Precisamos de nos ouvir (27) – Ana Macedo: A discussão sobre o desconfinamento

| 9 Mar 21

António José Paulino, Bratislava, Escultura

“A pandemia faz-nos tomar consciência do valor e da importância das pessoas comuns que estão à nossa volta e de que sozinhos não somos nada.” Foto: Escultura em Bratislava. © António José Paulino

 

“Um povo que não conhece a sua História está condenado a repeti-la. Nós conhecemos bem a história deste ano da pandemia. Não cometeremos os mesmos erros” – proclamou-nos Marcelo Rebelo de Sousa no seu discurso ao país no passado dia 25, anunciando as medidas para o novo período de estado de emergência entre 2 e 16 de março.

Aprender com os erros do passado é o apelo que nos faz o Presidente da República, de outro modo entraríamos já todos num desconfinamento tão ansiado quanto tentador. De um lado estão os mais prementes argumentos a favor: as crianças e os jovens sem aulas presenciais, o isolamento e a solidão dos mais idosos, privados dos contactos familiares e sociais e, naturalmente, a urgência da abertura gradual da economia e o desemprego. Do outro, o número de internados por covid-19 que continua alto, os cuidados intensivos no limite, a vacinação atrasadíssima, o alerta dos médicos para o perigo das novas estirpes, a insuficiência dos rastreios. Não faltam argumentos – nem a liberdade para os expor foi alguma vez tão fácil como o é hoje, com o enorme poder das redes sociais – para justificar os nossos desejos.

Mas aprender com a História implica uma leitura constante e inteligente da mesma. A História é um misto das memórias que recolhemos e construímos e do sonho que alimentamos. A História do mundo está cheia de guerras e de fracassos e às vezes até parece que aprendemos com eles. Outras, recorrentemente, não. Sonhamos com uma Europa Unida depois das duas Grandes Guerras. Depois, parece que retrocedemos. A expressão I have a dream ficou famosa no discurso que Martin Luther King proferiu nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, em 1963, e constituiu um momento irreversível na história do movimento americano pelos direitos civis dos negros. E, mais ainda, deu-nos a convicção que a esperança era possível. As conquistas de cada geração deviam abrir novos desafios de humanismo numa sociedade global que nos torna cada vez mais dependentes uns dos outros.

A atual pandemia põe-nos uma vez mais à prova. A crise que atravessamos faz-nos refletir no que verdadeiramente importa, traz-nos novos desafios e proporciona-nos oportunidades para a mudança.

A liberdade que tínhamos por garantida, as visões e as formas individualistas de estar, a preocupação com a nossa imagem individual, o consumismo exacerbado, tudo isto mostrou a sua fragilidade. Estaremos nós preparados para mudar? Ou apenas resistir até que as vacinas nos batam à porta e, de desconfinamento em desconfinamento, tudo possa voltar ao que era? Será por isso que deparamos com o panorama internacional dos “furadores de fila” que, quando confrontados com a exposição da descoberta, nos chocam ainda mais com as formas usadas para o encobrimento da culpa?!

A tragédia global da covid-19 não pode deixar de nos trazer a consciência de que somos uma comunidade global que navega em conjunto no mesmo embarcadouro. Qual a importância substancial de apenas alguns ou determinadas regiões do globo, disporem de imunização, enquanto o resto fica entregue à sua sorte?! Expulsar o vírus pela porta, para depois este entrar pela janela? Relevo seja dado à recente iniciativa internacional Covax que se propõe até ao final de 2021 imunizar dois milhões de pessoas de maior risco nos países mais pobres do mundo! Talvez mais do que nunca o desenvolvimento só o é se for de todos…

A pandemia que vivemos faz-nos também tomar consciência do valor e da importância das pessoas comuns que estão à nossa volta e de que sozinhos não somos nada. Pessoas que trabalham para fazer funcionar os serviços essenciais à tragédia comum: médicos, enfermeiros, cuidadores, voluntários, transportadores, empregados de supermercados, agentes de limpeza, agentes de segurança… Aprendemos também a dar valor às pequenas/grandes coisas, tantas vezes relegadas para segundo plano, como o silêncio, o som da natureza, o estar connosco próprios, o ouvir o outro, a verdadeira solidariedade, a família, a arte e a beleza que nos cercam e que também criamos. Aprendemos a ser mais sensíveis ao desperdício, a alimentarmo-nos de produtos mais naturais, a dependermos mais de nós próprios, a confrontarmo-nos com a nossa fragilidade e com as verdadeiras necessidades de um mundo melhor.

Mais do que a discussão do desconfinamento parece-nos mais importante discutir e pensar a mudança. Este é um marco que não pode passar incólume na história de todos nós para “não cometermos os mesmos erros”. É urgente, nesta altura em que temos mais tempo para refletir e organizar as nossas coisas pessoais, conservar as memórias desta pandemia. Escrevamos os nossos diários, que são memórias registadas na primeira pessoa e preciosidades no futuro. Ergamos memoriais – sem necessidade de alimentar grandes consumos financeiros – que nos embelezem as cidades e nos façam deparar com as lições que a História sempre nos dá.

 

Ana Macedo é professora de História

 

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