Pré-publicação 7MARGENS do novo livro do Papa: “Tem de se ir às periferias se se quer ver o mundo como ele é”

| 11 Jan 21

Nesta terça-feira, dia 12, será posto à venda em Portugal o novo livro do Papa Francisco, Sonhemos Juntos (ed. Planeta). Preparado a partir de uma conversa com o jornalista inglês Austen Ivereigh, autor de O Grande Reformador e O Pastor Ferido (ambos editados pela Vogais), o livro é uma extensa e intensa reflexão do Papa sobre a crise provocada pela pandemia e as possibilidades que se oferecem para renovar as sociedades a partir dela.

Organizado à base do método ver-julgar-agir, usado pelos movimentos de Acção Católica há décadas, os seus três capítulos reformulam esses verbos, mas propondo a mesma dinâmica espiritual: Um tempo para ver; Um tempo para escolher; Um tempo para agir.

Na apresentação do livro, o Papa reflecte sobre a ideia da crise. No primeiro capítulo, Francisco faz uma volta ao mundo pelas crises mais graves da contemporaneidade (entre as quais a questão ambiental e os refugiados), propondo um olhar sobre elas a partir do evangelho no segundo capítulo – e aqui, insiste em algumas ideias que propôs na encíclica Fratelli Tutti, publicada no início de Outubro. No terceiro, apresenta algumas reflexões sobre o que é necessário para mudar as sociedades, com a ideia da máxima inclusão de todas as pessoas.

No início do primeiro capítulo, partindo da questão da crise, o Papa refere que a quarentena talvez nos tenha ajudado a “recuperar um pouco da fraternidade da qual os nossos corações tanto sentiram falta”, com a “esperança impaciente” de que o mundo possa organizar-se de forma diferente. E diz: “Tem de se ir às periferias se se quer ver o mundo como ele é.”

É um excerto desse início do primeiro capítulo que o 7MARGENS reproduz a seguir.

 

Rohyngia resgatados por guarda costeira do Bangladesh

Rohyngia resgatados por guarda costeira do Bangladesh: “Tenho um carinho especial pelo povo rohingya. Os rohingyas são, neste momento, o grupo mais perseguido da Terra.” Foto partilhada na página da Rohingya Women’s Education Initiative na rede Twitter.

 

Neste último ano de mudança e crise, tanto a minha mente como o meu coração transbordam de nomes. Pessoas em quem penso e por quem rezo, e com quem choro, por vezes: pessoas com muitos nomes e rostos, pessoas que morreram sem poder despedir-se daqueles que amavam, famílias em dificuldade porque não há trabalho e inclusivamente passam fome.

Às vezes, quando se pensa globalmente, pode-se ficar paralisado: há tantos focos de conflito que parecem não dar tréguas, há tanto sofrimento e tantas necessidades. Mas ajuda-me muito concentrar-me no concreto das situações, assim veem-se rostos ansiosos de vida e amor, vê-se a realidade de cada pessoa, de cada povo. Vê-se a esperança estampada na história de cada nação, que é gloriosa porque é uma história feita de sacrifícios, de luta quotidiana, de vida, de dedicação e entrega, e isso, mais do que impressionar-te, convida-te a ponderar e a dar uma resposta de esperança.

Tem de se ir às periferias se se quer ver o mundo como ele é. Sempre pensei que o mundo se vê com mais clareza a partir das periferias, mas nestes últimos sete anos como Papa acabei por o comprovar. Tem de se ir às periferias para encontrar um futuro novo. Quando Deus quis regenerar a Criação, quis ir à periferia: aos lugares de pecado e miséria, de exclusão e sofrimento, de doença e solidão, porque também eram lugares cheios de possibilidades: porque «onde abundou o pecado, sobreabundou a graça» (Rm 5, 20).

Mas não se pode ir à periferia em abstrato. Penso muitas vezes nos povos perseguidos: os pobres rohingyas, os uigures, os yazidis – o que o Daesh lhes fez foi de uma crueldade inaudita – ou os cristãos no Egito e no Paquistão, mortos por bombas que explodiram enquanto rezavam nas igrejas. Tenho um carinho especial pelo povo rohingya. Os rohingyas são, neste momento, o grupo mais perseguido da Terra. Procuro estar próximo deles na medida do possível. Não são católicos nem cristãos, mas são nossos irmãos e irmãs, um pobre povo maltratado por todos os lados, que não tem para onde ir. Presentemente, há milhares deles em campos de refugiados no Bangladesh, onde a covid-19 está descontrolada. Imagina o que se passa com o vírus num campo de refugiados. É uma injustiça que brada aos céus.

Reuni-me com os rohingyas em 2017, em Daca. São gente boa, gente que quer trabalhar e cuidar das suas famílias, mas isso não lhes é permitido. Uma população inteira acantonada e encurralada. No entanto, há algo que também me emociona, a generosidade fraterna demonstrada pelo Bangladesh. É um país pobre e densamente povoado; apesar disso, abriu as suas portas a 600 000 pessoas. A primeira-ministra de então disse-me que, para que um rohingya pudesse comer, os cidadãos do Bangladesh renunciavam a uma refeição por dia. Quando, no ano passado, me deram um prémio em Abu Dhabi – uma quantia importante –, mandei-o diretamente para os rohingyas: um reconhecimento de muçulmanos para outros muçulmanos.

Ir às periferias no concreto, como neste caso, permite tocar o sofrimento e as carências de um povo, mas permite também que se descubram as alianças possíveis que já se estão a fazer para as apoiar e encorajar. O abstrato paralisa-nos, mas focar-nos no concreto abre caminhos de possibilidades.

Enfermagem

Hospital de Santa Maria, Santa Maria, Brasília, DF, Brasil 19/2/2018: “Na quarentena, rezei muitas vezes por aqueles que procuraram, por todos os meios, salvar a vida de outros.” Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília.

 

Este tema da ajuda aos outros acompanhou-me durante estes últimos meses. Na quarentena, rezei muitas vezes por aqueles que procuraram, por todos os meios, salvar a vida de outros. Não quero dizer que com isto foram imprudentes ou negligentes; é claro que não procuravam morrer e fizeram todo o possível por evitar a morte, mas por vezes não puderam evitá-la, porque não tinham a proteção necessária. Não escolheram salvar as suas vidas antes das dos outros. Muitos enfermeiros, médicos e profissionais de saúde pagaram o preço do amor, juntamente com sacerdotes, religiosos e religiosas e tantas outras pessoas com vocação de serviço. Retribuímos o seu amor chorando por eles e prestando-lhes homenagem.

Não importa se o fizeram conscientemente ou não, a opção que fizeram foi testemunho daquilo em que acreditavam: é melhor uma vida dedicada ao serviço dos outros do que uma vida resistindo a esse chamamento. Por isso, em muitos países, as pessoas aplaudiram-nos desde as suas casas, como gesto de reconhecimento e admiração. Estes santos próximos da nossa vida quotidiana, são os que despertaram algo de importante no nosso coração, e tornaram credível, uma vez mais, o que desejamos cultivar com a pregação.

São esses os anticorpos contra o vírus da indiferença. Recordam-nos que a vida é um dom e que crescemos quando nos damos aos outros; não se trata de nos preservarmos, mas sim de nos entregarmos para servir.

Que sinal tão oposto ao individualismo, à obsessão pelo individual e à falta de solidariedade que parece impor-se nas nossas sociedades mais desenvolvidas! Será que estes cuidadores, que infelizmente já não estão connosco, nos mostram o caminho para a reconstrução?

O Amazonas, na zona de Manaus (Brasil): “Como nos tornámos cegos à beleza da criação? Como nos esquecemos dos dons de Deus e dos nossos irmãos?”. Foto © António Marujo

 

Nascemos, criaturas amadas pelo nosso Criador, Deus amor, num mundo que tem muitos mais anos de vida do que nós. Pertencemos a Deus, pertencemos uns aos outros e somos parte de toda a criação. E este facto, que entendemos com o coração, deve fazer fluir o nosso amor pelos outros; um amor que não se ganha nem se compra, porque tudo o que somos e temos é um dom imerecido.

Como nos persuadimos do contrário? Como nos tornámos cegos à beleza da criação? Como nos esquecemos dos dons de Deus e dos nossos irmãos? Como podemos explicar que vivemos num mundo onde a natureza está sufocada, onde os vírus se propagam como o fogo e causam o desmoronamento das nossas sociedades, onde a pobreza mais dilacerante convive com a riqueza mais inconcebível, onde povos inteiros – como os rohingyas – estão relegados à lixeira?

Creio que o que nos persuadiu foi o mito da autossuficiência, esse sussurro ao ouvido que nos diz que a terra existe para ser explorada; que os outros existem para satisfazer as minhas necessidades; que o que temos e o que nos falta é o que nós – e os outros – merecemos; que o meu prémio é a riqueza, mesmo que isso implique que o destino inevitável de outros seja a pobreza.

Em momentos como estes, sentimos uma impotência radical da qual não podemos sair sozinhos. É então que recuperamos «o sentido» e vemos esta cultura egoísta em que estamos submersos e que nos faz negar o melhor de nós mesmos. E se, nesse momento, nos arrependemos e dirigimos o olhar para o Criador e para os outros, talvez possamos recordar a verdade que Deus pôs no nosso coração: que lhe pertencemos a Ele e aos nossos irmãos.

Talvez porque durante a quarentena pudemos recuperar um pouco da fraternidade da qual os nossos corações tanto sentiram falta, muitos de nós começámos a sentir uma esperança impaciente de que o mundo possa organizar-se de forma diferente, para refletir assim essa verdade.

Descuidámos e maltratámos os nossos vínculos com o nosso Criador, com a criação e com as demais criaturas. A boa nova é que existe uma Arca que nos espera, para nos levar a um novo amanhã. A pandemia da covid-19 é o nosso «momento Noé», sempre que encontramos o caminho da Arca dos laços que nos unem, da caridade, da pertença comum.

A história de Noé, no Génesis, não fala apenas de como Deus ofereceu uma saída da destruição, também fala de tudo o que se passou depois. A regeneração da sociedade humana implicou voltar a respeitar os limites, a travar a corrida pela riqueza e pelo poder, a cuidar daqueles que vivem na periferia. A incorporação do Sábado e do Jubileu – momentos de recuperar e de reparar, de perdoar dívidas e restabelecer vínculos – foram as chaves para essa regeneração e deu tempo à terra para se reacomodar, para que os pobres encontrassem novas esperanças, para que os seres humanos encontrassem outra vez a sua alma.

É essa graça que se nos oferece agora, a luz no meio das nossas dificuldades. Não a desperdicemos.

 

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Crónica

Mãos à obra (5) – Vizinhos de Aveiro: Cidadania ativa em prol da comunidade

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Bênção de uniões homossexuais em debate na TSF

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