francisca pimentel precisamos de nos ouvir criança campo

“É importante as crianças continuarem com as suas vidas escolares, mas o simples facto de poderem abrir a porta e saírem, dá-lhes (e dá-nos, a nós, pais) alívio e alegria.” Foto © Francisca Pimentel.

A vida, o tempo, as preocupações, as dúvidas e até as certezas são diferentes nestes últimos tempos, também eles diferentes.

Na nossa vida desempenhamos vários papéis, mas a maior parte deles são uma escolha nossa, fazendo parte do nosso crescimento. Mas de repente tudo mudou e foi-nos imposta uma série de papéis, tarefas e responsabilidades para as quais muitos de nós não estávamos preparados, outros não se sentem com capacidades para tal e outros, simplesmente, não as querem. Os adultos da casa têm de ser: cozinheiros, professores, psicólogos, costureiros e – muito importante: eles próprios.

Numa família a vida conjunta passou a ser intensa. É muito tempo juntos, são muitas necessidades, algumas exigências, birras e bastantes gargalhadas.

Estes tempos na cidade são duros, stressantes, solitários e muito, muito, sufocantes. No campo, existe uma leveza, o ar puro, a possibilidade de acompanhar as transformações da natureza, o simples abrir a porta e poder sair sabendo que não estamos a infringir a lei, nem a desrespeitar nenhuma regra; simplesmente é um privilégio que temos e estamos a usufruir dele ao máximo.

As crianças com obrigações escolares continuam a fazê-las e as que ainda não as têm gozam da vida em família a 100%. É importante as crianças continuarem com as suas vidas escolares, sociais, mas o simples facto de poderem abrir a porta e saírem, dá-lhes (e dá-nos, a nós, pais) alívio e alegria.

Gosto de ver esta fase – sim, acredito que seja uma fase e que vai passar – como uma oportunidade de família, de gozar dos meus filhos em pleno, como até agora nunca tinha acontecido. Aprender a viver com menos estímulos exteriores, conhecer melhor os gostos de cada um e ter tempo, que na correria do dia-a-dia é tão escasso e que agora passa mais devagar. Conseguirmos não olhar tanto para o relógio e deixar o tempo fluir.

Acredito também que o voltar ao normal, que não vai ser o normal de antes, nos vai fazer bem a todos. Vamos poder matar saudades de muitas pessoas que nos últimos tempos apenas temos visto através de ecrãs. Queremos abraçar, beijar, apertar, cheirar aqueles de quem gostamos e que nos fazem falta.

Para mim, esta vai ser a grande ferida que esta pandemia vai deixar: o distanciamento social; o medo de tocar, abraçar; e sem dúvida que vamos precisar de reaprender talvez numa escola de afetos.

Eu e a minha família estamos empenhados em, quando tivermos de olhar para trás, conseguirmos ver esta pandemia com um balanço mais positivo de que negativo. Se todos assim fizerem, acredito que custe menos enfrentar o presente e acreditar no futuro.

francisca pimentel precisamos de nos ouvir arco-iris

“No campo, existe uma leveza, a possibilidade de acompanhar as transformações da natureza, o simples abrir a porta e poder sair sabendo que não estamos a infringir a lei.” Foto © Francisca Pimentel.

Ninguém sabe o que nos espera daqui para frente, mas esta experiência ninguém nos tira. Vamos ter que ser fortes, reerguer, agradecer, acreditar e tirar uma lição: ninguém controla nada nem ninguém!

Vamos viver um dia de cada vez, gozá-lo ao máximo, aproveitar os bons momentos que a vida nos dá, rir muito, brincar, cantar e criar boas memórias para nós e para aqueles que estão perto de nós; acredito que isto nos fortalece o sistema imunitário e nos dá uma melhor saúde mental.

Tenho esperança de que a Humanidade, depois deste susto, fique mais unida, e que o Mundo em que vivemos se torne um lugar ainda melhor para se morar.

Vamos ficar todos bem!

 

Francisca Pimentel é mãe, cuidadora e animadora sociocultural.

 

Pin It on Pinterest

Share This