Possuído pelo deus do esterco?

| 11 Jun 2024

[domingo x do tempo comum ─ b ─ 2024]

[mirtilo a mirtilo / a boca é negrume? − / oh que fome selvagem! © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

 

1. Como ouvimos, é precisamente numa chegada a casa
que Jesus e seus discípulos são surpreendidos por «tanta gente» (Mc 3,20).
Na verdade, Ele era seguido por uma multidão de enfermos
que desejavam ver-se livres dos seus males.
Comprimiam-no, na esperança de O tocarem (cf. Mc 3,7-10).
Para evitar tais apertos e dispor de algum repouso,
Jesus terá mesmo ordenado aos seus discípulos
que tivessem sempre disponível «um barquinho junto dele» (Mc 3,9).
Todavia, novamente a multidão O espera ao chegar a casa,
sem que Ele e seus discípulos tão-pouco pudessem comer.
Que faz Jesus? Manda-os embora? Fecha-lhes as portas?
Pela leitura, depreende-se que os introduz em casa,
e todos, discípulos e multidão, se sentam à volta d’Ele (cf. Mc 3,32).

[E todos, discípulos e multidão, se sentam à volta d’Ele © fotografia: Joaquim Félix]

2. Tomando conhecimento do que se estava a passar,
multiplicam-se as movimentações para O deter.
Até parece um cerco em duas frentes institucionais:
por um lado, os laços de sangue; por outro, os ligames religiosos!
De que realmente O acusavam?
De estar «fora de si» e «possesso de Belzebu» (Mc 3,21-22).
Sim, é acusado de ser possuído pelo «deus do esterco ou das moscas»,
que nascem no estrume, normalmente verdes e castanhas!
Ele que, tantas pessoas tinha libertado de impurezas,
― ao ponto dos espíritos imundos, só de O ver,
se prostravam e clamavam «Tu és o Filho de Deus» (Mc 3,11) ―,
é visto agora, no meio dos doentes, como um louco!
Ainda hoje Ele é visto por muitos assim.
«Um louco!»: frisou a guia judia à pergunta de uma peregrina cristã,
quando lhe perguntou quem seria Jesus para ela.

3. Porém, à acusação dos escribas de que seria
pelo chefe dos demónios que Ele expulsava os demónios,
Jesus não se contém: chama-os e inunda-os de parábolas.
São parábolas breves, uma delas até muito estranha,
como se Ele soubesse o modo de assaltar a casa dos homens fortes!
Enquanto os seus parentes estão a caminho,
Jesus faz um outro itinerário com os escribas e quantos O ouvem.
Há um fio vermelho que percorre todas as parábolas:
tudo o que estiver dividido não pode subsistir;
tudo o que for forte dificilmente será saqueado.

[Jesus faz um outro itinerário com os escribas e quantos O ouvem © fotografia: Joaquim Félix]

 

4. Estando nós em dia de Eleições Europeias,
creio que, sem nos adentramos em campanhas partidárias,
podemos retirar destas parábolas muitas aplicações políticas,
não só para a Europa, mas também para o mundo inteiro.
Reconhecemo-nos cada vez mais divididos,
sem lugares terapêuticos para a integração de quem mais sofre,
dos excluídos sociais, dos impuros que ninguém quer em casa.
Por isso, levantam-se muros, tecem-se filtros apertados
e atribuem-se milhões de euros aos países do Norte de África
para impedir que uma multidão de migrantes chegue à Europa.

5. Sucede o mesmo na fonteira dos EUA com o México,
a fim de, segundo o presidente Joe Biden,
«restaurar a ordem e obter o controlo».
Passo a passo, a violência instala-se e alastra-se,
como recorda num recente artigo Jorge Wemans,
o qual intitulou «A normalização do intolerável».
Ele assim o abre: «A violência que prospera nos nossos dias irrompe,
por vezes, nos média com grande alarido.
Depois desaparece, como se de factos e atos isolados se tratasse.
E, de modo subterrâneo, sem gritaria nem denúncias, pouco a pouco,
entranhando-se por hábito e repetição,
apaga-se a capacidade de indignação
perante a enormidade dos discursos
e das ações carregados de violência e ódio.
É a normalização do intolerável».

[Jesus não se contém © fotografia: Joaquim Félix]

 

6. De onde nascerá tamanha violência e indiferença,
que, segundo os relatórios, está inclusive a invadir as nossas casas?
Todos nós teremos razões de fundo a apontar,
mas desejaria que atendêssemos a certas causas,
individuadas pela escritora Lídia Jorge,
que se podem ouvir no podcast «É preciso Ter Calma»,
de Pedro Abrunhosa, apoiado pela dstgroup, aqui de Braga.
Na sua opinião, «o momento que atualmente atravessamos
é particularmente delicado». Delicado porquê?
Porque, segundo ela, «existe neste momento uma espécie de tendência
para a simplificação absoluta daquilo que é a linguagem,
e no sentido em que repudia aquilo que é a análise e a contemplação».
Habituados que estamos às brevíssimas mensagens das redes sociais,
numa linguagem sintetizada ao máximo, como são os slogans,
vivemos ― como a palavra nórdica significa ― trocando ‘gritos de guerra’.
Mais, para Lídia Jorge, será importante evitar as reações imediatistas,
e passar a contemplar mais o outro, sem o ver como um adversário.
Ela recorda outras dimensões da atualidade
e aponta vias para ultrapassar as violências que se estão a instalar.
Sem pretender uma síntese apressada das suas palavras,
reenvio-vos para a visualização do podcast:

 

7. Estamos aqui sentados, à volta de Jesus,
que nos dirige as mesmas parábolas e vai partilhar da sua comida,
para que, todos famintos, possamos comer.
Imaginemos a chegada dos seus parentes, ali ao Largo de S. Paulo.
Sintamos o olhar penetrante de Jesus, a passar por cada um de nós.
E a dizer-nos: «Eis minha Mãe e meus irmãos.
Quem fizer a vontade de Deus
esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe» (Mc 3,34-35).
Com a criação da fraternidade universal, desejada por Deus,
Jesus não anula os laços de sangue, nem deprecia sua Mãe e os parentes.
Antes pelo contrário, de forma original,
Jesus resgata todos os impuros religiosos e descartados sociais
como membros da única família humana, habitantes da casa comum.

8. O mundo, cada um de nós, atravessa um momento complexo.
Porém, não podemos sacudir as responsabilidades,
atribuindo a culpa da nossa situação a Eva ou à serpente.
Como explicar que até o rumor dos passos de Deus,
que atravessa calmamente o jardim do mundo,
nos envergonha e mete medo?
Quando quisermos ser como Deus, tomando o seu lugar,
a inimizade não ficará circunscrita apenas
entre a descendência de Eva e a descendência da serpente.
Como irmãos combater-nos-emos, sem contemplações.

9. Onde estamos? Que fizemos?
Sim, que fazemos uns dos outros, aqui e neste tempo paradoxal?
O mundo corre o perigo de entrar em guerra total, sim,
mas ela está a deflagrar em expressões domésticas e nas instituições.
Como S. Paulo, que bem persuadia os Coríntios, em tempos difíceis,
contagiemo-nos com esta palavra de combate espiritual:
«Não desanimamos» (2 Cor 4,16). Sim, não desanimemos.
E se acreditamos como ele, não deixemos de falar (2 Cor 4,13).

10. Há dias, morreu Jürgen Moltmann,
«o teólogo da esperança», mas não morreu a esperança!
Jesus alimenta-nos com uma esperança que não engana.
Mas não apenas Ele, pois também as crianças assim nos persuadem.
Quem é que não estremeceu com o coro
dos pequenos cantores do Colégio D. Diogo de Sousa,
durante a Festa Mariana, na Avenida Central da cidade de Braga,
a cantar o Hino do V Congresso Eucarístico Nacional?
Repararam na forma como as crianças cantavam de coração,
na forma alegre e decidida de se revezarem para as estrofes?
E como queriam sempre levantadas as capas com a letra?
Se não atenderam a estes detalhes, revejam as imagens,
sobretudo a partir do minuto 7:24’:

11. Sim, é uma experiência agradável ao ouvido, à vista e ao pensamento,
rever o vídeo da imensa multidão, na peregrinação ao Sameiro,
mas as crianças, a quem o Papa dedicou a primeira Jornada Mundial,
ensinam-nos a esperança na sua pureza.
Com elas e todos os demais irmãos, aqui estamos para cantar:
«No Pão partido que partilhamos
reconhecemos a presença do Senhor
e exultamos na esperança do Reino» (Carlos Poças Falcão).

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das PassagensEste texto corresponde à homilia do Domingo X do tempo comum na liturgia católica proferida na celebração eucarística na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

 

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