Precisamos de nos ouvir (19) – Isabel Margarida: Essencial, os outros ali bem perto

| 1 Mar 21

crianças. mãos, Metanoia, Reflexão Teológica

“Não vejo outro caminho senão aproveitar as oportunidades que os constrangimentos nos trouxeram.” Foto © António José Paulino

Para não perdermos tudo o que perdemos, não vejo outro caminho senão procurarmos aproveitar as oportunidades que os constrangimentos nos trouxeram (perdoem-me a linguagem seca de análise swot…). Do que perdemos falarei depois, e é muito. Mas o que ganhámos? Explique-se, desde já, que confinei sozinha, com breves momentos de companhia ao fim de semana. Assim, habituei-me ao silêncio, ou a ouvir melhor os ruídos, breves, das outras casas, das crianças na rua, dos pássaros, e a saudar os raros aviões. A escutar os pequenos barulhos da casa, o gato que lambe o pelo perto do aquecedor, as plantas que crescem. No confinamento, tratei delas mais demoradamente e retribuíram-me com redobrado viço e pujança. Estar sozinha foi e é uma oportunidade ainda para ouvirmos melhor o que se passa dentro de cada um de nós, de conversarmos mais connosco próprios.

Também podemos aproveitar o que aprendemos em termos de ensino e de sessões várias online. Anseio por voltar ao presencial, que nada substitui, mas sem desperdiçar algumas lições: quem está longe e inacessível pode ficar de repente perto, sem custos, nem pegada ecológica. Além disso, o trabalho assíncrono e guiado potencia trocas mais ricas nos momentos em que estamos “juntos”, mostrando-nos as vantagens da chamada “aula invertida”. Ficamos a conhecer os gatos dos estudantes, quando se passeiam em frente ao ecrã. E ficamos a conhecer melhor os estudantes, quando tentamos acudir-lhes e ajudá-los porque os pressentimos perdidos ou sós.

De que gostei mais? Dos vizinhos à janela. De tomar chá, quando há sol, numa varanda que dá para a rua onde brincam crianças. De ter ficado a saber os nomes delas. De me perguntarem, do lado de lá da rua, se preciso de alguma coisa. De nos cumprimentarmos e procurarmos saber uns dos outros e de os meninos falarem comigo da rua. Espero que esta proximidade nunca mais se perca. Gostei dos que foram gentis, dos que telefonaram por eu estar sozinha. Gostei de ter telefonado eu para outros, mais velhos ou também sós. De movimentos solidários nascidos por todo o lado, muitos online, dos estudantes que arranjaram portáteis para os colegas, que lhes levaram comida. Das bibliotecas em take away. Gostei de ter conhecido o Famileo, no qual agora, mensal e coletivamente, todos escrevemos para a Bisa, que tem 91 anos, receber um jornal em casa, impresso e a cores, com as notícias, os desenhos e fotos de todos, pequenos e mais graúdos.

O mais difícil foi não estar com os netos e os filhos, não nos podermos encontrar em família, termos saltado as festas, os anos, adiado as comunhões e as visitas, os momentos bons de partilha. Foi não conviver com amigos, não haver jantares nem almoços com colegas de profissão, nem encontros, nem as trocas dos colóquios. Faltam-me as viagens: a experiência da comida estranha, outros hábitos e outra música, plantas de que desconheço o nome, outros pássaros.

O que teremos de fazer depois? Teremos, obrigatoriamente, de cuidar melhor dos nossos mais velhos, muitos deles armazenados em instituições. Teremos de fortalecer o que é coletivo, o nosso SNS. Teremos de procurar sempre mais igualdade, não deixar ninguém para trás, para que todos vivam em casas confortáveis, com comida quente e possibilidades de aceder às mesmas aulas. Teremos de nos ocupar prioritariamente dos mais frágeis dos frágeis. De aumentar os laços de vizinhança. Espero que tenhamos aprendido, talvez, os de nós que ainda o não suspeitavam, que de nada vale ter muita roupa, tantos objetos, as últimas novidades, mas que é, ao invés, essencial contarmos com os outros ali bem perto, em frente a nós, para nos aproximarmos deles devagarinho e os podermos abraçar.

 

Isabel Margarida é professora associada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

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