Porque quererá alguém estudar teologia?

| 14 Dez 19

(Intervenção do autor, dia 5 de Dezembro, na apresentação do livro Teologia Como Resistência, com texto de António Marujo e fotos de António Pedro Ferreira, ed. Universidade Católica Editora. Miguel Tamen é director da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.)

 

O livro que estamos aqui a apresentar comemora os 50 anos de uma Faculdade de Teologia, e da única que existe em Portugal. Quando li o livro achei que era uma óptima oportunidade para tornar explícitas várias perguntas. São perguntas que me parecem importantes, nomeadamente: para que serve estudar teologia? E, o que é exactamente estudar teologia? Não é preciso ser-se professor de teologia para achar estas perguntas difíceis, e aproveitar e agradecer a oportunidade de lhes tentar responder em público.

Um dos principais interesses do livro, creio, é a enorme variedade de histórias e de opiniões que colige: opiniões dos seus alunos, dos seus graduados, dos seus professores, dos que a dirigiram; e muitos ocuparam sucessivamente várias dessas posições. Nenhum leitor do livro poderá duvidar de que os cursos oferecidos pela Faculdade de Teologia têm ao longo do tempo atraído muitas e muito variadas pessoas. Perceber essa atracção não é à primeira vista fácil. Os testemunhos são de pessoas profundamente diferentes entre si, no sentido em que justificam aquilo que as levou a frequentar esses cursos de modos muito 2 diferentes. Esta variedade suscita uma pergunta evidente: porque quererá alguém estudar teologia?

Os cursos de teologia partilham uma característica com outros cursos de humanidades e artes, mas também com certos cursos de ciências: à primeira vista parecem-se mais com Medicina, Escultura ou Engenharia do que com Filosofia, Matemática, ou Biologia: apontam para uma profissão, ou de certo modo ajudam pessoas ao seu exercício de uma actividade. Nessa medida são, como às vezes se diz, cursos vocacionais; mas por outro lado não são cursos apenas vocacionais.

Bem entendido, falar aqui de vocação pode prestar-se a equívocos: num contexto teológico usa-se a palavra ‘vocação’ num sentido muito particular, que de modo algum se resume ao exercício de uma profissão ou de uma actividade. Neste sentido particular do termo porém os teólogos serão os primeiros a reconhecer que nenhuma dose de teologia assegura uma vocação. Os professores de medicina e de engenharia e de escultura fariam aliás bem em aprender com os teólogos a este respeito. Talvez pudessem vir a reconhecer com mais franqueza que nenhum curso de medicina, de engenharia ou de escultura assegura só por si qualquer vocação de médico, de engenheiro ou de escultor.

A nossa pergunta no entanto mantém-se: porque quererá alguém estudar teologia? Será que este livro ajuda a responder-lhe? O título do livro define teologia como resistência. Estar-se-á a sugerir que quem quer estudar teologia terá como recompensa o prestígio que costumamos dar a quem tenta resistir a alguma 3 coisa, em especial a ameaças? Não me parece. Como reconhece argutamente um dos entrevistados, e logo no princípio do livro, a teologia não faz mexer uma palha neste mundo. É uma admissão refrescante: neste mundo há uma maioria grande de pessoas que acham pelo contrário que as suas vidas consistem em participar em combates e em lutas. Têm uma versão cansativa da sua importância. Uma hipótese alternativa seria dizer que a teologia resiste sobretudo ao facto de muito poucas pessoas levarem a sério a teologia; e que a sua resistência é a resistência a uma atitude de condescendência generalizada.

A anedota mais conhecida sobre a irrelevância da teologia é a descrição, possivelmente apócrifa, de pessoas em Constantinopla a discutir particularidades dos anjos enquanto os turcos ameaçam a cidade. Fomos ensinados a desconfiar dessas discussões; mas pode ser precipitado decidir que são irrelevantes. Não é fácil provar que a defesa militar de Constantinopla seja por natureza mais relevante que o estabelecimento das propriedades de um anjo. E seja como for a teologia caracteriza-se por ter subsistido apesar da condescendência e da troça; é um animal robusto que resiste e, se calhar desde São Paulo, o primeiro teólogo, sempre resistiu. O título do livro tem talvez razão de ser.

(O texto pode continuar a ser lido na página da Faculdade de Teologia)

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