Hans Zollner sobre abusos sexuais

“Portugal está ainda no começo do processo de lidar com o passado”

| 20 Jun 21

Ainda há dificuldade em lidar com o passado, mesmo numa sociedade como a portuguesa, como se pode verificar com o processo Casa Pia, diz o padre Zollner, responsável no Vaticano para as questões de abusos de menores. E duas entrevistas publicadas agora pelo portal dos jesuítas e na página da diocese de Braga, Zollner diz que não basta um endereço electrónico numa página de internet: o mais importante é “criar um ambiente de confiança”.

Hans Zollner: “as pessoas precisam de saber onde ir”. Foto retirada do vídeo da entrevista ao PontoSJ.

 

“Portugal está ainda no começo do processo de lidar com o passado”, no que diz respeito aos abusos de menores por parte de membros do clero, diz o padre Hans Zollner, presidente do Centro para a Protecção de Menores (CPM), da Universidade Pontifícia Gregoriana.

Numa entrevista publicada neste domingo no PontoSJ, portal dos jesuítas em Portugal, o padre Zollner diz que tem descoberto que o tema dos abusos é antes de mais uma situação profundamente humana e antropológica: “E pelo que entendi, mesmo na situação portuguesa, lembrando o que se passou na Casa Pia, há uma resistência na sociedade a falar deste tema. Esta é uma face muito feia da humanidade. E claro, há também uma resistência da Igreja. Escondemos a nossa cara com o chapéu, para que não tenhamos que olhar-nos no espelho. Não queremos olhar para a realidade como ela é.”

Este responsável esteve em Portugal no início do mês a orientar formações para as comissões diocesanas de protecção de menores, superiores religiosos e clero de Braga. Na entrevista, o padre Zollner, jesuíta alemão, diz que o mais importante de tudo, para lidar com este problema, “é criar um ambiente de confiança”. E justifica: “As pessoas aproximam-se para falar de experiências traumatizantes, apenas se se sentirem suficientemente seguras. É preciso comunicar com clareza que estas pessoas são bem-vindas e que há disponibilidade para acompanhá-las de verdade, uma vez que tomem a decisão de falar sobre o assunto.”

Em segundo lugar, acrescenta, “as pessoas precisam de saber aonde ir: precisam de saber nas dioceses e nas congregações religiosas quem são as pessoas a contactar, como é que essas pessoas estão qualificadas para as ouvir e o que farão com a partilha das vítimas.”

Tomando o exemplo do que se passou em outros países, o presidente do CPM da Gregoriana diz que isto não acontecerá por automatismo: “As pessoas não se aproximam apenas porque anunciamos que estamos dispostos a ouvi-las. É um processo gradual (…) em que as pessoas passo a passo se vão sentindo encorajadas, especialmente quando sabem que há outras vítimas disponíveis para partilhar os seus traumas, a sua dor e as suas feridas.”

Para que isso aconteça, sublinha o jesuíta, “é importante que haja diversidade no que se refere às pessoas que recebem as denúncias: homens, mulheres, pessoas de dentro da Igreja como padres e religiosos e pessoas de fora da igreja”. Há vítimas que preferem um tipo de pessoas e outras preferem outro, argumenta. “É importante ser claro no que será feito com o relatório da denúncia. Muitas vítimas não querem que seja público, outras nem sequer querem que as suas famílias saibam dos abusos nem os seus amigos, nem o público em geral. (…) E acima de tudo tem que haver uma comunicação consistente dizendo: ‘nós queremos acreditar em ti, queremos receber a tua denúncia, queremos, se possível, acompanhar-te no teu caminho para a justiça, para a cura e para a reconciliação’.”

 

A “aproximação espiritual” dos bispos franceses

“Sim, ainda está muito presente” o varrer as coisas para debaixo do tapete, admite Zollner. Foto © Direitos Reservados

 

Como bons exemplos na forma de lidar com o tema, Hans Zollner cita o que se passa na Áustria, onde há 11 anos foi criada uma comissão independente: “Sim, nomeada pela Conferência Episcopal, mas coordenada por uma prestigiada antiga política e com conselheiros de todos os sectores da sociedade, de todos os partidos, de todas as denominações religiosas.”

O também membro da Comissão Pontifícia para a Tutela dos Menores, criada em 2014 pelo Papa Francisco, refere ainda uma decisão dos bispos franceses, que revela “uma aproximação muito espiritual a este tema: em todas as sessões plenárias da Conferência Episcopal são lidos testemunhos de vítimas sobre a sua experiência de abuso e sobre o que esperam da Igreja”.

Numa outra entrevista, desta vez ao jornal Igreja Viva, da diocese de Braga, Zollner admite que ainda se verifica muito a tentação de varrer o assunto debaixo do tapete: “Sim, esse pensamento ainda está muito presente em algumas partes do mundo. Creio que até se verifique em bastantes países.”

Mas não é possível esconder os abusos, avisa: “Ao longo do tempo, tornar-se-ão públicos, por isso a questão é apenas esta: escolhemos falar sobre isto, promovemos a ideia de justiça, de honestidade, sinceridade e transparência?… Ou esperamos até que sejamos forçados a isso porque as vítimas de abusos nos denunciam, porque as famílias das pessoas abusadas falam sobre isto, porque os média começam a falar sobre isso?… A questão é se fazemos tudo o que é possível antes de o escândalo rebentar, ou se somos levados, forçados a isso, mesmo não sendo uma coisa que queiramos fazer.”

Ainda no jornal de Braga, o responsável do Vaticano acrescenta: “Em muitos sítios não foi assumida a responsabilidade como deveria ter sido, especialmente quando olhamos para o passado distante, de há quinze, trinta anos, e para a resistência de agora em alguns lugares no que diz respeito a assumir responsabilidades sobre o que se está a passar agora. E, tristemente, a Igreja não foi rápida, pelo menos comparando com o que as vítimas esperam.”

Ao mesmo tempo, Zollner diz ainda, na conversa com o PontoSJ, que a Igreja se deve preocupar igualmente com os abusadores. Não para “esconder ou desvalorizar o que fizeram”, mas para “evitar que voltem a abusar”.

Na entrevista ao Igreja Viva, o padre jesuíta refere-se também à questão, dizendo que se devem assumir como verdadeiras as acusações contra alegados perpetradores já morreram, ou têm demência, ou estão incapazes: “Sobretudo se não há apenas uma vítima. Normalmente há mais vítimas que se chegam à frente e dizem: ‘esta pessoa abusou de mim e de outros’. Nesse caso, as autoridades eclesiásticas devem agir como agiriam caso o perpetrador estivesse vivo: devem ouvir a vítima e oferecer ajuda e, possivelmente, algum tipo de apoio.”

 

“As crianças foram basicamente esquecidas” durante a pandemia

Na Igreja, “a preocupação com a assistência de missas” têm estado “no topo das preocupações”. Foto © Ulrike Mai / Pixabay

 

Acerca da pandemia, o padre Zollner não tem dúvida de que ela “provocou um recuo no desenvolvimento de políticas de protecção em todo o mundo e em todas as sociedades”, até porque os governos se centraram no combate à covid-19, diz, ao PontoSJ. “Por isso, a protecção de crianças mereceu muito pouca preocupação por parte dos diferentes governos e instituições. As crianças foram basicamente esquecidas pela sociedade. Na Igreja, talvez este esquecimento não tenha sido tão significativo. Mas vimos que a preocupação com a assistência de missas, o modo como podiam continuar os serviços litúrgicos e espirituais, estavam no topo das preocupações das autoridades da Igreja.”

Na entrevista ao Igreja Viva, Hans Zollner refere também a introdução do termo “pessoa vulnerável”, no motu próprio publicado pelo Papa a 1 de Julho de 2019, Vos Estis Lux Mundi. “‘Pessoa vulnerável” é um termo amplo, mas refere-se a pessoas em situação de vulnerabilidade que têm mais de 18 anos. A Igreja está agora a lidar com outros tipos de abuso: físico, psicológico e espiritual, abuso de poder e abuso sexual. E, muitas vezes, isto está tudo interligado.”

A situação nestas áreas está em permanente evolução, admite Zollner. “Nem há quatro anos começámos a falar no abuso dentro da indústria cinematográfica. O Papa Francisco começou a falar do abuso de mulheres religiosas por parte de padres há dois anos e meio. No contexto do processo contra o ex-cardeal McCarrick, o abuso de seminaristas veio à superfície. Seminaristas no Seminário Maior, que têm mais de 18 anos.”

Também tendo em conta estas mudanças, o CPM da Gregoriana irá passar a designar-se Instituto de Antropologia e Estudos Interdisciplinares sobre Dignidade Humana e Cuidado, “devido à necessidade de intervirmos a vários níveis”, diz, justificando: “Não podemos olhar apenas para o abuso sexual de menores na Igreja e na sociedade. Esta é provavelmente uma parte relevante, mas não a maior, do abuso: há outros tipos de abuso a acontecer.”

Na entrevista ao Igreja Viva (que pode ser lida na íntegra na página da arquidiocese de Braga), Zollner fala ainda da resiliência das vítimas e da possibilidade de ela voltarem ou não a ter uma vida o mais normal possível, e do modo como ele próprio se aproximou da Psicologia e de como esta área e a espiritualidade se têm aproximado.

A entrevista ao PontoSJ pode ser vista na íntegra a seguir:

 

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