Precisamos de nos ouvir (17) – Maria do Céu Sousa Fernandes: As azáleas voltarão a abrir na primavera

| 27 Fev 21

azáleas, flores, natureza

“No meu pequeno jardim havia uma azálea já florida…” Foto © Maria do Céu Sousa Fernandes.

 

Recentemente, num dos raros dias de sol deste inverno chuvoso, reparei que no meu pequeno jardim havia uma azálea já florida. Fiquei contente. A primavera está a chegar e com ela as flores, os frutos e tudo o mais que é necessário e que a terra nos dá. Esta pequena flor branca, sinal da energia e da capacidade criadora da terra, levou-me a interrogar-me qual a força criadora que poderá conduzir-nos a novos modos e estilos de vida e à luta contra os egoísmos e o individualismo, para diminuir os efeitos devastadores do coronavírus.

Tenho a convicção que a pandemia tem sido para muitos, e para mim em particular, uma fonte de aprendizagens. Reaprendi a gerir o meu tempo com sabedoria, algo que tinha esquecido um pouco, ao longo destes anos de reformada. Reaprendi a ter mais tempo para leituras, para renovar contactos com pessoas amigas, por telefone ou e-mail, contactos que nos enriqueceram mutuamente e, mais importante ainda, surpreendi-me com pessoas, jovens umas e outras menos jovens, que, silenciosamente, como voluntárias, nas comunidades em que estão inseridas, levam a cabo um trabalho extraordinário de ajuda aos que precisam. Estes pequenos gestos de prestação de ajuda económica ou em pequenas tarefas, de visitas aos que estão sós para lhes fazer um pouco de companhia, são sinais concretos de fraternidade humana e de consciência do “outro” que pode até viver ao nosso lado, mas nós não conhecemos.

Porém, há um mundo que está para além do nosso pequeno mundo, onde dominam os ricos e os poderosos por um lado, e por outro, povoado pelos pobres e abandonados à sua sorte. O que podemos fazer? À minha mente, vem a figura de João Baptista. João Baptista é uma figura austera, mais próxima dos profetas do Antigo Testamento. Veste-se e alimenta-se de uma forma pouco comum, não para se evadir do mundo, mas para que, através de um estatuto de pobreza, possa fazer a denúncia dos que praticam a injustiça. É um homem independente e livre que, com a mesma força, denuncia o falso culto realizado no Templo e as conivências com os que detêm o poder.

Deserto, Marrocos

“João Baptista é uma figura austera. Veste-se e alimenta-se de forma pouco comum, não para se evadir do mundo…” Foto: deserto em Marrocos. © Tiago Gonçalves Paulino

 

Nos nossos dias, há profetas que falam e avisam, mas é preciso mais para que as suas vozes sejam escutadas. A nível local, continuemos com as nossas acções de ajuda durante a pandemia, manifestação de libertação do nosso egoísmo, mas não esquecendo que a jornada que fizemos não chegou ao fim e que não podemos permitir que o mundo caminhe por si, sem nele actuarmos e aí deixar uma marca, mesmo que seja modesta. O Papa Francisco tem-nos mostrado que não só os grandes textos doutrinais, mas também os gestos de compaixão e as mensagens simples e humanas que escreve, podem comover o coração do homem e ajudar a mudar o mundo, tal como o toque ao leproso por Jesus de Nazaré.

E, tal como o pequeno artista desconhecido que cria beleza no mundo esperando que alguém fique tocado pela sua obra de arte, prossigamos o nosso caminho no pequeno mundo de gestos simples, esperando que as azáleas brancas voltem a abrir na primavera.

 

Maria do Céu Sousa Fernandes é professora aposentada, com formação académica na área de Filologia Germânica. Desempenhou alguns cargos políticos e foi presidente da Fundação Cultural Bracara Augusta de 2000 a 2013.

 

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