Precisamos de nos ouvir (26) – José Miguel Braga: (S/título)

| 8 Mar 21

Furnas, Açores, António José Paulino

“Vem aí um mal que nos vai pôr em perigo a todos…” Foto: Furnas, São Miguel (Açores) © António José Paulino.

 

1

Corria o mês de Fevereiro de 2020, se bem lembro, e a minha mãe avisou-me, dizem meu filho, que vem aí um mal que nos vai pôr em perigo a todos. A minha mãe, com quase noventa anos, é uma resistente, muito atenta ao mundo. A minha mãe gosta de dar. Fiquei inquieto e ao mesmo tempo desassombrado. Libertei-me de um certo modo de olhar o monstro a coberto de alguma tranquilidade ficcional ou de especulação diletante. Dizem que o vírus é um ser morto. É curioso. É um ser morto que precisa da vida para se multiplicar. É um arremedo de morte, por assim dizer, um perigo e vai ser preciso lutar e sofrer muito ou alguma coisa, depende dos intérpretes.

 

2

Em princípio de Março estive alguns dias em Angola, mas bastante doente, talvez por efeito da vacina contra a febre amarela e da medicação contra o paludismo. Foi difícil encantar-me com tudo o que via, mas encantei-me, na mesma, com aquela dor de coisa a puxar-me para dentro, a magoar e a respirar partes de mim. Cheguei doente e assim fiquei uns tempos, aproveitando para ler e ver as notícias. Foi nessa altura que li A Peste, de Camus. Um livro para voltar a ler. Felizmente estou habituado ao teatro e à disciplina artística. Começaram as aulas à distância, fim dos ensaios, das saídas. Tempo de leitura, de recolhimento. E também o Zaratustra, de Nietzsche, os romances de Herman Hesse. Vejo pouco tempo a televisão. Só o necessário.

 

3

Não tenho particular desejo de me comprometer com movimentos políticos organizados, mas há alturas em que esse entendimento acontece naturalmente e então agora, com os meios que há hoje em dia. Desconfiei sempre dos negacionistas. Eles não são o diabo que faz aparecer a ponte da Misarela, eles são o diabo que a faz desaparecer. Pobre guarda-avançada do exército inimigo. Vêm com altifalantes e cartazes, agem ostensivamente nas ruas, fazem festas, tiram as máscaras, como se houvesse nisso um pendor de missa negra. Comecei a associar este movimento ao facto de as ideias fascistas se começarem a ouvir nas ruas e assembleias de forma organizada. Depois há os burros, os seguidistas, os correligionários, enfim. Deste mundo que acabo de referir reza o mal. Já não nos bastava a pandemia de um vírus cujo grande objectivo é comer os pulmões e vêm agora estes imbecis, iletrados e insensíveis, abrir mais uma frente de combate. Encanta-me, sem mais palavras, o trabalho de todos os que lutam contra a pandemia nos hospitais e nos serviços de saúde. É um bem inestimável que não precisa de encómios, apenas o nosso desejo de agradecimento.

 

4

As dúvidas apresentam-se com marcas de cultura. Influenciadas pelo peso da formação académica. Será preciso abandonar todo esse poder da instrução e partir sem nada ou com muito pouco. Um pedaço de papel e um lápis, um pouco de água e o agasalho para a noite e as friagens. A experiência do teatro falou-me sempre de ética do actor e da disciplina artística. Neste momento, ajo como se estivesse no teatro. Tudo é bem ensaiado e as peças movem-se no jogo de xadrez, sabendo abrir as janelas e respeitar as distâncias. A desconfiança nunca me abandonou. O bicho é perigoso e às vezes, como agora, parece estar e encobrir-se, talvez vá adormecer, “à espera da lua cheia”…

Cochim, Índia, maquiagem

“Neste momento, ajo como se estivesse no teatro. Tudo é bem ensaiado e as peças movem-se no jogo de xadrez…” Foto: Maquiagem para teatro em Cochim (Índia). © Miguel Veiga.

 

5

Cuidar primeiro dos velhos e das crianças. Todos os homens e mulheres válidos devem estar na rectaguarda da protecção ao Serviço de Saúde. Muitos vão ficar doentes. Mas não podemos deixar que a doença se dissemine junto dos mais frágeis, dos que não se podem defender. Comecemos pelos mais velhos e a seguir cuidemos dos bairros pobres, onde há maus serviços de água, electricidade e saneamento. Em Setembro deste ano de 2020 apanhei a doença. Tens covid!, disseram-me. E assim andei entre testes positivos durante um mês. Depois andei outro mês meio trôpego e depois fui ficando bem. Percebi, no entanto, que esta doença pode fazer muito mal e provocar sequelas terríveis para um ser humano.

 

6

Melhores pessoas, melhores cidadãos, melhores políticos. Precisávamos de ter mais coragem na intervenção cívica. O poder também precisa de maior civilidade e o povo português ou pelo menos a maioria dos trabalhadores não têm nada a ganhar com a pandemia. Os ganhos estão entregues a outras partes, nomeadamente às indústrias farmacêuticas.

 

7

Defender e proteger sempre os mais fracos. Só uma política fortemente cidadã no entendimento do interesse e sentimento colectivo na saúde pública o pode fazer; só uma política muito séria no entendimento das situações e crises laborais, fortemente defensora do aumento de poder do trabalho através do aumento de salários e da qualificação e revisão de carreiras. Para terminar gostaria que não esquecêssemos a voz da tragédia, os avisos. Lembro o final do romance de Albert Camus, A Peste (tradução de Ersílio Cardoso):

“Com efeito, ao ouvir os gritos de alegria que se ouviam da cidade, Rieux lembrava-se que esta alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada. E sabia também que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”

 

José Miguel Braga é professor, encenador e escritor

 

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