“Portugueses no Holocausto”: o “descarinho” que acabou em Auschwitz

| 1 Dez 20

Esther Mucznik é a autora da obra Portugueses no Holocausto, onde conta “histórias das vítimas dos campos de concentração, dos cônsules que salvaram vidas e dos resistentes que lutaram contra o nazismo” (A Esfera dos Livros, 2012).

A autora é uma grande estudiosa de questões judaicas. Publicou numerosos ensaios, destacando-se, entre outros, Gracia Nasi – A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino (2010) e Auschwitz – Um dia de cada vez (2015), ambos também na Esfera dos Livros.

Em Portugueses no Holocausto investiga-se exaustivamente cada assunto, recolhendo testemunhos de vidas, fotografias, notas e outros documentos. Num registo cuidado da língua, escrito simultaneamente com afecto e com objectividade.

A autora dedica esta obra “a todos os portugueses expulsos pela Inquisição e que se refugiaram em Amesterdão, Istambul e Salónica. Acreditaram que eram portugueses, mas Portugal não os reconheceu como tal. No momento em que precisavam desesperadamente da nacionalidade portuguesa, esta foi-lhes negada. “O descarinho” (termo usado pelos sefarditas, judeus da Península Ibérica, significando saudade, dor de ausência) “que sentiam acabou nas colunas de fogo de Auschwitz ou Treblinka.”

 

Descida ao inferno

A estrela que os judeus europeus eram obrigados a usar nos territórios ocupados pelos nazis e que se tornaria um símbolo de humilhação.

 

Os Judeus: “… micróbio que se espalha no sangue, tuberculose que se não fosse vencida, contaminará a Alemanha e o mundo… não parará enquanto não for extirpada a causa da enfermidade [o espírito judaico] do nosso corpo.” (discurso de Hitler, citado por Israel Gutman em Holocausto y Memória, ed. Centro Zalman Chazar, 2003). Hitler propõe, nesse discurso de 30 de Janeiro de 1939, “o aniquilamento da raça judia na Europa”.

O livro relata – através de testemunhas – os massacres perpetrados pelos Einsatzgruppen, unidades sob as ordens das SS que tinham como objectivo eliminar os judeus nos territórios ocupados. O perfil dos comandantes destas forças mostra que a maioria tem habilitações superiores. “(…) o sangue era tanto que os feridos morriam, não de balas, mas afogados na imensa massa de sangue que o terreno argiloso não conseguia absorver” (Relato sobre Berditchev, actual Ucrânia, baseado no texto de Vassili Grossman de 1944). Iniciou-se deste modo a Solução Final.

Depois, foram usados outros processos, visto que a “produtividade” da “eliminação por execução era insuficiente e indesejável o contacto directo entre os perpetradores e as vítimas”. Surge a execução através dos gases de escape de camiões, funcionando em campos criados para esse efeito, “o que se tornou algo de inédito e sem precedentes na história humana” de Leste a Ocidente da Europa. Só em 1943 surgem os fornos crematórios.

Mas a característica “essencial e absolutamente inédita do extermínio nazi não são os fornos crematórios, mas as câmaras de gás”.

 

Comunidade sefardita portuguesa de Amesterdão

Desde os fins do séc. XVI que judeus portugueses perseguidos pela Inquisição encontraram nesta cidade um porto seguro. Tratavam dos seus negócios, praticando em absoluta liberdade a cultura e religião judaicas, continuando os costumes e tradições da terra de onde tinham vindo. Falando e praticando o culto, em português, na sua esnoga (sinagoga), considerada das mais belas edificações, recheada com uma enorme biblioteca. Cerca de três séculos de paz; mas com a invasão da Holanda pela Alemanha, como diz a autora do livro, livraram-se das fogueiras da Inquisição, mas não das câmaras de gás nazis.

Dos 4303 que eram, antes da Ocupação, sobreviveram menos de 500. Nomes portugueses: Mendes da Costa, Álvares Vega, Vaz Dias, Milhado, Cortissos e muitos mais.

Portugal foi um dos países neutros na II Guerra Mundial e esta posição permitiu que a população não fosse directamente atingida pela guerra. Salazar jogava entre os desígnios da Alemanha e os da Inglaterra e Aliados, de acordo com os ventos do conflito. Por isso o nosso país, não foi um país de exílio, mas de passagem, “uma sala de espera” para tanta gente que seguirá depois para os EUA e América Latina. A comunidade israelita em Portugal apoiou o melhor possível as pessoas que, perseguidas pelo nazismo, suspiraram um pouco de alívio ao entrar em Portugal. Em geral, maravilhavam-se com a luz de Lisboa, a simpatia e generosidade das pessoas, prontas a ajudar, o que contrastava com as perseguições, a morte e a escuridão das cidades europeias, nesse terrível momento. Espiões, de ambos os lados do conflito, desaguaram em Lisboa…

A Alemanha comprometera-se – durante dois meses – a conceder vistos de saída a judeus com nacionalidade dos países neutros. Mas Salazar “colocou dúvidas sobre a nacionalidade dos portugueses residentes nos territórios ocupados”. Diz “não poder estender essa autorização a judeus de outras nacionalidades, embora de ascendência portuguesa”. Houve pedidos insistentes de judeus residentes em Amesterdão, Istambul, Salónica, França. Em vão.

Até 1940, fora possível. É narrada na obra a saga da família judaica portuguesa Cassuto. Em 1442, Isaac Cassuto era tintureiro, em Lisboa – assim podia começar uma história. Em 1933, a família regressa a Portugal, ao ver soprar os ventos antissemitas, conseguindo escapar à caçada nazi.

“Eu sou o cônsul de Portugal, leva o meu cartão, apresenta-te amanhã às 10 h e eu dou-vos o visto.”

Retrato de Aristides Sousa Mendes sobre um dos vistos passados pelo cônsul em Bordéus.

 

Passa-se o diálogo em Baiona. Bernie Kriesher é um menino de dez anos, oriundo de Frankfurt, cuja família já estava há um ano em França. É ele que testemunha. Só ele falava francês e pergunta a um senhor na rua onde era o Consulado português. O senhor era o próprio Aristides Sousa Mendes, que passou milhares de vistos e por isso foi retirado da função pública e morreu na miséria. Mas Bernie Kriesher não se esqueceu do modo generoso como foi acolhido por uma família, em Portugal e ao longo do seu testemunho, diz: – “(…) acho que me tocaram [o modo de ser dos portugueses] e agora faço o mesmo pelos outros, na Ásia, por exemplo, com os cambojanos (…)”.

Mas o nazismo estava bem implantado em Portugal, como é revelado nesta obra; por outro lado, a PVDE não andava atrás dos refugiados, mas dos resistentes e clandestinos, prendendo-os no Aljube. São relatados vários casos.

“Nada garante que estes judeus sejam portugueses…” – secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Leitão da Cunha.

 

Salónica: sevícias, assassinatos, cemitério profanado

E aos judeus portugueses residentes no Império Otomano? Em Salónica, por exemplo? Algo semelhante com o que acontecera em Amesterdão. A autora descreve com minúcia esta comunidade – 70% sefardita, ou seja, portuguesa –, fala das sevícias e assassinatos perpetrados pelos invasores alemães, a profanação de um cemitério judaico com cerca de 500 anos: “(…) ossadas de milhares de cadáveres são dispersas misturadas com o cascalho e poeira dos caminhos. De quem? Portugueses como Amato Lusitano (médico e cientista), Dona Reina, filha de Judá Abrevanel, Isaac Adrébi, chefe espiritual da sinagoga Lisboa, Abraham Henriques de Miranda e muitos, muitos mais… “uma presença que nunca esqueceu a sua pátria, a sua língua de origem”.

No entanto, outros cônsules seguiram o caminho recto da ajuda: é narrada com minúcia a acção de Sampaio Garrido, Carlos Almeida Fonseca, reconhecidos como “Justos entre as Nações”, pelo Yad Vashem de Israel, além de outros que de um modo ou outro, conseguiram salvar vidas.

Esta obra é muito minuciosa e completa, sempre justificada com testemunhos. É um importante documento sobre os judeus portugueses e a forma como a política de extermínio nazi os afectou, história desconhecida pelas gerações que vieram a seguir à II Guerra Mundial.

No século XVI, fugindo da Inquisição, conseguiram ordenar de novo as suas vidas noutros lugares, vivendo em liberdade. Mas eis que, em pleno século XX, novas perseguições e mais encarniçadas caíram sobre eles; apelando para Portugal – o seu país de origem de língua e tradições – não receberam salvação para as suas vidas.

 

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