Críticas ao Vaticano e aos jesuítas

“Posso entender como as vítimas se sentem traídas”, diz o padre Zollner sobre caso Rupnik

| 14 Dez 2022

Padre Hans Zollner em entrevista ao Ponto SJ. Foto retirada da entrevista vídeo

 

O jesuíta Hans Zollner, um dos mais conhecidos especialistas sobre abusos, nomeadamente na Igreja Católica, acaba de interpelar a sua própria ordem para que reveja o modo como lidou com o caso do padre Marko Ivan Rupnik, artista de fama mundial, objeto de várias denúncias por alegadamente ter abusado de freiras, nos anos 90.

O caso, que o 7MARGENS tem acompanhado, foi mantido em segredo, nos últimos anos, até se ter sabido, no início deste mês de dezembro, que o Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF) tinha recebido denúncia, mas que, depois da investigação promovida pelos jesuítas e realizada por um clérigo externo à Companhia de Jesus, havia decidido, em outubro último, encerrar o caso, por prescrição da matéria factual.

Até hoje, aquele Dicastério não prestou qualquer esclarecimento sobre o caso. Foram os jesuítas que deram a conhecer, em comunicado divulgado no último dia 5, o que se estava a passar, adiantando apenas que os factos não tinham a ver com abusos de crianças. Acrescentaram ainda que tomaram, relativamente ao padre Rupnik, “medidas cautelares” que se traduziram em proibição de confessar e fazer orientações espirituais e retiros. Os seus movimentos ficaram também sujeitos à autorização dos superiores.

Apesar das explicações dadas pelo superior geral da Companhia, em declarações exclusivas ao 7MARGENS e à Rádio Renascença, aquando da visita que fez na semana passada às comunidades e projetos da Companhia em Portugal, a posição assumida foi objeto de críticas quer interna quer externamente, porque as vítimas não são objeto de consideração e mesmo as medidas cautelares ao visado parecem ser apenas formais, como ficou documentado nos textos publicados sobre o assunto.

É neste contexto que a posição agora tomada pelo padre Zollner é relevante, já que ele é também responsável por um centro de pesquisa sobre matérias de abusos na Pontifícia Universidade Gregoriana, solicitado para formação do clero e de bispos, um pouco por todo o mundo.

 

Porque não foi a prescrição levantada?

Marko Rupnik, mosaico

Pormenor de mosaico de Marko Ivan Rupnik diante da igreja de Ta Pinu (Gozo, Malta). Foto © Sandro Rossi, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Numa notícia assinada pelo jornalista Philip Pullella, difundida esta quarta-feira, 14, pela agência Reuters, referem-se dois pontos que têm estado no centro da polémica sobre um caso que adquiriu, entretanto, projeção internacional.

O primeiro diz respeito à decisão do Dicastério para a Doutrina da Fé: reconhecendo que, “legalmente falando, a prescrição se aplica”, Zollner observa, entretanto, que “a questão legal não é a única” e daí perguntar: “por que é que o estatuído [para a prescrição] não foi levantado?”

A pergunta adquire sentido, dado que, segundo fonte do Vaticano citada na notícia, e confirmada também por outros meios de comunicação, o levantamento da prescrição já ocorreu em casos semelhantes a este.

As tentativas de Pullella para contactar o padre Rupnik não tiveram sucesso e o porta-voz do Vaticano, por sua vez, respondeu-lhe que “não tinha comentários sobre o caso”.

 

“Quem soube de algo e o que aconteceu depois disso?”

O segundo ponto colocado pelo padre Hans Zollner dirige-se à sua própria instituição e parte do facto, denunciado publicamente desde que este caso eclodiu, de que uma religiosa ligada a várias das abusadas tinha falado com um alto responsável jesuíta em 1998, pondo-o a par dos alegados abusos sem que essa denúncia tenha tido consequências.

“Por uma questão de transparência, precisamos de saber quem soube de algo, o quê e quando, e o que aconteceu depois disso”, disse Zollner. “Poderíamos ter descoberto os diferentes níveis de responsabilidade, o que poderia ter evitado tudo isso”, disse ele, referindo-se à denúncia de 2021.

“Eu pergunto-me, e pergunto à minha comunidade, os jesuítas: quem poderia saber? Quem sabia? Quem percebeu que algo estava errado e não foi mais longe?” interrogou.

O jornalista da Reuters contactou sobre este ponto o porta-voz dos jesuítas, o qual esclareceu que a ordem havia pesquisado, mas sem ter encontrado “nada nos arquivos”. Comentário do padre Zollner: “Provavelmente nunca saberemos. Na maioria dos casos, não há documentos.” “Posso entender como as vítimas se sentem traídas”, remata este especialista.

 

Abusos já em Roma, no Centro Aletti

Marko Ivan Rupnik, inferno, ressurreição, Ljubljana

Descida aos infernos e ressurreição; obra de Marko Rupnik e dos artistas do Centro Aletti no Colégio São Stanislau em Ljubljana (Eslovénia), de 2006. Foto © Giovanna60 at Italian Wikipedia, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Os abusos de que o padre Rupnik é acusado teriam ocorrido ainda na fase em que ele e o grupo de consagradas se encontravam na Eslovénia.  Era o que se sabia, até agora.

Contudo, um dos sites que trouxe o caso a público, no início de Dezembro, divulgou nesta última terça-feira, 13, o depoimento de uma mulher que garante que, não tendo sido abusada sexualmente, foi molestada e pressionada de forma grave pelo padre Rupnik, em Roma.

Isso terá acontecido já depois de ele ter fundado e sendo diretor do Centro Aletti, em Roma, o espaço que tem sido, até hoje, a base da sua criação artística, mas também centro de espiritualidade e de produção teológica, além de sede de uma editora.

A mulher entrou ali com a expectativa de vir a integrar a equipa de artistas, sob a liderança do mestre padre Rupnik. Tratou-se, segundo esse depoimento, de um forte condicionamento psicológico, em que a pessoa em causa se sentiu de tal modo controlada, que acabou por, “é mesmo essa a palavra”, fugir daquele Centro.

Segundo refere, quando soube que corria no DDF um processo por denúncia de comportamentos de Rupnik, em 2021, ela escreveu ao geral dos jesuítas um depoimento de dez páginas, a que se seguiu uma reunião por videoconferência com um representante da Companhia. Nesse encontro terá ficado a saber que anteriormente os jesuítas tinham já recebido uma queixa semelhante, de factos ocorridos com o diretor do Aletti. Esses factos terão levado a uma visita canónica a esta instituição e, já aí, à aplicação de medidas cautelares.

O depoimento aponta o Centro Aletti como um espaço que deveria merecer uma atenção especial: os jesuítas, considera a depoente, “deveriam pedir o testemunho de todos aqueles que passaram pelo centro Aletti em Roma: estudantes, artistas, pessoas acolhidas por um período de tempo e que já não moram mais lá…, mas até agora não o fizeram”. Tudo isso permanece na sombra, por enquanto.

Segundo ela, “os holofotes” não deveriam estar focados apenas nas denúncias das nove freiras de Liubliana. “Espero que numa segunda fase todos os contextos em que Rupnik se moveu sejam repensados, inclusive o artístico”, diz. “Há mulheres que deram a vida por Rupnik e algumas são mulheres consagradas. Precisamos investigar por aí, para ver se houve outras vítimas”, salienta.

 

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