terror em 2015.
Atacaram a missão de Tchere , a 18 quilómetros de Maroua, em 2014, tendo raptado dois padres italianos e um canadiano. Foram libertados na Nigéria dois meses depois, após intensa diplomacia. O resultado foi a retirada de todos os estrangeiros, ficando apenas, por opção, o padre Juan António. Em 2015, foram obrigados a partir 27 padres e 46 irmãs… e o turismo, que era florescente, acabou… Em 2025-2026, está a ser trabalhado o tema da fraternidade humana, a partir do texto da Declaração de Abu Dhabi.
As enormes periferias de Yaoundé

O autor (à direita, na foto) com uma família de Lomié. Foto: Direitos reservados.
Visitei quatro das paróquias onde os Espiritanos vivem e trabalham. Comecei por sair do centro e ir até Yeg Asi, paróquia já em contexto rural, numa área de muita plantação de cacau. Além das celebrações e reuniões na comunidade paroquial, tive a possibilidade de presidir a um funeral segundo os ritos tradicionais e católico.
Fui até Mvolyé, bem no centro da capital, que é responsável pela animação da paróquia sociológica do Espírito Santo. Esta é a missão mais antiga da cidade, considerada a missão-mãe da Arquidiocese de Yaoundé e de todas as dioceses que dela nasceram. Foi fundada pelos Padres Palotinos Alemães em 1901. Com a chegada dos franceses após a Grande Guerra 1914-18, foram os Espiritanos alsacianos quem tomou conta desta paróquia que não tem geografia, pois nasceu como Capelania Francófona.
A nova Paróquia de Nossa Senhora Rainha nasceu na Casa Provincial dos Espiritanos e tem agora como grande desafio a construção da igreja. Tive a alegria de celebrar a eucaristia e reunir com a comunidade.
Finalmente, fui até à grande paróquia de São Pierre de Kong. A Igreja é enorme e está sempre cheia quando há celebrações. Participei em duas. Tem muitos grupos e movimentos. Ao lado está o Centro Espiritano, com um plano de atividades missionárias e sociais muito intenso.
Parti com saudades um país que me acolheu de braços abertos e que, da mesma forma, se prepara para acolher o Papa Leão XIV. Esta visita provou-me que a missão espiritana já deu muito a este povo, mas continua atual e interveniente, sempre ao lado dos mais frágeis, sobretudo nas periferias onde vivem as pessoas com mais dificuldades. E, em todo o lado, me foram recordando que é aos navegadores portugueses que se deve o nome de Camarões…
Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como assistente geral dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), congregação de que é membro.










