Contributo do teólogo James Hanvey, SJ

Por uma teologia renovada em sintonia com a Igreja sinodal

| 5 Jun 2023

reuniao papa com bispos no vaticano a 29 agosto 2022 foto vatican media

Francisco deseja “uma teologia do acolhimento e do diálogo, que não seja apologética ou proselitista”. Foto © Vatican Media.

 

Estão equivocados todos aqueles que, por causa do estilo “pastoral e coloquial” do dinamismo que o Papa Francisco veio trazer à Igreja nestes dez anos, tendem a “subestimar e desvalorizar a profundidade intelectual e os conhecimentos teológicos que informam os seus ensinamentos e ações”. A afirmação é do teólogo e professor jesuíta James Hanvey que, num artigo publicado na revista La Civiltà Cattolica, intitulado “Francis’ Vision for a Renewed Theology” [a visão de Francisco para uma renovada teologia], procura explorar o que seria uma teologia ao serviço da Igreja, segundo o Papa.

James Hanvey começa por colocar a pergunta: “Até que ponto a Igreja é bem servida pelo estado atual da teologia e pela variedade de escolas teológicas e metodologias que nela operam?”. Nos dois lugares, que se poderiam dizer naturais, em que a “teologia formal” tem lugar hoje – as faculdades de teologia e os seminários – pode correr-se o risco de, no primeiro caso, ela “ficar restrita aos seus próprios discursos e disputas académicas, cada vez mais forçada a defender o seu lugar” institucional; enquanto que, no segundo, corre o risco de ficar “presa de uma introversão estéril, em que a sua busca se limita às certezas indiscutíveis de uma catequese enfadonha”.

Ainda que reconhecendo que quer nas universidades quer nos seminários se desenvolve um “trabalho impressionante”, o teólogo entende que para todos os que buscam “o sentido da sua fé e desenvolvem vidas e práticas espirituais que exprimem as ‘razões da esperança’”, “é necessária uma teologia que não seja apenas um exemplo de scientia, mas de sapientia”, e que “seja capaz de refletir o sensus fidelium”.

 

Uma Igreja com chagas, mas capaz de compaixão

encontro do papa com vitimas violencia congo, foto twitter papeenrdc

O Papa durante um encontro com vítimas de violência no Congo, em fevereiro de 2023, rosto de “uma Igreja capaz ainda de surpreender o mundo com a sua compaixão, o seu empenhamento para com os marginalizados e os sem-poder”. Foto © @papeenrdc, via Twitter.

 

“Uma tal teologia, afirma o artigo, reconhece a realidade de uma Igreja marcada por abusos, encobrimento e corrupção, mas uma Igreja capaz ainda de surpreender o mundo com a sua compaixão, o seu empenhamento para com os marginalizados e os sem-poder, ainda capaz de persistir no serviço quando os governos se esqueceram e os meios de comunicação social se afastaram”.

“Esta é uma Igreja num caminho sinodal que vive na transcendência da sua própria experiência de perdão e misericórdia, compaixão e arrependimento. A partir da sua própria pobreza, em comunhão com todas as gerações, passadas, presentes e futuras, ela bebe da fonte vivificante dos seus sacramentos. Todos os dias empreende a sua metanoia do coração, da mente e do espírito”, acrescenta ainda o artigo.

 

Identificar a missão da teologia renovada

Papa Francisco e Papa Tawadros II, durante a audiência-geral de 10 de maio de 2023. Foto © Vatican Media.

Papa Tawadros II, do Egito, e Papa Francisco, durante a audiência-geral de 10 de maio de 2023. O diálogo para o qual Francisco tem procurado abrir espaço é entre as nações, especialmente onde há tensões e conflitos, como também dentro da Igreja e com outras religiões. Foto © Vatican Media.

 

O autor vai buscar a um discurso feito por Francisco à Pontifícia Faculdade Teológica do Sul de Itália, em 2019, as caraterísticas identificadoras da missão da teologia renovada ao serviço da Igreja e do mundo, que deve ser “a missão evangélica da Igreja, delineada na Evangelii Gaudium”. Entre essas caraterísticas, o teólogo James Hanvey sublinha quatro, aqui sintetizadas:

1) Uma Teologia do Acolhimento e do Diálogo. O diálogo para o qual Francisco tem procurado abrir espaço é entre as nações, especialmente onde há tensões e conflitos, como também dentro da Igreja e com outras religiões, como tem sido manifesto no processo sinodal. “Não é surpresa, portanto, que ele deseje uma teologia do acolhimento e do diálogo … que não seja apologética ou proselitista”.

2) A Teologia do Acolhimento como Teologia da Escuta. “A hermenêutica vivida pressupõe e envolve uma escuta consciente. Esta é uma tentativa não apenas de “ouvir” o que é dito, mas de entender o que é dito no respetivo contexto, tanto na sua história como na sua experiência. Por isso, essa escuta deve estar profundamente conectada com as culturas, os povos e as suas narrativas. Significa atender a todas as gerações, especialmente aos jovens. Ouvir permite que eles deem a sua própria contribuição para a comunidade (…)”.

3) Uma Teologia Interdisciplinar: Requisitos Morais e Espirituais da Teologia. Uma “teologia acolhedora” requer a capacidade de interpretar e discernir e, portanto, requer teólogos que possam trabalhar juntos de forma interdisciplinar. Aqui, o leque de “teólogos” inclui sacerdotes, religiosos, leigos e leigas. No seu enraizamento eclesial, eles estão abertos às “novidades inesgotáveis do Espírito”. Eles sabem como escapar “das lógicas autorreferenciais, competitivas e ofuscantes que muitas vezes existem nas nossas próprias instituições académicas e muitas vezes escondidas nas nossas escolas teológicas”.

4) Uma Teologia em Rede. Entende-se rede como “o necessário trabalho interdisciplinar no qual a teologia deve estar comprometida”. Mas também como “construção de relacionamentos, partilha de conhecimentos e visões de universidades eclesiásticas que, à sua maneira, testemunham uma ‘sociedade justa e fraterna’”. O Papa vê todos esses níveis de rede como trabalho evangélico, ou seja, “em comunhão com o Espírito de Jesus que é o Espírito de paz, o Espírito de amor em ação na criação.

‘Em solidariedade com todos os náufragos da história’

O Papa Francisco lava os pes aos jovens reclusos no Casal de Marmo, 6 abril 2023, foto Vatican Media

O Papa Francisco lava os pés a jovens reclusos, 6 abril de 2023. A visão de Francisco procura superar uma “atitude defensiva”, em prol de “uma Igreja missionária ou evangélica, profundamente comprometida com o mundo, especialmente com os pobres, abandonados e sofredores”. Foto © Vatican Media.

 

Face ao perfil do teólogo traçado pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1990, a visão de Francisco procura superar uma “atitude defensiva”, em prol de “uma Igreja missionária ou evangélica, profundamente comprometida com o mundo, especialmente com os pobres, abandonados e sofredores”.

Nessa linha, o trabalho da teologia, afirma o teólogo jesuíta, “não é apenas especulativo, mas também performativo e transformador, trabalhando com outras agências académicas e sociais para o bem humano e ecológico duradouro”.
Daqui tira o Papa um perfil da identidade do teólogo profissional/académico, apresentado em três aspetos:

1) O teólogo é filho do seu próprio povo. Isto é simultaneamente fonte, solo e recurso para uma teologia enraizada que o teólogo é solicitado a desenvolver.

2) O teólogo é um crente. Ele é aquele que “busca conhecer Deus … revelado em Cristo, “na palavra, no silêncio, na ferida e na cura, na morte e na ressurreição”. Este é um desafio para quem procura praticar a teologia de maneira “neutra em relação à fé”, como se se tratasse de mais uma disciplina académica.

3) O teólogo é um profeta. Dado que “a fé põe à disposição a riqueza do passado e o chamamento do futuro”, o teólogo “é também o arauto da história da salvação, que testemunha a ação salvífica de Deus na história (tradição) e a promessa do futuro dada em Cristo”. O trabalho profético da teologia é trazer essa perspetiva para todas as coisas. Portanto, não só começa nas realidades do mundo, mas também na oração: “É uma reciprocidade entre o mistério pascal e tantos que se perguntam: ‘Onde está Deus?’”.

 

Nota: Este texto foi publicado originalmente na publicação inglesa Dimensions of Faith, em março de 2023, onde se pode ler em versão integral.

 

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