Antissemitismo

Posição de Habermas sobre Israel “encoraja o silêncio e sufoca o debate”

| 11 Dez 2023

Jurgen Habermas. Foto Wolfram Huke

Para Habermas e os seus colegas, “o massacre do Hamas, com a intenção declarada de eliminar a vida judaica em geral, levou Israel a ripostar”, sendo a forma de retaliação, que é “justificada em princípio”, objeto de controvérsia. Foto © Wolfram Huke

 

“Omissões trágicas”, “bloqueio cognitivo”, “encorajamento do silêncio e sufoco do debate” são algumas das críticas que o reputado sociólogo árabe Asef Bayat acaba de fazer ao filósofo Jürgen Habermas, a propósito da tomada de posição deste intelectual acerca da guerra entre Israel e a Palestina, desencadeada pelo massacre do Hamas, em 7 de outubro último, do qual resultaram cerca de 1200 mortos em Israel e 240 reféns, além de uns 18 mil mortos na Faixa de Gaza, 70% dos quais mulheres e crianças.

Habermas, um dos mais influentes intelectuais da atualidade, conhecido pela sua teoria da ação comunicativa e da esfera pública, tomou posição sobre esta questão, juntamente com três colaboradores seus, num curto texto em alemão, colocado no site do centro de investigação “Ordens Normativas”, da Universidade Goethe de Frankfurt e, entretanto, publicado em inglês pelo site K. Jews, Europe, the 21st Century.

O texto dos autores alemães reage à “cascata de declarações e protestos morais e políticos” de sentido contraditório, e pretende definir “alguns princípios que não devem ser contestados” e que “são a base de uma solidariedade corretamente entendida com Israel e com os judeus na Alemanha”.

Para Habermas e os seus colegas, “o massacre do Hamas, com a intenção declarada de eliminar a vida judaica em geral, levou Israel a ripostar”, sendo a forma de retaliação, que é “justificada em princípio”, objeto de controvérsia.

Perante a situação criada, diz o texto, “os princípios da proporcionalidade, da prevenção de vítimas civis e da condução de uma guerra com a perspetiva de uma paz futura devem ser os princípios orientadores”.

Mas há alguns limites que o debate deve ter em conta: “apesar de toda a preocupação com o destino da população palestiniana, os padrões de julgamento perdem completamente o sentido quando se atribuem intenções genocidas às ações de Israel”, faz notar a tomada de posição.

 

“É intolerável que os judeus estejam mais uma vez ameaçados”

Asef Bayat. Foto PersianDutchNetwork

Asef Bayat considera que Habermas, quando confunde as críticas às “ações de Israel” com “reações antissemitas”, está a encorajar o silêncio e a sufocar o debate. Foto © Persian Dutch Network

 

Focando em especial o caso da Alemanha, mas não só, o documento insurge-se contra o antissemitismo, nestes termos: “É intolerável que os judeus na Alemanha estejam mais uma vez expostos a ameaças à vida e à integridade física e tenham de recear a violência física nas ruas. O espírito democrático da República Federal da Alemanha, que se orienta pela obrigação de respeitar a dignidade humana, está ligado a uma cultura política para a qual a vida judaica e o direito de Israel a existir são elementos centrais que merecem uma proteção especial à luz dos crimes em massa da era nazi. O empenhamento nesta matéria é fundamental para a nossa vida política.”

“Todos aqueles que, no nosso país, cultivaram sentimentos e convicções antissemitas sob todo o tipo de pretextos e veem agora uma oportunidade bem-vinda para os exprimir sem inibições devem também respeitar este princípio”, finaliza a declaração de Habermas e colegas.

Asef Bayat, que acaba de responder a este texto, num artigo publicado pela revista New Lines, é um iraniano, filho de azeris, que fez a sua formação básica e secundária no Irão, incluindo do ponto de vista religioso (islão), mas que, ainda no secundário e, depois, na Universidade, que frequentou no Reino Unido, deixou a prática religiosa. É reconhecido como um dos grandes especialistas em estudos do Médio Oriente, tendo introduzido, há mais de duas décadas, o conceito de “pós-islamismo”. Atualmente, e depois de ter lecionado alguns anos na Universidade de Leida, nos Países Baixos, detém uma cátedra de Estudos Globais e Transnacionais e leciona Sociologia e Estudos do Médio Oriente na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, nos Estados Unidos da América.

Bayat considera “admirável” que Habermas e a classe político-intelectual alemã se mostrem “intransigentes na manutenção da memória desse horror histórico [dos crimes nazis], para que horrores semelhantes não se abatam sobre os judeus (e, presumo e espero, sobre outros povos)”. Contudo, alerta, “a sua formulação e fixação no excecionalismo alemão não deixa praticamente espaço para conversas sobre as políticas de Israel e os direitos dos palestinianos. Quando confunde as críticas às ‘ações de Israel’ com ‘reações antissemitas’, está a encorajar o silêncio e a sufocar o debate”.

 

Uma “bússola moral distorcida”

“Como académico, concretiza Bayat, fico estupefacto ao saber que nas universidades alemãs – mesmo nas salas de aula, que deveriam ser espaços livres de discussão e investigação – quase todos se calam quando surge o tema da Palestina. Os jornais, a rádio e a televisão estão quase totalmente desprovidos de um debate aberto e significativo sobre o assunto. De facto, muitas pessoas, incluindo judeus que apelaram a um cessar-fogo, foram despedidos de cargos, viram os seus eventos e prémios cancelados e foram acusadas de ‘antissemitismo’”.

“Como é que é suposto as pessoas deliberarem sobre o que está certo e o que está errado se não lhes é permitido falar livremente? O que acontece à sua célebre ideia de ‘esfera pública’, ‘diálogo racional’ e ‘democracia deliberativa’?”, pergunta o sociólogo, recorrendo a conceitos e ideias de que o próprio Habermas é autor.

A declaração subscrita pelo filósofo é, depois, questionada por não ter “uma única referência (…) a Israel como potência ocupante ou a Gaza como uma prisão a céu aberto” ou, mais ainda, sobre “o apagamento quotidiano da vida palestiniana na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental”.

Citando classificações de funcionários das Nações Unidas em Gaza que falam de “crimes de guerra”, “deslocação forçada” e “limpeza étnica”, Bayat diz querer ir além da perspetiva legal, quanto à classificação das “ações de Israel”. “A minha preocupação aqui … [é] como compreender esta frieza moral e a indiferença que exibem face a uma devastação tão impressionante”.

O académico diz haver aqui uma “bússola moral distorcida”, relacionada com o “excecionalismo alemão”: “É como se temesse que falar do sofrimento dos palestinianos diminuísse o seu compromisso moral com as vidas judaicas. Se assim for, é trágico que a correção de um erro colossal cometido no passado esteja ligada à perpetuação de outro erro monstruoso no presente”.

 

Saber, compreender, sentir o sofrimento dos outros

“O excecionalismo, por definição, não permite um padrão universal, mas sim padrões diferenciados. Algumas pessoas tornam-se seres humanos mais dignos, outras menos dignas e outras ainda indignas. Essa lógica fecha o diálogo racional e dessensibiliza a consciência moral; produz um bloqueio cognitivo que nos impede de ver o sofrimento dos outros, impedindo a empatia”, observa.

Asef Bayat refere-se, neste contexto, a uma “esfera oculta” em gestação (em oposição à esfera pública habermasiana), de todos aqueles – nomeadamente da geração jovem – que não sucumbem a “este bloqueio cognitivo e ao entorpecimento moral” e, com base em fontes e canais paralelos, vão construindo as suas “narrativas alternativas”, que aguardam oportunidade para se expressar.

E termina citando Gramsci: “Receio que o mero conhecimento e a consciência possam não ser suficientes. Afinal, como pode um intelectual ‘saber’ sem ‘compreender’ e compreender sem ‘sentir’, como se interrogava Antonio Gramsci? Só quando ‘sentirmos’ o sofrimento uns dos outros, através da empatia, é que poderá haver esperança para o nosso mundo conturbado”.

 

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