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Painéis de S. Vicente
Painéis de S. Vicente: " Personagens regias, cavaleiros, clérigos, marinheiros e camponeses surgem reunidos numa composição que antecipa a própria ideia de um museu do retrato."

[Arquipélago Jerusalém]

Por um Museu Nacional do Retrato

 

Há cidades que guardam os seus heróis em pedra. Passamos pelo Terreiro do Paço sem imaginar que ali poderia nascer um dos mais importantes projetos culturais do país: um Museu Nacional do Retrato.

Portugal possui excelentes museus de arte, arqueologia, etnologia, marinha e história. Falta-lhe, porém, uma instituição dedicada aos rostos que construíram a nação. Em Londres existe a National Portrait Gallery; em Washington, a National Portrait Gallery; em Edimburgo, a Scottish National Portrait Gallery. Em Lisboa não existe um Iugar onde possamos percorrer a história através das pessoas.

O Terreiro do Paço seria o local ideal. Não pertence apenas a Lisboa: pertence a Portugal. Foi durante séculos a porta de entrada, o centro da administração, do comércio e da representação do Estado. Nenhum outro espaço reúne igual força simbólica.

Praça do Comércio

“O Terreiro do Paço seria o local ideal. Não pertence apenas a Lisboa: pertence a Portugal. Foi durante séculos a porta de entrada, o centro da administração, do comércio e da representação do Estado. Nenhum outro espaço reúne igual força simbólica.” Foto © Diego Delso | Wikimedia Commons

A sala inicial do museu seria dedicada aos Painéis de São Vicente. Mais do que uma obra-prima da pintura portuguesa, constituem uma extraordinária galeria avant la Iettre. Personagens regias, cavaleiros, clérigos, marinheiros e camponeses surgem reunidos numa composição que antecipa a própria ideia de um museu do retrato.

A partir dai desenvolver-se-ia uma narrativa visual. Surgiriam os retratos que acompanham a formação do Estado moderno: todos os reis, apenas para exemplificar. Cada rosto testemunharia uma época, uma visão de poder, uma relação particular entre Portugal e o mundo.

Seguir-se-iam os homens das Letras. Bocage, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Antero de Quental, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós. Não apenas os seus retratos, mas também manuscritos, correspondência e objectos pessoais que permitissem aproximar o visitante da pessoa para além da personagem pública.

Os cientistas teriam igualmente o seu lugar: Pedro Nunes, Garcia da Horta, até Laura Ayres e Maria de Sousa, e tantos outros que contribuíram para o conhecimento e a projecção internacional do pais.

Entre os retratos mais significativos figuraria o de Frei Manuel do Cenáculo, patrono ideal de uma instituição dedicada à memória. Bibliotecário, arqueólogo, coleccionador e fundador de museus, compreendeu como poucos a importância de preservar o património para as gerações futuras.

O século XX estaria representado por figuras como Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Amália Rodrigues, Salgueiro Maia, e José Saramago. Não se trata de celebrar celebridades, mas de mostrar como diferentes gerações imaginaram Portugal.

O coração do museu estaria na última sala. Chamar-se-ia simplesmente “Portugueses”. Nela não haveria figuras célebres. Haveria rostos recolhidos em todo o país: pescadores, agricultores, operários, médicos, professores, bombeiros, estudantes, emigrantes e reformados. Um grande arquivo fotográfico nacional em permanente atualização.

O museu incluiria um estúdio fotográfico onde, ano após ano, seriam recolhidos novos retratos. Dentro de cem anos, os visitantes poderiam observar quem viveu, trabalhou, sonhou e passou por Portugal no início do século XXI. O retrato deixaria de ser apenas memória do passado para se tornar património do futuro.

Ao sair novamente para a Praça do Comércio, o visitante compreenderia uma verdade simples. Os monumentos celebram acontecimentos; os retratos preservam pessoas. Portugal foi construído também por milhões de homens e mulheres. Um Museu Nacional do Retrato permitiria reunir a todos na mesma narrativa.

 

Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.

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