Precisamos de nos ouvir (24) – Ivo Neto: O que aprendemos na saúde mental com a pandemia?

| 6 Mar 21

Balança

 “Há que enquadrar estes serviços de uma forma decente no Serviço Nacional de Saúde”. Foto © Miguel Veiga

 

A avó estava a dias de fazer 90 anos e a mesa para juntar a família reservada, não muito longe de casa para ela não se cansar. Tinha começado há dias no Público e a Rita estava animada com a viagem aos Açores marcada para Maio. Ela foi a primeira. Veio para casa a pensar que na quarta-feira regressava ao trabalho, ao ginásio e, no fundo, à vida normal. Mas não. Na semana seguinte foi a minha vez de fazer da casa, a redacção.

A mesa da sala desp(ed)iu-se dos amigos e dos copos de vinho que se arrastavam até às duas da manhã e transformou-se num escritório, num restaurante, num cinema. O confinamento severo, longe da família e dos amigos, veio acompanhado de doses de ansiedade, motivadas pela incerteza e pelo medo. Essa palavra, “ansiedade”, materializou-se com os dias de reclusão que nos esconderam uns dos outros. Tiraram-nos os abraços e as conversas. Os mimos e os risos.

E como se a saúde mental fosse algo exclusivo do século XXI, começámos a ouvir falar, com mais frequência, dos problemas. A par do “achatar da curva”, da “inoculação” ou da “venda ao postigo”, ganhámos uma nova expressão: fadiga pandémica. Os psicólogos e psiquiatras conquistaram mais espaço nos jornais e as televisões abriram os plateaux a esses especialistas, que tão poucas vezes têm voz.

Logo no final de Maio, a Organização Mundial de Saúde já alertava para os riscos do confinamento e, em Setembro, dava conta de que, em 130 países, a pandemia suprimiu os serviços de saúde mental em mais de 90%. No final de Fevereiro, um relatório europeu incluiu Portugal entre os países que deixaram de fora do plano de vacinação os doentes mentais.

E os números são de facto preocupantes. Portugal, de acordo com dados da Direcção-Geral da Saúde é o quinto país da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico que mais consome ansiolíticos e antidepressivos, atingindo já uma taxa que duplica a de países como Holanda, Itália e Eslováquia. Não se sabe se a pandemia veio agravar esta situação, mas nos primeiros três meses de 2020 foram vendidas mais 400 mil embalagens do que no mesmo período em 2019.

Se vai ficar tudo bem depois da pandemia? Dificilmente. Se vai voltar tudo ao normal (“normal”)? Definitivamente não. Mas temos de fazer destes desafios, lições. E a principal é a desmistificação dos problemas de saúde mental. Não são doidos. Não são malucos. São pessoas invisíveis, com doenças invisíveis, as reais e cada vez mais próximas.

Depois, há que enquadrar estes serviços de uma forma decente no Serviço Nacional de Saúde. Segundo dados de 2017, um doente prioritário podia ter que esperar até 115 dias (aproximadamente quatro meses) por uma consulta. São prazos incomportáveis para quem precisa de um tratamento de proximidade e prolongado. Mesmo para quem tem seguro de saúde privado, a cobertura de especialidades relacionadas com saúde mental é extremamente limitada.

Miguel Veiga

“A factura económica da pandemia está à vista de todos” – muitas pessoas ficaram na rua sem tratamentos. Foto © Miguel Veiga

 

É urgente uma maior sensibilização por parte da sociedade, por parte das famílias, por parte das entidades patronais. É que se a febre se mede com um termómetro, a ansiedade não tem barómetro palpável.

A factura económica da pandemia está à vista de todos. Os atrasos nos diagnósticos de cancros são notícia todas as semanas. Mas o pós-pandemia vai trazer também desafios importantes na área da saúde mental.

Há muito para mudar na prevenção e no tratamento da saúde mental e era importante que a bazuca que está para chegar ajudasse a mitigar parte do atraso do nosso país nesta matéria.

 

Ivo Neto é jornalista e editor do Público online.

 

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