Pós-pandemia: que sociedade?

| 22 Mai 20

Pintura no curso de artes (ARCA, Coimbra), 1992-96

Ilustração: Pintura no curso de artes (ARCA, Coimbra), 1992-96. Direitos reservados.

 

Enquanto continuamos nesta clausura mais ou menos voluntária, neste confinamento à escala global, neste “novo normal” que tomou conta das nossas vidas, importa começar a pensar como vamos viver em comunidade quando (e verdadeiramente ninguém sabe quando) estes tempos excecionais passarem.

Este distanciamento físico, afetivo e social que nos tem “afastado” dos nossos semelhantes, quebrando cruamente aquilo que faz de nós seres em relação, como sejam a dimensão do encontro, da presença física, da proximidade nos gestos e nas palavras, transformar-nos-á no pós- pandemia? Seremos pessoas diferentes, capazes de um novo olhar fraterno em sentido evangélico? Assistiremos a modificações profundas na forma de nos relacionarmos uns com os outros, menos fria, menos autocentrada, fruto da deriva individualista, um dos sinais distintivos dos nossos tempos, responsável pela ideia de que cada um de nós é responsável tão só e apenas pela “sua salvação”?

Queremos acreditar que sim! Um sinal de esperança vem, precisamente, da jovem geração, cuja necessidade de hiperligação se traduz, progressivamente, numa aparente insatisfação e saturação pelas horas sucessivas passadas frente ao ecrã e pela mediação virtual das relações humanas. Os bens relacionais são, de facto, insubstituíveis e disso fazem eco estes mesmos jovens, nos inúmeros desabafos de quem reaprendeu a importância da relação dialógica e da socialização que só se faz plenamente na presença do outro. Muitos dão conta da nostalgia que sentem de um certo quotidiano que davam como adquirido, outros recordam a felicidade de uma amizade genuína, despreocupada com o distanciamento e livre da desconfiança.

A tecnologia, tão útil num momento como este, torna-se incapaz de substituir o calor das relações humanas que só a presença e a proximidade podem garantir. Os pixels não substituem o olhar terno e tranquilizador, nem o ouvido atento e interessado, tão pouco substituem a mão que ergue das quedas, que suporta, que aplaude e encoraja. O digital não substitui o humano, por lhe faltar a alma que só a presença humana traz.

“Estar em rede” nem sempre se torna sinónimo de estar verdadeiramente “conectado” e sintonizado com os que se sentem excluídos ou em risco de exclusão. “Estar em rede” mostra-nos que é possível, com uma rapidez estonteante, chegar de um extremo do mundo ao outro, embora possamos nunca chegar ao coração de cada ser humano que tem sede de vida, de liberdade, de paz e de felicidade.

Frequentemente repetimos a expressão “estamos on”, sem que isso se faça acompanhar de uma verdadeira sintonia coletiva. A sintonia que hoje necessitamos e que constitui o desafio de uma verdadeira pedagogia para um mundo pós pandemia. Uma pedagogia que coloque o imenso potencial tecnológico ao serviço daquilo que verdadeiramente tipifica o humano e que nada poderá substituir: a palavra, a presença e a proximidade. Perante esta questão imperativa – que lições podemos aprender daquilo que estamos a viver? – vale a pena ler um testemunho redigido por uma jovem aluna de Educação Moral e Religiosa Católica do ensino secundário, em Bragança:

Todos nós vivemos momentos de pânico, medo ou receio de que, a qualquer segundo, a nossa vida mude, de que fiquemos dependentes num hospital, sujeitos a vários tratamentos, de que não possamos estar próximos daqueles que mais amamos, em união ou sem termos a possibilidade de aceder àquilo de que mais gostamos. Todos, uns mais, outros menos, temos conhecimento de quem passou por isto, de quem sofreu mudanças radicais na sua vida e teve de enfrentar, na fase de doença, um esguio caminho, obstáculos ímprobos que só alguns conseguiram ultrapassar e continuar a sua caminhada rumo a um novo renascimento.

Esta realidade com a qual a humanidade foi confrontada vai levar-nos, certamente, ao pensamento profundo do valor da vida e do que realmente importa, a começar pela família e os amigos, o amor e a partilha, ou o próprio tempo que dedicamos às coisas. Tudo isto é a base do nosso crescimento e da aprendizagem que nos deve conduzir a um modo alternativo de estar e viver em sociedade.

Assim sendo, depois destes tempos difíceis pelos quais passamos e continuamos a passar, penso que todas as pessoas tomaram consciência de como devem viver, de uma forma de pensar e de agir para que o mundo se torne um lugar melhor, com mais cor e, sobretudo, mais humano, fazendo parte de uma sociedade que possa viver em plena harmonia e paz, pois somos nós que o construímos e que o levamos a bom porto a cada dia que passa.

Não vamos deixar que mais vidas se percam e que o mundo se torne pequeno. Vamos cuidar do que e de quem cuida de nós e nos ajuda realmente a viver.” (Maria Silva, 11.º ano)

 

Dina Pinto é professora de Educação Moral e Religiosa Católica no Agrupamento de Escolas Abade de Baçal, de Bragança.

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