Precisamos de nos ouvir (21) – Luísa Ribeiro Ferreira: Um confinamento na companhia de Espinosa

| 3 Mar 21

Ilha da Madeira. © Tiago Gonçalves PaulinoEsperamos que, num tempo futuro, regressaremos mais fortes a uma nova normalidade. Cientes, no entanto, de que ela será diferente. E hesitantes, ainda, quanto ao modo como a desejamos.” Foto: Ilha da Madeira. © Tiago Gonçalves Paulino.

Recebi do jornal 7MARGENS um convite para escrever sobre a minha experiência desta pandemia, partilhando a fragilidade da condição que actualmente vivemos. O convite propunha algumas sugestões, deixando-nos no entanto a possibilidade de falar livremente. Respondo-lhe recorrendo a Espinosa, o filósofo com quem mais tenho dialogado ao longo da vida e que durante o presente confinamento revisitei várias vezes, quer por obrigação (atendendo a compromissos) quer por devoção (a leitura das suas obras é sempre gratificante).

Para aqueles que desconhecem o pensamento deste filósofo judeu de origem portuguesa, lembro a importância por ele atribuída às “paixões”, ou seja, aos afectos que quotidianamente experimentamos e que aumentam ou diminuem a nossa potência de ser e de agir, consoante são paixões de alegria ou de tristeza. Independentemente da classificação feita pelo filósofo, necessariamente ligada ao tempo e às circunstâncias em que viveu, seleccionei alguns estados de espírito que ele apresenta na sua Ética[1] e que, embora de um modo diferente, foram por mim experimentados neste isolamento forçado que ultimamente se nos impôs. Para os identificar, servi-me dos termos latinos usados pelo filósofo, não por pretensiosismo académico, mas porque o latim é uma língua linda, da qual somos herdeiros e que importa recordar.

Falo em primeiro lugar da saudade (desiderium)[2]. Saudade da presença física e do convívio de filhos, de netos e de amigos com os quais nos relacionamos de longe. Há todo um contexto de cautela que nos impede de ter para com eles as manifestações afectivas que fazem parte da nossa cultura. Não me consolo com cotoveladas e vagos apertos de mão. O toque, o abraço e os beijos são essenciais para o equilíbrio das nossas vidas. De repente, tornámo-nos nórdicos, acenando uns aos outros ou cumprimentando com um gesto de cabeça.

O facto de andarmos mascarados enfatiza a distância e interdita-nos a visão dos sorrisos. Almoços e jantares em que a família se reunia foram banidos do nosso quotidiano. Os aniversários celebram-se pelo Whatsapp e Facebook e as conversas decorrem nas redes sociais onde somos confrontados com as inúmeras opiniões de quem visita os nossos sites sem quase nos conhecer.

Outra constante é a preocupação com os outros (commiseratio). Espinosa fala-nos da comiseração como o sofrimento que experimentamos ao reconhecer os males alheios, com os quais somos solidários. E nestes tempos de intensidade crescente da pandemia somos confrontados diariamente com milhares de pessoas infectadas, com centenas de mortos e com um número muito menor de recuperados. Preocupa-nos o estado de saúde dos nossos amigos, lamentamos o nosso vizinho que sabemos internado, choramos os nossos mortos sem lhes poder prestar a homenagem devida.

A generosidade (generositas) é algo que testemunhamos diariamente nos telejornais quando constatamos a abnegação de médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar que nos dão permanentes lições de resiliência ao defrontarem uma quantidade sempre crescente de doentes. A calma que aparentam e os gestos certos para responder aos males de cada um não deixam transparecer os sonos em atraso, o cansaço e o desânimo que certamente sentem perante as constantes baixas.

A irritação ou impaciência aparece diluída noutras paixões de que o filósofo nos fala. Damos-lhe um relevo especial neste período já tão longo onde permanentemente assistimos nos telejornais a informações exaustivamente repetitivas, às centenas de braços picados por vacinas, à manipulação dos corpos, à exposição da intimidade que deveria ser protegida e não exibida, ao desrespeito pela dignidade do doente.

E finalmente a esperança (spes), algo que se mantém flutuante mas que pretendemos nunca abandonar. Esperamos que num tempo futuro, quanto possível breve, deixaremos de encarar os outros como um perigo, retomaremos os beijos e os abraços,  faremos de novo um acolhimento confiante a quem nos bate à porta, regressaremos mais fortes a uma nova normalidade. Cientes, no entanto, de que ela será diferente. E hesitantes, ainda, quanto ao modo como a desejamos.

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.

[1] A Ética é uma das obras maiores do filósofo, da qual recentemente saiu uma nova tradução, feita por Diogo Pires Aurélio (Lisboa, Relógio D’Água, 2020).

[2] Este termo tem tido diferentes traduções. Neste caso particular, segui as versões brasileiras da Ética quer de Marilena Chauí, quer de Tomaz Tadeu.

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