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Lugares revelados (1)

Praia da Adraga: O mistério da solene presença dos outros

| 06/08/2024

Todos os que ali estiveram antes de mim acompanham-me quando entro na praia. Estranha sensação esta a de chegar a um lugar de veraneio despreocupado, de gozo fácil e fugaz, e virem ter comigo os que antes de mim por ali passaram, passearam sonhando à borda da água, decidiram coisas que desconheço e decidiram-se a atos que também não sei quais terão sido. No entanto sei, sinto, experimento a presença solene dessas indagações sobre a verdade de si, das respostas ao desafio de rostos alheios, da escuta do espírito, que outros, antes de mim, ali procuraram.

Indagações, respostas, escutas levadas pelo vento e enterradas na areia que vêm ter comigo apenas sugeridas. Nunca reveladas, mas insistentemente sugeridas. Muitos dos que comigo entram na praia nada disto sentem, veem ou saboreiam. Chegam para um dia de praia. Nada imaginam ou sabem da memória dos poetas, escritores, fadistas, pensadores irrequietos ou meditativos, homens e mulheres que naquele lugar inventaram palavras, pensaram o que antes ninguém tinha vislumbrado, desenharam formas e ritmos que até então só os deuses conheciam. É injusto. O mistério redentor que nos reconcilia com as coisas, com a natureza, com Deus e os homens devia envolver quantos na praia entrassem. Mas não é assim… guardo, agradecido, o ter sido tocado pela graça de transpor este umbral entre a fria realidade e o para além onde mora o mistério dos significados, do sentido último de sermos.

À Praia da Adraga não se desce, não se vai, nem se chega… nela, entra-se. À esquerda, uma alta falésia mil vezes irregularmente talhada pelas ondas; à direita, escarpas baixas, recortadas e poderosas; atrás, a arriba corroída pelo desejo de tombar pela areia fora até chegar ao mar, desejo que todos os anos provoca pequenas e grandes derrocadas. Entramos na Praia da Adraga graças ao trabalho milenar de águas agora reduzidas a uma tímida ribeira que ora corre, ora se esquece de correr. Foram essas águas doces que nos abriram o caminho até à água salgada do mar saloio já ali à frente, após um comprido corredor de areia. Sempre trilhamos atalhos tecidos pela natureza, veredas já por outros andadas. Sempre seguimos os passos de alguém que nos precedeu, que nos precede… apelo à consciência humilde liberta da pesporrência de me achar primordial, principal, primeiro…

Praia_da_Adraga. Foto Vincent van Zeijst, via Wikimedia Commons

“À Praia da Adraga não se desce, não se vai, nem se chega… nela, entra-se.” Foto © Vincent van Zeijst, via Wikimedia Commons

Cheguei tarde à Praia da Adraga. Na juventude, uma ou duas vezes passei por ali. Sem dar por nada, sem aventura nem desventura. Mais tarde, já pai de filhos, vozes amigas fizeram-me chegar histórias, fábulas e lendas dali. Percebi que outras por mim lidas e ouvidas também ali tinham nascido. Encontrei na praia alguns dos seus autores. Estendidos ao sol ou desenhando a pé, de um lado para o outro, a fronteira entre o mar e a areia. Outros encontros menos memoráveis, mas não menos marcantes, fizeram-me ver nos olhos de quem via traços do mesmo secreto encantamento por aquele intenso mistério que o lugar sussurra. Como acontece em nós sermos tocados pelo transcendente que toda a pessoa, todo o lugar, todo o momento contém, mas tão raramente se nos desvela?

Há também o mar. Um mar de onda forte, áspera, agreste. Mesmo no Verão, cheira a Inverno. Lembra as praias do Norte. Aquele mar não abona pensamentos românticos nem saudosismos fáceis. É uma revolta água batida, exigente e crua. Sem contemplações nem propícia a enganosas fantasias. Convoca transparência, rigor e serenidade. Ali, o sentimento, a criação só podem nascer da verdade última das coisas. Menos do que isso é trair o espírito e o mistério do lugar.

Entra-se na praia com os netos pela mão e muita tralha às costas. Na banal trivialidade da vida, o futuro deles sorri-nos…

 

Este é um tempo propício a viagens e passeios, tenham eles como destino lugares novos e longínquos ou que fiquem à distância de uma prazerosa caminhada a pé, a partir de casa. Entre esses lugares, há paisagens, edifícios, trilhos, cidades ou aldeias que revigoram e nutrem a vida interior. Na rubrica “Lugares revelados”, o 7MARGENS dá a conhecer alguns desses locais. Os colaboradores e leitores que queiram partilhar um texto (e foto) sobre o seu “lugar revelado”, poderão enviar os materiais para setemargens@setemargens.com.

 

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