Há já uns tempos, perguntámos ao nosso filho, Guilherme, o que é que os Reis Magos ofereceram ao Menino Jesus. Ele lá disse a resposta “certinha”: “Ouro, incenso e mirra.” No entanto, foi o que se seguiu que nos deixou a pensar. Perguntámos-lhe, ainda: “E tu, Gui, o que é que oferecerias ao Menino Jesus?”. A esta pergunta o Guilherme respondeu: “Eu dava Amor.” E nós questionámos: “Ah, sim e porquê?”, ao que o ele respondeu, com aquela naturalidade típica das crianças: “Porque tudo o que Ele faz é por Amor”.
Esta resposta do Gui fez-nos questionar qual é a imagem de Deus (e de Jesus) que passamos às crianças e, simultaneamente, fez-nos pensar na capacidade que elas têm de nos mostrar, na sua pureza e simplicidade, o essencial.
Por vezes – e inconscientemente – o discurso que usamos para falar de Deus às crianças tem uma conotação moralista e como consequência uma possível modelação de comportamento (apenas). No entanto, desta forma não é possível alcançar a raiz mais profunda: a das emoções e dos sentimentos. Frases como “Porta-te bem senão Deus (ou Jesus) fica muito triste contigo”, “Se não comeres a sopa, o Menino Jesus não te traz um presente” saem das nossas bocas e são um exemplo disso. Não estamos aqui para fazer nenhum juízo moral – até porque nós próprios proferimos frases semelhantes por vezes –, mas a verdade é que esta “pedagogia do medo” pode toldar um pouco a imagem que as crianças têm de Deus.
Em plena Quaresma, esta é uma oportunidade também para nós, adultos, refletirmos sobre a forma como percecionamos Deus. No Evangelho do II Domingo da Quaresma, conhecido como o “Evangelho da Transfiguração”, Jesus sobe ao monte Tabor com os apóstolos Pedro, Tiago e João, transfigura-se diante deles e, durante essa “revelação”, ouve-se uma “voz” – é o próprio Deus que nos fala e confirma a sua essência amorosa: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O” (cf. Mt 17, 5).
Esta frase é a chave para “entendermos” Deus e para ajudarmos as crianças a “percebê-lo”. Não se trata de um Deus de quem devemos ter medo e por causa de quem, precisamente por termos medo, vamos tentar agradar sob pena de sermos castigados. Este Deus é um Pai que apenas sabe Amar. Diríamos que a diferença reside no tipo de “voz” que ouvimos e ajudamos os nossos filhos a ouvir.

“Deus é um Pai que apenas sabe Amar.” Foto © Unona Art
A propósito desta diferença, o cardeal José Tolentino Mendonça esclarece que: “(…) podemos viver a ouvir a voz do Senhor severo, daquele que tem expetativas desmesuradas em relação a nós, aquele cujo fantasma nos esmaga, nos trava, nos bloqueia. E a única coisa que fazemos é dizer: ‘Bem, deixa-me lá esconder isto para dar o que Ele me deu e está tudo resolvido e não me meto em problemas.’” Pois bem, esta “voz” e esta imagem de Deus podem tornar possível educar crianças muito bem-comportadas e “certinhas” porque têm “respeitinho” a Deus mas, a longo prazo, serão adultos castrados emocionalmente e inseguros.
Se, pelo contrário, mostrarmos aos nossos filhos que, como indica José Tolentino Mendonça[1]: “(…) há outra coisa completamente diferente que é cada um de nós sentir, previamente, que isto não tem a ver com méritos, com virtudes, com recompensas. Tem cada um de nós de ouvir previamente no seu coração a voz de Deus que diz: ‘Tu és a minha filha muito amada, tu és o meu filho muito amado, em ti coloco o meu amor’”, então estabelece-se uma “base segura”, a partir da qual eles poderão experimentar o mundo e, ainda que errem, serão corrigidos, mas não serão julgados. Ainda sobre esta ideia dos “méritos”, convidamos-vos, caso ainda não o tenham feito, a ouvir aqui o discurso do humorista brasileiro Gregório Duvivier, que nos lembra que devemos olhar para os nossos filhos numa lógica de dádiva e não de dívida.
De facto, o nosso Deus não é um “senhor severo” de quem devemos ter medo e a quem devemos “agradar”. Ao invés disso, porque com Ele nos encontrámos, por Ele nos sentimos amados: “Então, o nosso ponto de partida não é o medo, mas é a confiança. O nosso ponto de partida não é: ‘O que é que eu posso fazer para que Ele não me caia em cima, o que é que eu posso fazer para que Ele não me julgue, o que é que eu posso fazer para que Ele não me destrua’”, conclui Tolentino Mendonça.
Nos dias que correm, nos quais cada vez mais assistimos a discursos de ódio e de punição, que se baseiam precisamente nesta “pedagogia do medo” e na ideia de que há determinadas pessoas que, por um qualquer motivo alheio às próprias, têm mais mérito e dignidade do que outras, acreditamos que é importante esclarecer as crianças (e, a bem da verdade, toda a gente) de que essa imagem não corresponde ao nosso Deus, que é um Pai que Ama independentemente dos nossos “méritos”. Só assim, ajudaremos a formar futuros adultos que construirão uma sociedade onde todos (e cada um) têm o seu lugar. Parece-nos que é num mundo assim que queremos que eles (e todos) vivam, não é?
A Daniela tem 37 anos e é corretora de resseguro. O Nuno tem a mesma idade e trabalha na área da Comunicação de Ciência. Têm em comum o facto de se terem conhecido em atividades da Comunidade Juvenil da paróquia da Amadora, de serem casados e pais do Guilherme, de 4 anos. De momento, estão ligados à pastoral familiar da paróquia onde se conheceram. Acreditam que o acolhimento é o mais importante e que o Amor, nas várias formas através das quais se manifesta, salva vidas!










