Crianças, Recreio na escola. Foto © Miguel Veiga

“A minha escola tem pessoas de vinte e sete nacionalidades diferentes.” Foto © Miguel Veiga.

 

A minha escola tem pessoas de vinte e sete nacionalidades diferentes.

A minha escola tem rapazes e raparigas que gritam e falam alto e rapazes e raparigas que não se ouvem.

A minha escola tem professores que dão aulas com a porta aberta e partilham o seu saber ultrapassando barreiras.

A minha escola tem alunos atentos, motivados, que dominam as tecnologias, que fazem perguntas pertinentes e que gostam de aprender, e tem outros alunos que não.

A minha escola tem uma campainha que nos diz quando devemos começar e quando devemos parar.

A minha escola tem quadros de ardósia onde escrevo com giz, que faz com que leve as marcas do meu trabalho para fora da sala, no pó que se agarra às mãos e nas manchas do casaco.

A minha escola tem livros que são deixados propositadamente em sítios improváveis para despertar a curiosidade e proporcionar leituras inesperadas.

A minha escola tem uma galeria de arte num lugar de passagem para que o nosso olhar se cruze com a beleza da pintura e do desenho.

A minha escola tem um ginásio em que as bancadas se enchem de conversas cruzadas no meio de aplausos e assobios nos dias de torneio.

A minha escola tem uma rádio que é sítio de convívio e partilha, através da qual se conhecem e dão a conhecer novas sonoridades musicais e literárias, difundidas pelos altifalantes.

A minha escola tem um clube de cinema que exibe filmes variados e que ora tem a sala a abarrotar, ora nem por isso, conforme o filme que se anuncia e os grupos que se conseguem motivar.

A minha escola tem grupos de alunos que nos intervalos nos convidam a comer bolo e crepes quentinhos para que os seus projetos se concretizem.

No dia da escola, esta enche-se de cheiros e sabores do mundo, experiências científicas, jogos, música, palavras, cores, de muitas horas de trabalho de alunos, professores e funcionários, que acolhem com alegria e entusiasmo os meninos pequeninos, os pais e as entidades que nos visitam.

A minha escola tem beijos e abraços que se dão e que se roubam.

A minha escola tem nespereiras que povoam o recreio e que não chegam a ver os seus frutos bem maduros porque, antes disso, encontram bocas insaciadas.

A minha escola tem um charco que é casa de rãs que coaxam no silêncio e que se calam e petrificam quando indiscretamente as observamos ou as queremos mostrar.

A minha escola tem pássaros de cores exuberantes que pousam nas vedações e nos chamam com o seu cantar.

A minha escola tem uma horta onde se aprende com a natureza que “há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou”[1].

A minha escola tem heróis que todos os dias se superam a si próprios.

 

Muito disto está suspenso.

Tenho vontade de voltar a viver tudo isto, lá.

Oração, Nacionalidades, Etnias, Escola aberta e escola fechada. Foto © Miguel Veiga

“Muito disto está suspenso.Tenho vontade de voltar a viver tudo isto, lá…” Foto © Miguel Veiga.

 

Darcília Machado é professora

[1] Eclesiastes 3, 2

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