Pré-publicação exclusiva 7MARGENS: A “crise duradoura” do sacerdócio, segundo Sarah e Ratzinger

| 7 Fev 20

Há uma “crise duradoura que o sacerdócio atravessa desde há vários anos” e por isso Joseph Ratzinger propôs-se “abordar as raízes profundas do problema”. Esta é a justificação para que o agora papa emérito Bento XVI tenha dado início a “um trabalho de reflexão teológica” sobre o tema. A idade e “uma certa lassidão” levaram-no a deixar de lado o estudo, mas as suas “trocas de impressões” com o cardeal da Guiné-Conacri, Robert Sarah, prefeito da Congregação para a o Culto Divino, deram-lhe “força” para retomar e concluir o texto.

É desta forma que Ratzinger explica a origem do texto agora incluído no livro Do Fundo dos Nossos Corações, que será posto à venda nas livrarias portuguesas na próxima quarta-feira, 12 de Fevereiro. A edição em português resulta do acordo editorial entre a Princípia Editora (através da sua chancela Lucerna) e a Fundação AJB – A Junção do Bem e o 7MARGENS faz aqui, em exclusivo, a pré-publicação da Introdução do cardeal Sarah, apresentando ainda algumas das ideias do papa emérito.

O aparecimento do livro esteve envolto em polémica, já esmiuçada no 7MARGENS, por ter sido visto como uma forma de pressionar o Papa Francisco, a propósito do documento pós-sínodo sobre a Amazónia, no qual pode vir a ser permitida a ordenação de homens casados. Inicialmente, a obra foi apresentada – e tem essa capa na edição original francesa – como sendo de co-autoria entre Bento XVI e Sarah.

Num segundo momento, o secretário particular de Ratzinger, o arcebispo alemão Georg Gänswein, negou que o papa emérito soubesse que o texto fosse para publicar num livro com estas características.

O cardeal Sarah, no entanto, publicou a correspondência trocada com Ratzinger, desmentindo as afirmações do secretário – e, em última instância, do próprio Ratzinger, já que Gänswein fez declarações em nome do seu superior.

O caso teve até agora, pelo menos, a consequência de afastar Gänswein do seu cargo de prefeito da Casa Pontifícia, lugar que também ocupa desde há sete anos, pouco antes de Bento XVI ter resignado, conforme o 7MARGENS noticiou também.

“Na base da situação grave em que se encontra hoje o sacerdócio, encontramos um defeito metodológico na recepção das Escrituras como Palavra de Deus”, escreve o papa emérito. No seu artigo – 20 páginas, em pouco menos de uma centena de texto útil –, Ratzinger começa por examinar as “estruturas ministeriais essenciais da primeira comunidade de Jesus”: apostolos são os enviados aprovados por Deus e designados para uma incumbência; os episkopos traduzem a ideia do protector ou do supervisor e predominante nos ambientes greco-cristãos dos primeiros tempos; e os presbyteros, equivalentes aos episkopos no meio judaico-cristão.

Apesar de referir o carácter “laico” do primeiro movimento de Jesus, bem como o carácter não cultual e não sacerdotal dos primeiros ministérios cristãos, Bento XVI considera que ele não resulta “de uma opção anticultual e antijudaica”, mas são, antes, “consequência da situação particular do sacerdócio do Antigo Testamento, na qual o sacerdócio está exclusivamente reservado para a tribo de Aarão-Levi”.

Uma outra nota é que, apesar da estrutura inicia deste “movimento de Jesus”, a palavra “presbítero” – uma designação muito mais própria do Novo Testamento cristão do que sacerdote – é usada apenas oito vezes no livro de Sarah/Ratzinger, que preferem sacerdote ou sacerdócio, uma palavra mais ligada ao judaísmo anterior ao século I.

Sarah com Ratzinger: o livro é publicado “num espírito de amor pela unidade da Igreja” e também “num espírito de caridade”. Foto: Unisinos/Direitos reservados

“Três textos para esclarecer a noção cristã de sacerdócio”

O papa emérito toma depois três textos bíblicos – dois do Antigo Testamento e um do Novo – para falar do sacerdócio cristão, defendendo “a unidade profunda” entre os dois Testamentos bíblicos, através “da passagem do Templo de pedra ao Templo que é o Corpo de Cristo”.

O primeiro texto são dois versículos do Salmo 16, que eram utilizados antes do II Concílio do Vaticano (1962-65), num dos ritos que levava à ordenação de novos padres: “Senhor, minha herança e meu cálice, a minha sorte está nas tuas mãos. Na partilha foram-me destinados lugares aprazíveis e é preciosa a herança que me coube.” Estas palavras, escreve, exprimiam, nesse rito, “a aceitação na comunidade sacerdotal”.

Do livro do Deuteronómio (10, 8 e 18, 5-8): “as palavras ‘estar diante do Senhor para O servir’ servem para definir a essência do sacerdócio”, escreve Ratzinger a partir da análise desse texto bíblico. “Em seguida, foram incorporadas na oração eucarística da Igreja de Jesus Cristo para exprimir a continuidade e a novidade do sacerdócio na Nova Aliança. O que se dizia outrora da tribo de Levi e respeitava exclusivamente a ela aplica-se agora aos sacerdotes e aos bispos da Igreja.”

Finalmente, o papa emérito toma dois versículos da chamada oração sacerdotal de Jesus, o longo discurso de despedida que Cristo faz aos seus discípulos, antes de ser preso e condenado à morte e que é reproduzido no evangelho de São João.

“Consagra-os [santifica-os] na Verdade. A tua palavra é a Verdade. Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo”, diz esse excerto.

“Quando o texto diz ‘Consagra-os [santifica-os] na Verdade’, o Senhor [Jesus] pede ao Pai que inclua os Doze na sua missão, que os ordene sacerdotes”, escreve.

 

Pré-publicação: Introdução

Na Introdução, que agora aparece como um texto “escrito por Robert Sarah, lido e aprovado por Bento XVI”, o cardeal guineense diz que o livro é publicado “num espírito de amor pela unidade da Igreja” – “Se a ideologia divide, a verdade une os corações” – e também “num espírito de caridade”.

Cardeal Robert Sarah. Foto François-Régis Salefran/Wikimedia Commons

 

O 7MARGENS publica na íntegra o texto desta introdução:

 

Porque temeis?

Numa carta endereçada ao bispo donatista Maximinus, Santo Agostinho anuncia a intenção que tem de publicar a sua correspondência. «Que posso fazer», pergunta ele, «a não ser ler aos fiéis católicos as nossas cartas para que eles possam ser instruídos por elas (1)?». Decidimo-nos a seguir o exemplo do bispo de Hipona.

Nos últimos meses, enquanto o mundo fazia eco do ruído criado por um estranho sínodo dos meios de comunicação social que se sobrepunha ao sínodo real, encontrámo-nos. Trocámos as nossas ideias e preocupações. Rezámos e meditámos em silêncio. E cada um dos nossos encontros confortou-nos e apaziguou-nos mutuamente. As nossas reflexões, seguindo por caminhos diferentes, levaram-nos a trocar correspondência. A similaridade das nossas preocupações e a convergência das nossas conclusões decidiram-nos a colocar o fruto do nosso trabalho e da nossa amizade espiritual à disposição dos fiéis, à semelhança de Santo Agostinho.

Efetivamente, podemos afirmar tal como ele: «Silere non possum! – “Não posso calar-me!”. Sei, com efeito, até que ponto o silêncio seria pernicioso para mim. Porque não quero comprazer-me nas honras eclesiásticas, mas penso que é a Cristo, o primeiro dos pastores, que terei de prestar contas das ovelhas confiadas ao meu cuidado. Não posso calar-me nem fingir que ignoro (2)».

Philippe de Champaigne (1602–1674), Santo Agostinho: o bispo de Hipona escrevia “Não posso calar-me”; o cardeal Sarah toma essa citação para justificar o livro.

 

Enquanto bispos, somos portadores da solicitude de todas as igrejas. Com um grande desejo de paz e de unidade, oferecemos portanto a todos os nossos irmãos bispos, sacerdotes e fiéis leigos do mundo inteiro o benefício das nossas conversas.

Fazemo-lo num espírito de amor pela unidade da Igreja. Se a ideologia divide, a verdade une os corações. Perscrutar a doutrina da salvação só pode unir a Igreja em torno do seu Divino Mestre.

Fazemo-lo num espírito de caridade. Pareceu-nos útil e necessário publicar este trabalho num momento em que os espíritos parecem ter-se apaziguado. Cada qual poderá completá-lo ou criticá-lo. A procura da verdade só pode ter lugar mediante a abertura do coração.

Oferecemos portanto fraternalmente estas reflexões ao povo de Deus e, é claro, num espírito de filial obediência, ao Papa Francisco.

Pensámos particularmente nos sacerdotes. O nosso coração sacerdotal quis confortá-los, encorajá-los. Com todos os sacerdotes, rezamos: salva-nos, Senhor, que perecemos! O Senhor dorme enquanto se desencadeia a tempestade. Parece abandonar-nos às correntes da dúvida e do erro. Sentimo-nos tentados a perder a confiança. De todos os lados, as vagas do relativismo abatem-se sobre a barca da Igreja. Os apóstolos têm medo. A sua fé diminui. Também a Igreja parece por vezes vacilar. No meio da tempestade, a confiança dos apóstolos no poder de Jesus ficou abalada. Vivemos o mesmo mistério. Contudo, estamos profundamente em paz, porque sabemos que é Jesus quem conduz a barca. Sabemos que ela nunca se afundará. Acreditamos que só ela pode conduzir-nos ao porto da salvação eterna.

Sabemos que Jesus está aqui, connosco, na barca. Queremos transmitir-Lhe a nossa confiança e a nossa fidelidade absoluta, plena, exclusiva. Queremos voltar a dizer-Lhe o grande «sim» que Lhe dissemos no dia da nossa ordenação. É esse «sim» total que o nosso celibato sacerdotal nos faz viver em cada dia. Porque o nosso celibato é uma proclamação de fé. É um testemunho porque nos leva a entrar numa vida que só tem sentido a partir de Deus. O nosso celibato é testemunho, ou seja martírio. A palavra grega tem os dois significados. Durante a tempestade, nós, os sacerdotes, devemos reafirmar que estamos dispostos a perder a vida por Cristo. Dia após dia, damos esse testemunho graças ao celibato por meio do qual entregamos a nossa vida.

Jesus dorme na barca. Mas, se ganha a hesitação, se temos medo de depositar n’Ele a nossa confiança, se o celibato nos faz recuar, então receemos ouvir a sua crítica: «Porque temeis, homens de pouca fé?» (Mt 8, 26).

 

Cidade do Vaticano, setembro de 2019

Texto escrito por Robert Sarah, lido e aprovado por Bento XVI

Notas

(1) Santo Agostinho, Epist. 23, 7.

(2) Santo Agostinho, Epist. 23, 7.

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