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autores - Sofia Sidick

Mulheres no Ramadão – Testemunhos (3)

Porque jejuamos?

| 28/03/2025

 

Sou mulher, mãe e muçulmana, nascida e criada na bela cidade de Lisboa, nos anos 80, licenciada na grande Universidade Católica, e sempre intrincada entre a tradição indiana, a religião islâmica e a cultura portuguesa que tanto me define.

Sigo com gosto, prazer e orgulho a tríade que tanto me define. Nem sempre é fácil, mas sou um ser pensante apenas submissa a Deus, nosso Criador, o Misericordioso. Ele transmitiu a Mensagem (Alcorão) que escolhi seguir como código de vida.

No islão, os cinco pilares fundamentais definem: a nossa submissão voluntária a Deus, a prática de orações diárias, a entrega de caridade aos desfavorecidos, o mês de jejum – Ramadão e, ainda, a derradeira viagem na peregrinação a Meca.

Se enquanto pessoa sigo a religião muçulmana, também é um facto que procuro o conhecimento, a todo o momento. Há premissas das quais não prescindo, como sejam: ter liberdade/opinião/carisma/independência financeira e acima de tudo, respeitar e ser respeitada.

Sei que fui, ao longo do tempo, a única muçulmana dos meus colegas/amig@s… Fiz visitas à mesquita, expliquei vezes sem conta porque não consumia carne de porco ou bebidas alcoólicas, porque oramos virados para Meca, e sempre respondi aos curiosos/críticos/céticos sobre a minha visão do mundo.

Mas há sempre mais curiosidade sobre o “porque jejuas?”

Alcorão, Maomé, Islão

Manuscrito do Alcorão de Marrocos/al-Andalus, c. 1300. Metropolitan Museum of Art  (NY).  Atribuído a Marrocos ou ao sul da Espanha.

 

Acredito que o nosso equilíbrio salutar está entre o corpo e a alma. Basta que um deles não se encontre bem para nos desequilibrarmos da nossa harmonia. Se para o corpo encontramos resposta no equilíbrio entre vida profissional e pessoal, no ginásio ou nas dietas e até nos jejuns intermitentes, porque não reequilibrar a nossa alma com um espírito humano, de entreajuda, partilha, oração e de igual para igual?

A diferença entre o pobre e o rico é imensa, se olharmos pela bitola financeira, mas, se olharmos para as oportunidades e os atos de bondade, veremos que certamente ambos são mais semelhantes do que imaginam.

Durante o mês do Ramadão a vida continua; ou seja, levanto-me cerca de uma hora antes do nascer do sol e preparo para os meus familiares uma refeição leve, mas rica em nutrientes e eletrólitos, para nos sustentar para as dificuldades do quotidiano. Como na hora de dormir o corpo não quer alimento, mas tem de ser…

Depois das abluções, fazer a oração em família cumpre o nosso dever de transmissão. Sabemos e sentimos que vamos iniciar o nosso sacrifício para agrado de Deus. Este esforço não alimenta ninguém e custa muito, mas ajuda-nos a focar no nosso íntimo e não nos entregar aos vícios terrenos e temporários. Sentimos cansaço, mas há que preparar as marmitas de lanches de quem não pode cumprir o mandamento divino (crianças).

E a rotina continua, com o trabalho (sem pausa para beber café) de que tanto necessitamos, mantendo o foco e o profissionalismo. Depois chega a hora de almoço em que eu aproveito para rezar e dormir sentada por 30 minutos para recuperar forças.

Depois, tenho de ir buscar as crianças à escola, tratar dos banhos, rezar e cumprir com as tradições de uma mesa farta mas saudável. Até que, na hora do pôr do sol, voltamos a agradecer a Deus a saciedade da vontade de comer/beber, que em nada se aproximou ao esforço do refugiado que vive a fome diariamente e involuntariamente, que não teve nada para comer ou beber, ao longo de muitos dias…

Por fim, terminamos o dia a agradecer a Deus e a pedir perdão, pois Ele tudo nos dá e nem sempre nos lembramos de agradecer…

Ao fazermos este jejum de 13-14h, aprendemos muito o autocontrolo, no que dizemos/comemos/oramos e aprendemos que temos de dar valor a tudo o que julgamos como garantido, mas que será sempre temporário, porque Dele viemos e para Ele retornaremos, aí sim, para viver a vida no Paraíso (ameen).

Em suma, jejuo pela vontade do nosso Senhor, que enquanto sacrifico o meu corpo alimento a minha alma, limpo a minha mente e aumento o meu foco para o próximo (irmão de fé). Jejuo para ser exemplo do que me ensinaram, do que aprendi/aprendo e do que quero deixar para a minha descendência.

O Ramadão é um mês de graça, de bondade e boas ações… é um mês de luz, de união e acima de tudo de perdão… é um mês de partilha, conversas e aprendizagens.

É tão bom sentir-me assim… equilibrada e abençoada. Paz.

 

Sofia Sidick, 43 anos, é mãe, mulher, muçulmana; nascida em Lisboa, licenciou-se pela Universidade Católica; exerce funções de gestão numa multinacional.

 

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