Português responsável por limpeza de hospitais condecorado por Isabel II

| 25 Out 20

Maciel Vinagre, responsável dos serviços de limpeza de dois hospitais públicos britânicos durante a pandemia de covid-19, medalhado com a BEM pela rainha Isabel II. Foto: Direitos reservados

 

Maciel Vinagre, madeirense de 45 anos, foi um dos trabalhadores do serviço de saúde público britânico (NHS) reconhecido este ano na lista de condecorações, noticiou a agência Lusa, citada no Público.

Ao ler a notificação do facto, Maciel pensou que era mentira ou engano: tinha sido distinguido pela rainha Isabel II pelo trabalho como responsável da limpeza de dois hospitais públicos britânicos durante a pandemia de covid-19.

“Estava no escritório e recebi um e-mail do Cabinet Office [ministério do Governo] a dizer que tinha sido distinguido na lista da rainha. No princípio pensava que era mentira. Os meus colegas disseram-me para apagar porque podia ser fraude”, contou, entre risos, à agência Lusa.

O madeirense de 45 anos, natural de São Vicente, foi um dos trabalhadores do serviço de saúde público britânico (NHS ou National Health Service) reconhecido na lista deste ano de condecorações pelo aniversário da rainha por serviços prestados durante a pandemia com a Medalha do Império Britânico (British Empire Medal, designada como BEM).

“Nunca na vida pensei que poderia receber uma medalha destas”, confiou, ainda incrédulo, o director adjunto dos serviços de limpeza e restauração dos hospitais de Ashford e de St. Peter’s, no sudoeste de Londres, perto do aeroporto de Heathrow.

A nomeação para a insígnia foi feita por colegas e superiores pelo “conhecimento e criatividade” que demonstrou para prevenir e conter a infecção pelo novo coronavírus nos hospitais, de modo a proteger doentes e funcionários, e introduzindo novas tecnologias e produtos.

 

“Forte liderança”

O director médico dos hospitais, David Fluck, elogiou o português pela “forte liderança durante toda a pandemia” e por ter introduzido “mudanças na maneira” como a limpeza tem sido mantida nos hospitais, o que protegerá “muitos pacientes e funcionários de perigo, mesmo após o fim da pandemia”.

Uma das inovações foi a contratação de uma empresa especializada em desinfestação para aplicar um produto desinfectante que mantém as superfícies livres de vírus e bactérias durante 30 dias. “Era um produto novo no mercado e não sabíamos se era eficaz. Mas contratámo-los.” E valeu a pena: “O hospital tem uma das taxas de mortalidade mais baixas da zona.”

O português também foi elogiado pela forma como conseguiu recrutar rapidamente trabalhadores para compensar as ausências e também pela forma responsável e sensível como soube motivar os empregados de limpeza numa altura em que muitos estavam preocupados com o risco que eles próprios corriam.

Quatro funcionários dos hospitais morreram de covid-19, incluindo um empregado de limpeza sob as ordens de Vinagre, um compatriota de 71 anos chamado Manuel Santinhos. “Ele nunca quis ir para casa, quis continuar sempre a trabalhar. Esteve três semanas nos cuidados intensivos. Foi muito complicado porque os colegas ficaram com mais medo. Mas fizemos uma missa com um padre e a directora teve uma reunião com os empregados para motivá-los e conseguimos”, explicou.

 

Um dos 414 “heróis anónimos”

Maciel Vinagre recorda “momentos muito difíceis” entre Março e Junho, os piores meses da primeira vaga da pandemia, quando os dias de trabalho chegavam a estender-se por 15 horas. A liderança do português ajudou a dar visibilidade e importância às equipas de limpeza hospitalar pelo papel crucial desempenhado no combate à doença que já matou mais de 44 mil pessoas no país.

Vinagre é um dos 414 “heróis anónimos” a quem foram conferidas condecorações da rainha em reconhecimento da intervenção “excepcional” durante a crise, desde cientistas e enfermeiros a pessoas que produziram equipamento de protecção ou ofereceram refeições a profissionais de saúde e professores de ginástica que deram aulas gratuitas pela Internet durante o confinamento.

A rainha agracia dezenas de pessoas duas vezes por ano, no Ano Novo e por ocasião do aniversário oficial, em Junho, por recomendação do Governo. Este ano, a divulgação da lista foi adiada até Outubro para ter em conta nomeações de pessoas que desempenham papéis cruciais durante os primeiros meses da pandemia e deu prioridade aos “heróis da linha da frente” e da comunidade que foram além das suas obrigações para ajudar os outros.

Maciel Vinagre chegou ao Reino Unido aos 18 anos, deixando para trás estudos em contabilidade para trabalhar num restaurante e aprender a língua inglesa e “tentar uma vida melhor”. Começou como empregado de limpeza no hospital de Ashford em 1997 e chegou ao actual posto de director-adjunto em 2011, tendo desempenhado entretanto outras funções noutros hospitais do Reino Unido.

Mesmo sem um curso superior, acumulou formações profissionais que lhe permitiram progredir até um nível que dificilmente conseguiria em Portugal, e lidera agora cerca de 200 pessoas, entre os quais 30 portugueses. “Gosto do Reino Unido porque aqui dão valor à experiência, a pessoas dedicadas e empenhadas e menos aos títulos académicos. Reconhecem o mérito próprio”, disse à Lusa.

 

Os que escrevem os momentos decisivos da históai

Dependendo da evolução da pandemia, o português e todos os restantes BEM serão convidados para uma festa no Palácio de Buckingham no próximo ano, na presença de membros da família real. “Os meus pais estão na Madeira e estão muito orgulhosos. Mas se eu puder levar alguém, levo a minha filha”, já decidiu.

Em Março, quando fez a sua Oração pela Humanidade, numa Praça de São Pedro vazia, o Papa Francisco referiu-se precisamente ás pessoas anónimas que têm ajudado a manter os serviços essenciais à vida colectiva. É chegado “o tempo de reajustar a rota”, disse na ocasião, mas também de ver a forma como tantos são capazes “de resgatar, valorizar e mostrar como as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espectáculo”.

São essas pessoas, acrescentou ainda Francisco, que, “hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, responsáveis, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho”.

Maciel Vinagre estava, sem dúvida, nessa anónima e vasta lista do Papa. E agora está também na dos medalhados pela rainha de Inglaterra.

 

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