Concílio em fase de decisões

Povos indígenas e vítimas de abusos são prioridade para católicos australianos

| 5 Jul 2022

Concílio na Austrália surgiu da “consciência de que a comunidade católica neste país enfrenta um tempo de crise e de esperança”. Foto de grupos de reflexão retirada da página do Concílio.

Concílio na Austrália surgiu da “consciência de que a comunidade católica neste país enfrenta um tempo de crise e de esperança”. Foto de grupos de reflexão retirada da página do Concílio.

 

Já começou o período de votação de moções na segunda e última fase do 5º Concílio Plenário da Igreja Católica australiana, que decorre esta semana na cidade de Sidney. Os povos indígenas e as vítimas de abusos sexuais foram tomados como marca distintiva quanto àqueles com quem os católicos australianos querem fazer caminho em conjunto.

Este Concílio, que foi decidido há cerca de quatro anos, na sequência de um dos contextos de crise mais graves no que se refere a abusos sexuais do clero, surgiu da “consciência de que a comunidade católica neste país enfrenta um tempo de crise e de esperança”, como refere um dos documentos de trabalho. O afastamento de muitos católicos da vida das comunidades e das liturgias; o encobrimento dos abusos por uma parte das autoridades da Igreja; a perda de confiança nas instâncias de governança da vida eclesial; e a própria viabilidade e sustentabilidade das dioceses, paróquias, institutos religiosos e ministérios, são apontados como sinais dessa crise multifacetada, nos documentos produzidos nos trabalhos preparatórios deste evento.

O escândalo dos abusos tornou-se propulsor de uma revisão de fundo da vida da Igreja e dos seus membros e do trabalho de discernimento sobre o futuro. Neste processo de visão panorâmica, um tema saltou para a agenda dos trabalhos: a atenção aos povos indígenas da Austrália, ou seja, aqueles que ali habitavam antes de os britânicos iniciarem a colonização. Esses povos compreendem os aborígenes do continente australiano e da Tasmânia e os habitantes dos ilhéus do estreito de Torres. Estes grupos, com as suas línguas, culturas e formas de organização socioeconómica foram violentamente combatidos e a Igreja Católica entende que chegou a hora de procurar formas de inclusão e convivência e, na medida do possível, de reparação. 

É neste quadro que, das várias dezenas de moções que o Concílio Plenário tem para apreciar e votar esta semana, a primeira foi para pedir perdão a todos os indígenas, quer sejam membros da Igreja quer não sejam, pelas responsabilidades que a Igreja Católica teve nos danos que sofreram; manifestar a vontade de caminhar com esses povos no reconhecimento, reconciliação e justiça; e na assunção ou endosso de declarações e orientações sobre esta matéria já estabelecidas. Esta moção foi aprovada por maioria qualificada quer na instância consultiva quer na deliberativa do Concílio. Relacionada com ela foram aprovadas duas outras moções que convidam todas as estruturas e setores da vida eclesial a adotarem medidas que concretizem local ou sectorialmente a inclusão das preocupações com os povos indígenas e a sua cultura e tradições, incluindo na liturgia.

A segunda moção também aprovada por maioria qualificada pede perdão às vítimas e sobreviventes de abuso, às suas famílias e comunidades. Nesta linha, “compromete a Igreja a responder com justiça e compaixão àqueles que sofreram o trauma do abuso, incluindo, se for o caso, atividades pastorais e espirituais de apoio e acompanhamento; incentiva a prática, quando apropriado, de memoriais locais em várias formas, como reconhecimento tangível do dano causado pelo abuso e a necessidade de cuidados especiais para crianças”. A moção reafirma ainda o compromisso da Igreja na Austrália com o trabalho de implementação e melhoria dos padrões e práticas de proteção e exorta todos os católicos a comprometerem-se com a garantia de que os ambientes da Igreja sejam seguros”. Finalmente, solicita à Conferência dos Bispos Católicos Australianos e a outras estruturas eclesiásticas a que, com a assistência de especialistas, se deem como objetivo “estudar, reconhecer e abordar os fatores sistémicos que facilitaram o abuso dentro da Igreja”.

 

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