Por uma transumância outra

| 22 Abr 2024

[domingo iv da páscoa // último dia da semana de oração pelas vocações – b – 2024]

Ovelha

[cantai a liberdade / rompei fios laranjas ― / outra transumância © Joaquim Félix]

1. Enquanto me deslocava para aqui,
reparei que as viçosas paisagens com giestas a florir
eram pontuadas por ovelhas dispersas pelos campos.
É algo que sucede por todos os lados:
com a menor disponibilidade para as práticas agrícolas,
os proprietários colocam, nas suas terras semiabandonadas,
umas quantas ovelhas para cuidarem da sua limpeza.
São pequeninos rebanhos, quase sempre desacompanhados,
cujo ‘pastor’ é frequentemente um fio elétrico de cor laranja.

2. Sendo uma imagem cada vez mais frequente,
penso que Jesus, hoje, não se autointitularia «Bom Pastor» (Jo 10,11).
No seu tempo, sem dúvida, a parábola tinha grande pertinência,
devido à predominância da cultura agro-pastoril.
Porém, em nossos dias, em que é preciso explicar
o que é um rebanho à generalidade das crianças e dos jovens,
Jesus teria contado uma outra parábola, seguramente mais impressiva.
Até porque a maior parte das ovelhas que vamos vendo
nos parecerá mais uma metáfora visual, sim,
mas das comunidades paroquiais em regime-geral-de-semiabandono.
Digo-o no sentido em que se constata uma menor envolvência comunitária,
sendo notória, ao contrário do paradigma vigente até há pouco tempo,
a escassa presença, quer dos paroquianos quer das lideranças.
Situação para a qual contribuirá, a par de outros motivos,
a diminuição da presença física dos párocos
ao serviço de várias comunidades com acumulação de solicitações.
É verdade que atualmente existem outras formas de acompanhamento;
porém, há vínculos de proximidade que só a ‘lei da residência’ garante.

3. Ainda há localidades onde se pratica a transumância dos rebanhos
e de outros animais autóctones, nas chamadas ‘vezeiras’,
como sucede, por exemplo, aqui bem perto, na Vila do Gerês.
É possível contemplar estas deslocações de animais,
normalmente com imagens de rara beleza, na semelhança de ‘paradas’,
em várias Serras, como a da Estrela, e nas planícies alentejanas.
Neste sentido, seria ótimo rever um apontamento videográfico,
intitulado «alentejo – transumância» realizado por Miguel Gaspar,
com um rebanho de ovelhas, em Castro Verde.
Até porque aos sons dos ovinos junta-se a música original de António Chainho,
com Carlos Silva e Jürgen Ruck à viola,
gravada num dos concertos do Festival Terras Sem Sombra,
na igreja Matriz de Santiago do Cacém, no mês de maio de 2015:

Há, porém, outros costumes de transumância e bênção dos rebanhos,
como em Santo António dos Cabaços – São Cosmado, em Mangualde,
orbitando em torno da capela, cumprindo a sua ‘romaria’:

4. Sim, são imagens de beleza atraente, no seu esplendor apotrópico,
a preservar, onde subsistem, para alegria das suas gentes.
Todavia, hoje, na Igreja, em cada comunidade espiritual,
precisamos de uma transumância outra, para a qual é urgente fazer caminho.
Antes de mais, urge a transumância da linguagem,
na difícil arte da tradução e da criação ex novo.
Para isso, carecemos de compreender a idiossincrasia da partida,
a fim de encontrarmos equivalências dinâmicas,
tão pertinentes quanto as parábolas originais de Jesus.

5. Como poderia Jesus continuar a autointitular-se «Bom Pastor»?
Por certo, na frescura que suscitam os seus gestos e as suas palavras.
E na beleza oblativa da sua vida pelos amigos até ao fim (cf. Jo 13,1;15,13).
Pelo conhecimento que de nós tem, com amor ‘preocupado’.
E, por isso, no combate que oferece aos lobos da história, em nossa defesa.
Por reunir pessoas, de proveniências e culturas diferentes,
enriquecendo, de forma qualificada, a única fraternidade universal.
A beleza de Jesus exala-se na experiência da sua mensagem;
atrai-nos à semelhança dos perfumes das giestas e da urze em flor.

“No combate que oferece aos lobos da história, em nossa defesa.” Foto: Puebla de Sanabria © Joaquim Félix

6. Não precisaremos de fixar-nos apenas no salmo 23,
para nos alegrarmos, quotidianamente, com o que Ele faz por nós.
Porquê? Porque, da fonte continua a promanar a água-das-liberdades,
que dessedenta a nossa condição de filhos,
com um amor admirável, belo e esperançoso…
até à visão da semelhança divina, o maior dom futuro (cf. 1Jo3,1-2).
E desta liberdade quem nos poderá cortar as asas?
Sim, nem os lobos nem os milhafres deste mundo
podem silenciar a fé incensurável no nosso cancioneiro de intervenção.
Ou não «foi para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gal 5,1)?

7. Estando na semana que vamos comemorar os 50 anos do 25 de abril,
e por falar em canções de intervenção,
nós cristãos podemos cantar esta liberdade com gestos medicinais,
semelhantes ao de Pedro, com o qual curou o aleijado de nascença.
Sim, misturando o seu olhar atento ao Nome de Jesus,
junto à porta formosa do templo de Jerusalém (cf. Actos 4,8-12).
A liberdade, que Jesus nos concede como dom e incumbência,
não resulta de uma negociação política ou de revoluções armadas.
Tal como Alfredo Teixeira referiu, a propósito de uma conversa
promovida, no dia 16 de abril, pelo Centro de Reflexão Cristã,
também não pretendo ‘batizar’ as canções de intervenção,
que primaveravam, digamos assim, no 25 de abril de 1974.
Porém, algo me parece importante sublinhar:
este universo cançonetístico, por vezes parafraseando a mensagem cristã,
poderia suscitar, nestes tempos sombrios e de extravio,
uma linguagem renovada para os nossos cantares.

8. Muitos de nós recordarão as canções de José Afonso,
José Mário Branco, Lopes Graça, Adriano Correia de Oliveira,
Sérgio Godinho…e de tantos outros.
Acolhedores da bela mensagem de Jesus ressuscitado,
como não cuidar, com autenticidade e entusiamo,
das sínteses (querigmas) do nosso anúncio pelo testemunho,
sempre prontos a dar razões da esperança cristã
a quem no-la pedir (cf 1Ped 3,15)?
Ou seremos, por ventura, rouxinóis de asas e bicos cortados?
Poderá alguém roubar-nos o encanto luminoso da noite pascal?

9. Imagino que alguns de vós estarão a pensar, e bem,
em Francisco Fanhais e na sua «Cantilena»,
cuja letra é da autoria de Sebastião da Gama,
poeta de quem se comemorou, no passado dia 10 de abril,
o centenário do seu nascimento.
É verdade, sim, e para partilhá-la com quem não conhece,
meditemos a letra da canção, repleta de sentido metafórico,
para não nos tornarmos rouxinóis aprisionados por passarinheiros:
«Cortaram as asas/ ao rouxinol / Rouxinol sem asas/ não pode voar //
Quebraram-te o bico,‎/ rouxinol!/ Rouxinol sem bico/ não pode cantar//
Que ao menos a noite/ ninguém, rouxinol,‎/ ta queira roubar.‎/
Rouxinol sem noite/ não pode viver».

Oh, como me lembro, e muitos de vós também,
quando, nos passeios de escola, no final do ano letivo,
as nossas mães contagiavam os filhos nos autocarros,
cantando a canção «Somos livres», aprendida com Ermelinda Duarte,
atingindo o seu auge sobretudo nos versos:
«Uma gaivota voava, voava, asas de vento, coração de mar.
Como ela, somos livres, somos livres de voar»:

10. Na mensagem que escreveu (aconselho a meditar na íntegra)
para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações,
que hoje se celebra na Igreja,
o Papa Francisco diz-nos que todos somos
«chamados a semear a esperança e a construir a paz».
Mais, ele estimula-nos a não sermos rouxinóis mudos e sem voos:
«Tal é, em última análise, a finalidade de cada vocação:
tornar-se homens e mulheres de esperança.
Como indivíduos e como comunidade,
na variedade dos carismas e ministérios,
todos somos chamados a ‘dar corpo e coração’ à esperança do Evangelho
neste mundo marcado por desafios epocais».
E, lembrando-se da Jornada Mundial da Juventude, realizada em Lisboa,
repete-nos: «Tende a coragem de vos envolver!».

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia do Domingo IV da Páscoa na liturgia católica – último dia da semana de oração pelas vocações – proferida nas celebrações eucarísticas das paróquias de Tabuaças (igreja das Cerdeirinhas), Vilar Chão e Eira Vedra (arciprestado de Vieira do Minho).  

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