[Os dias da semana]

Por uma mobilização geral contra a violência escolar

| 10 Out 2023

Violência escolar. Foto Fat Camera

“A violência nos estabelecimentos de ensino – desde as piadas ofensivas até às agressões físicas – é um problema vasto e complexo que tem de ser enfrentado energicamente, ainda que se saiba que não há fórmulas miraculosas.” Foto © Fat Camera.

 

É uma história banal. O Diário de Notícias contou-a na quinta-feira para personalizar o tema que mereceu uma referência significativa na primeira página: a violência nos estabelecimentos de ensino portugueses. A história é a de uma vítima. Ficamos a saber pouco sobre ela. O nome apresentado é fictício, tem 16 anos, e é a mãe que revela algo sobre a rapariga: “Ela não tem nenhuma deficiência visível, tem apenas o que na gíria se considera um atraso de compreensão, fruto de algumas dificuldades cognitivas”.

É uma aluna com necessidades educativas especiais numa escola secundária de Leiria e, tal como conta a jornalista Paula Sofia Luz, foi, neste início de ano lectivo, o alvo da chacota dos colegas. Quando elegeram o delegado de turma, acharam eles que seria engraçado votar na jovem. Quando, apurado o resultado, o nome dela surgiu como o mais votado, os colegas riram, numa atitude que a professora considerou provocatória. A docente, também directora de turma, cancelou o acto eleitoral e ficou sem saber o que fazer. “Ao longo dos últimos anos lectivos já foram várias as situações reportadas aos pais desta adolescente, por colegas ou por professores”. O resto fica por saber.

O tema da violência escolar surgia nas páginas do Diário de Notícias a propósito das conclusões de uma grande investigação da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro para apurar o nível de violência entre alunos dos 12 aos 18 anos de 61 estabelecimentos de ensino do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e secundário nos anos compreendidos entre 2018 e 2022. Os resultados são alarmantes. Dos 7139 rapazes e raparigas que participaram no estudo, 4837 (68%) disseram ter sido vítimas de algum género de agressão. Um número não muito diferente de jovens, 4634 (64%), revelaram já ter sido violentos em relação a algum colega.

As vítimas queixaram-se de agressões de natureza psicológica, em 92% dos casos, e de natureza física, em 82% dos casos. O cyberbullying e a partilha de imagens íntimas sem consentimento (sexting) visaram 58% dos inquiridos. Dirão alguns que poderá aqui haver susceptibilidade a mais perante brincadeiras mais ou menos inofensivas ou que são comportamentos próprios da juventude – e que quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Mesmo os que assim pensam não podem desdenhar outro dado: a percentagem de ameaças com objectos ou armas e ofensas corporais graves que vitimaram os jovens estudantes: 38%. Inquietante.

A violência nos estabelecimentos de ensino – desde as piadas ofensivas até às agressões físicas – é um problema vasto e complexo que tem de ser enfrentado energicamente, ainda que se saiba que não há fórmulas miraculosas.

Uma “mobilização geral” para prevenir a violência escolar e para a sancionar de um modo mais dissuasor é o que se está a reclamar em França neste início de ano lectivo [1]. Na origem do apelo, há uma tragédia. Nicolas, um rapaz de 15 anos, suicidou-se no dia 5 de Setembro, um dia depois do regresso às aulas. No ano escolar anterior, tinha sido vítima da violência dos colegas. Os pais queixaram-se e, nada tendo sido feito, lamentaram a inacção da escola. A direcção do estabelecimento desdenhou o sucedido e, pior, ameaçou os pais de Nicolas, considerando, numa carta, que a família dizia coisas “inaceitáveis” e que deveria ter uma atitude “construtiva”. A ameaça era agravada com uma referência à circunstância de a difamação poder ser considerada uma infracção penal que podia levar até cinco anos de prisão e uma multa de até 45 mil euros.

O suicídio de Nicolas, que se tinha queixado pela primeira vez de bullying no final de 2022, ditou um novo capítulo. A primeira-ministra, Elisabeth Borne – assim como o ministro da Educação, Gabriel Attal – deplorou com veemência a atitude da escola e no dia 27 de Setembro, no Hôtel de Matignon, a sede do governo, apresentou um plano interministerial contra a intimidação escolar. Estavam presentes os ministros com a tutela da educação, evidentemente, do digital, da justiça, da polícia, da saúde e do desporto. “A mobilização deve ser geral”, pediu a primeira-ministra. A lista de medidas é diversificada, mas os destaques recaíram nos “cursos de empatia”, a ministrar desde os primeiros anos de escolaridade, e inspirados no modelo dinamarquês (“contra a intimidação, não basta ensinar a empatia, é preciso aprendê-la”, observou o psiquiatra Serge Tisseron [2]), a confiscação de telemóveis e o “banimento” temporário das redes sociais.

Não é inevitável que as escolas tenham de ser, como tantas vezes são, lugares hostis ou violentos. O combate à violência nos estabelecimentos de ensino, mesmo àquela que aparenta não ser particularmente danosa, não pode ser secundarizado e tem, de facto, de merecer a mobilização constante de todos.

 

[1] Sylvie Lecherbonnier e Violaine Morin – “Harcèlement: la « mobilisation générale »”. Le Monde, 29 de Setembro de 2023

[2] Serge Tisseron – “Contre le harcèlement, il ne suffit pas d’enseigner l’empathie, il faut l’apprendre”. Le Monde, 7 de Outubro de 2023

 

Por um mundo que acolha as pessoas refugiadas

Dia Mundial do Refugiado

Por um mundo que acolha as pessoas refugiadas novidade

Dia 20 de Junho é dia de homenagearmos todos aqueles e aquelas que, através do mundo, se veem obrigados e obrigadas a fugirem do seu lar, a suspenderem a vida e a interromperem os seus sonhos no lugar que é o seu. Este é o dia de homenagearmos a força e a coragem desses homens e mulheres – tantos jovens e crianças, meu Deus! – que arriscam a vida na procura de um lugar que os acolha.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Reunião do Conselho dos Cardeais com o Papa voltou a contar com três mulheres

Uma religiosa e duas leigas

Reunião do Conselho dos Cardeais com o Papa voltou a contar com três mulheres novidade

Pela quarta vez consecutiva, o papel das mulheres na Igreja voltou a estar no centro dos trabalhos do Papa e do seu Conselho de Cardeais – conhecido como C9 -, que se reuniu no Vaticano nos últimos dois dias, 17 e 18 de junho. Tratou-se de uma reflexão não apenas sobre as mulheres, mas com as mulheres, dado que – tal como nas reuniões anteriores – estiveram presentes três elementos femininos naquele que habitualmente era um encontro reservado aos prelados.

Liga Operária Católica apela aos trabalhadores que se sindicalizem

Reunida em Seminário Internacional

Liga Operária Católica apela aos trabalhadores que se sindicalizem novidade

“Precisamos que os sindicatos sejam mais fortes e tenham mais força nas negociações e apelamos a todos os os trabalhadores a unirem-se em volta das suas associações”. A afirmação é dos representantes da Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos (LOC/MTC), que estiveram reunidos no passado fim de semana no Museu da Central do Caldeirão, em Santarém, para o seu Seminário Internacional.

Escravatura e racismo: faces da mesma moeda

Escravatura e racismo: faces da mesma moeda novidade

Nos últimos tempos muito se tem falado e escrito sobre escravatura e racismo no nosso país. Temas que nos tocam e que fazem parte da nossa história os quais não podemos esconder. Não assumir esta dupla realidade, é esconder partes importantes da nossa identidade. Sim, praticámos a escravatura ao longo de muitos séculos, e continuamos a fechar os olhos a situações de exploração de pessoas imigradas, a lembrar tempos de servidão.[Texto de Florentino Beirão]

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This