Porquê um tão longo silêncio (II) – Clericalismo, abuso do poder e ausência de debate

| 13 Ago 19

Na segunda parte do seu texto (cujo primeiro capítulo se pode ler aqui), Ignace Berten analisa as causas do manto de silêncio com que a hierarquia da Igreja Católica tentou esconder as práticas de abusos sexuais. O autor, padre dominicano belga e teólogo, aponta o clericalismo católico como um dos elementos mais decisivos da atual conjuntura eclesial e traça um percurso para enfrentar a crise.

Os casos de abuso sexual na Igreja Católica. Ilustração © Christian Seebauer/Wikimedia Commons

 

A Igreja, a todos os níveis, é uma instituição e, como qualquer instituição, protege-se: sabemos, mas não queremos dizer nada, não queremos saber, porque isso prejudicaria a imagem da instituição, neste caso, a imagem da Igreja, tanto entre os fiéis como na sociedade em geral. Esse silêncio é baseado em redes internas de cumplicidade: isso ficou muito claro no Chile. Mas a Igreja, por meio dos seus atores institucionais, faz questão de manter a sua imagem de guardiã da ordem moral da sociedade e da influência que deseja ter nesse campo. Ela tem medo de perder o seu crédito social e cultural, e faz questão de manter a sua autoridade sobre os fiéis. Mas este medo de ver o problema e reconhecê-lo, medo de torná-lo público, colocando um manto sobre a realidade, tem um efeito exatamente oposto ao desejado.

Quando as coisas vêm à luz do dia por causa de processos externos à própria Igreja, especialmente quando a justiça civil e os jornalistas se envolvem, o descrédito é maior e mais brutal. Isso é evidente hoje. Essas práticas gravemente imorais, que envolvem não só padres e religiosos, mas também bispos e cardeais, desacreditam profundamente na opinião pública e entre os fiéis o rigoroso discurso da Igreja, especialmente no domínio sexual. E, mais amplamente, esta revelação quebra a confiança na Igreja e leva alguns católicos a distanciarem-se publicamente. Nos últimos tempos e em determinados países tem havido um considerável aumento no número de pessoas que pedem que os seus nomes sejam riscados dos registros batismais (fenómeno de “desbatismo”). O silêncio desejado e organizado desacredita talvez mais a Igreja como instituição do que as próprias práticas criminosas.

Essa preocupação com a imagem teve consequências dramáticas, em particular o facto de não levar a sério o sofrimento das vítimas, a incapacidade de realmente ouvirem o que se passa. Isso também resultou na incapacidade de tomar as decisões necessárias: os padres ou os clérigos foram discretamente transferidos sem qualquer preocupação com o que fariam na sua nova posição e sem aplicar sanções reais, e acima de tudo evitamos ouvir rumores sem denunciar os culpados à justiça civil. Sem dúvida também, muitos bispos ou superiores religiosos não estavam cientes (não mais do que os fiéis) da extensão do problema (era apenas um caso lamentável para nós, mas não falamos sobre isso com outros bispos ou superiores). E quando as coisas chegavam a Roma (em que proporção?): especialmente sem barulho! Ninguém imaginou a real extensão do drama tal como ele é hoje.

 

O caráter propriamente eclesial da crise

Há uma outra dimensão institucional, uma dimensão propriamente eclesial, que reforça o problema da gestão da pedofilia e dos crimes sexuais na Igreja. Penso que devemos destacar três aspetos desse problema institucional propriamente eclesial.

— A sacralização do sacerdote mantida pela Igreja (o simbolismo da liturgia da ordenação é muito expressivo a este respeito pelas suas referências ao culto do Templo, referências no entanto mitigadas, no ritual promulgado por Paulo VI em relação ao ritual pré-conciliar), figura de autoridade intocável. O sacerdote sacralizado é representante de Deus, ele é, diz o ritual da ordenação, “configurado a Cristo, sacerdote soberano e eterno” e, portanto, revestido da sua autoridade. Ele inspira confiança e respeito. O clero da Igreja Católica instituiu-se de facto como uma casta intocável, acumulando os privilégios de honra social e religiosa, do respeito e do poder. Como resultado, a grande maioria dos envolvidos mantiveram-se calados: não se atreviam a falar sobre isso, especialmente porque temiam que a vergonha recaísse sobre eles. Quando uma minoria tentava ser ouvida, não quiseram acreditar nela ou não quiseram ouvi-la. E quando, apesar de todos os factos serem comprovados, procurámos que as vítimas se calassem, até mesmo comprar o seu silêncio. Isso contribuiu em grande parte para a ocultação do problema e do drama.

— O clericalismo denunciado por Francisco (mas vai longe o suficiente?): o sistema de autoridade na Igreja é exclusivamente exercido por padres solteiros, exercendo a tempo inteiro e sendo de ordenação vitalícia, contribuindo esse estatuto para a sua sacralização. Sem dúvida, esse estatuto do padre colocado num pedestal está profundamente erodido, pelo menos nas nossas regiões, e a sua autoridade é questionada. Mas acontece que ele ainda tem de facto o poder. Há muitos exemplos de paróquias em que um padre inspirou uma equipa dinâmica de leigos no sentido de uma verdadeira corresponsabilidade, e um novo padre é nomeado para declarar claramente que ele é o padre e que é o único a decidir. Em poucos meses, praticamente todos os leigos envolvidos abandonaram a paróquia. Há aqui um claro abuso de poder precisamente porque o padre local tem o poder e somente ele. E as queixas dirigidas ao responsável regional (decano ou outro) e ao bispo permanecem sem qualquer efeito. Os leigos em geral, e as mulheres em particular, estão excluídos da gestão do problema suscitado pela pedofilia ou abusos sexuais cometidos por padres, como aliás estão excluídos de todas as questões importantes dentro da Igreja: a Humanae Vitaefoi um exemplo eloquente. Daí a incapacidade de medir a profundidade e a amplitude do drama. É, portanto, necessário restaurar radicalmente a questão da autoridade, do poder e, portanto, dos ministérios na Igreja: o drama revela os efeitos destrutivos para toda a comunidade cristã desta forma ossificada de ministério, seja qual for a qualidade humana e a santidade de muitos padres, religiosos ou bispos.

— O facto de que tudo o que diz respeito à sexualidade tem sido objeto de desconfiança e má reputação na Igreja. Esta, apesar dos belos discursos (a teologia do corpo de João-Paulo II), mostra a sua incapacidade de realmente levar em conta esta dimensão que toca toda a vida humana. Este manto colocado sobre esta dimensão foi favorecido pelo tabu desse tema na própria sociedade marcada por um certo puritanismo muito significativo no século XI e até há não muito tempo atrás. Mas a sociedade mudou neste ponto! É urgente que a Igreja abra um espaço de livre debate e reflexão neste campo ético fundamental, um debate em que todos tenham voz. Está ligado a este assunto a questão do celibato imposto aos padres e a exclusão das mulheres do ministério e dos lugares reais de poder. O celibato não é a explicação ou a causa da pedofilia: é um elemento de um todo e a questão deve ser aberta. Mas também há questões em torno da homossexualidade. O Papa apela à sinodalidade, isto é, à participação de todos, para que todos possam ter voz no espírito de Vaticano II a que ele se refere constantemente.

Esta grande crise é agravada pelas lutas de poder na Igreja, na cúria (Francisco também a denunciou com rigor) e em alguns episcopados nacionais (nos Estados Unidos, por exemplo). Golpes baixos, declarações públicas incendiárias, manobras encobertas: tudo parece permissível para desestabilizar e desacreditar o Papa. A carta aberta de Viganò atesta isso, ao misturar factos reais, mentiras deliberadas, silêncios calculados, suspeitas sobre pessoas… Certamente Francisco comete erros, a espontaneidade da sua palavra às vezes engana-o (quando afirma, por exemplo, que os pais que descobrem a homossexualidade de um dos seus filhos devem consultar um psiquiatra; o psiquiatra, por profissão, só trata de doenças…). Mas ele é uma das únicas grandes autoridades morais de hoje. E os seus erros podem contribuir a não idealizar a sua autoridade.

 

Enfrentar a crise

Como lidar com tal desmoronar, quando somente a ponta do iceberg aparece hoje, e é óbvio que outros factos virão à luz, que haverá outras revelações noutras dioceses, noutros países? Como enfrentar o fenómeno de omertà que tem surgido em todos os níveis da Igreja, e que continua a existir em certos lugares?

É necessário querer ir ao final da análise deste cancro que atormenta a Igreja. Na sua carta ao povo de Deus, Francisco afirma explicitamente que “é impossível imaginar uma conversão da ação eclesial sem a participação ativa de todos os elementos do povo de Deus.”

Esta participação ativa tem muitas implicações.

No que diz respeito à questão específica da pedofilia ou outros abusos sexuais de que os padres são culpados, é necessário encorajar as vítimas ou os seus parentes a recorrer aos tribunais o mais rápido possível. Da sua parte, os bispos ou superiores religiosos informados devem transmitir as informações ou acusações ao sistema de justiça civil; respeitar e apoiar o trabalho da justiça e colaborar plenamente, sem procurar proteger-se. Progressos significativos foram feitos neste sentido, com o apoio muito claro de Roma, mas este não é o caso em todos os lugares. A Igreja na Bélgica tem funcionado bem e hoje, felizmente, está clara neste assunto (há, porém, a mesma clareza em todas as ordens religiosas e congregações?): a Comissão Parlamentar Adriaenssens “sobre o tratamento de abusos sexuais e pedofilia num relacionamento de autoridade, especialmente dentro da Igreja” (2010-2011) fez um excelente trabalho e a Igreja colaborou plenamente. O mesmo é verdade noutros países como a Holanda, mas isso está longe de ser o caso em todo o lado. E devemo-nos perguntar: por que essas posições claras e corajosas são tão recentes? Por que não há trinta ou quarenta anos atrás?

Em relação à responsabilidade dos bispos e superiores religiosos (*), a verdadeira transparência deve ser implementada. O Papa Francisco é muito claro sobre esse requisito. A transparência é hoje um requisito ético para todos os lugares de poder na sociedade e, claro, na Igreja. Deve enfrentar-se a difícil questão de abrir os arquivos das dioceses ou das ordens religiosas para que se possa analisar a forma como as queixas foram tratadas. No presente contexto, a destruição de parte desses arquivos pode ser considerada uma falha grave, mesmo que não se refira diretamente à pedofilia: o próprio facto do ato de destruição gera suspeitas. Mas isso também implica um grande rigor deontológico: esses arquivos contêm várias informações que dizem respeito à vida privada das pessoas, com informações que nada têm a ver com a questão da pedofilia ou do abuso sexual.

O que é amplamente questionado hoje em dia não é apenas o facto dramático da pedofilia e de outros abusos sexuais, é a negação da responsabilidade de muitos bispos e de Roma, é o silêncio sobre o que eles sabem, entre outras coisas sobre outros bispos irmãos: sobre este assunto houve um verdadeiro omertà na Igreja. Os bispos devem ser responsabilizados publicamente (accountability) pela forma como trataram as queixas que lhes foram dirigidas. Nestas circunstâncias, é óbvio que não pode pertencer a uma comissão constituída única ou principalmente por bispos para avaliar a responsabilidade ou a irresponsabilidade dos bispos envolvidos; a presidência e os poderes legais devem necessariamente ser não-clericais.

Claramente não chega obter a demissão dos bispos envolvidos: não deveria haver um procedimento que pudesse “reduzi-los” ao simples estado presbiteral, excluindo-os de qualquer responsabilidade ministerial ou nos casos mais graves, pronunciar a privação do estado clerical (termo atualmente usado pela lei canónica em vez de redução ao estado leigo)? O cardeal McCarrick foi privado do seu estatuto de cardeal, uma medida excecional na Igreja, mas será suficiente em relação à gravidade das acusações registadas contra ele? [Nota: em fevereiro de 2019, o ex-cardeal foi demitido do seu estado clerical]

Ignace Berten, setembro 2018

 

Nota 

(*) A partir daqui, sempre que falar dos bispos, refiro-me também aos superiores religiosos. 

(ver elementos sobre o autor no final da primeira parte deste ensaio)

Tradução Florbela Gomes (fbgottra@gmail.com)

(Título e subtítulos da responsabilidade do 7MARGENS)

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Doentes de covid-19 mantêm “direito e acesso à assistência espiritual e religiosa” nos hospitais

A Coordenação Nacional das Capelanias Hospitalares emitiu um comunicado esta quarta-feira, dia 1, para esclarecer que “os capelães não estão impedidos de prestar assistência espiritual e religiosa”. Têm, isso sim, de cumprir “medidas de contingência existentes nos hospitais”, como todos os profissionais, por forma a minimizar os “riscos de contágio, quer dos capelães quer dos próprios doentes e dos profissionais”, sublinha o documento.

Cardeal Tagle propõe eliminar a dívida dos países pobres

O cardeal filipino Luis Antonio Tagle, prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, propôs a criação de um Jubileu especial em que os países ricos perdoem a dívida dos países pobres aos quais concederam empréstimos, de forma a que estes tenham condições para combater a pandemia de covid-19.

Oxfam pede “um Plano Marshall de Saúde” para o mundo

A Oxfam, ONG de luta contra a pobreza sediada no Quénia e presente em mais de 90 países, pediu esta segunda-feira, 30, “um plano de emergência para a saúde pública” com a mobilização de 160 biliões de dólares. Este valor permitiria duplicar os gastos com a saúde nos 85 países mais pobres, onde vive quase metade da população mundial.

Peter Stilwell deixa reitoria da única universidade católica da R.P. China

O padre português Peter Stilwell será substituído pelo diácono Stephen Morgan, do País de Gales, no cargo de reitor da Universidade de São José, em Macau.  A mudança, que já estava a ser equacionada há algum tempo, está prevista para julho, depois de um mandato de oito anos naquela que é a única universidade católica em toda a República Popular da China.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Costurar máscaras cirúrgicas em vez de vestes litúrgicas, ou como combater a pandemia no convento

Costurar máscaras cirúrgicas em vez de vestes litúrgicas, ou como combater a pandemia no convento

À medida que a pandemia alastrava, a angústia crescia no pequeno mosteiro do sul de França onde vivem as Irmãs da Consolação do Sagrado Coração e da Santa Face. As 25 religiosas queriam fazer mais do que rezar. Diante da imagem de Nossa Senhora do Povo, que acreditam ter salvo a sua região da peste em 1524, pediram lhes fosse dada uma tarefa: queriam colaborar com a virgem no combate a esta nova pandemia. No dia seguinte, receberam uma chamada do bispo da diocese e outra do presidente da câmara: ambos lhes pediam para fabricar máscaras.

É notícia

Entre margens

A ilusão do super-homem novidade

As últimas semanas em Portugal, e há já antes noutros cantos do mundo, um ser, apenas visível a microscópio, mudou por completo as nossas vidas. Na altura em que julgávamos ter atingido o auge da evolução e desenvolvimento técnico e científico, surge um vírus.

Esse Deus não é o meu!

Os fundamentalismos alimentam-se do medo, do drama e da desgraça. Muitos deles sobrevivem ainda do Antigo Testamento, a fase infantil da revelação divina na perspectiva cristã.

Cultura e artes

Editora francesa oferece “panfletos” sobre a crise

Sendo certo que as doações essenciais neste período de pandemia dizem respeito a tudo o que nos pode tratar da saúde física, não há razão para negligenciar outras dádivas. É o caso de uma das mais famosas editoras francesas, a Gallimard, que diariamente oferece textos que pretendem ser uma terceira via entre a solenidade da escrita de um livro e o anódino da informação de um ecrã.

Nick Cave e o espanto de Maria Madalena defronte do túmulo

É um assombro que espanta Nick Cave, aquele em que Maria Madalena e Maria permanecem junto à sepultura. Para o músico australiano, este é provavelmente o seu momento preferido da Bíblia. Jesus tinha sido retirado da cruz, o seu corpo depositado num túmulo novo, mandado talhar na rocha, e uma pesada pedra rolou para fazer a porta da sepultura. Os doze discípulos fugiram, só Maria Madalena e “a outra Maria” ali ficaram diante do túmulo.

Sete Partidas

Um refúgio na partida

De um lado vem aquela voz que nos fala da partida como descoberta. Um convite ao enamoramento pelo que não conhecemos. Pelo diferente. Um apelo aos sentidos. Alerta constante. Um banquete abundante em novidade. O nervoso miudinho por detrás do sorriso feliz. Genuinamente feliz. O prazer simples de não saber, de não conhecer…

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco