
“Não se preocupem com a vossa imagem presente, mas com o nosso futuro.” Foto © Inês Azevedo
Duas coisas que lhe tem dado ganas de dizer em público?
A patente das vacinas para a covid-19 devia ser de domínio público!!!!! As vacinas deviam poder ser replicáveis por todas as instituições que tivessem condições para o fazer.
Ex.mos Senhores Dirigentes políticos de Portugal:
Sejam HONESTOS! O pior na incerteza é a desinformação, a falta de rigor e a manipulação. Não se preocupem com a vossa imagem presente, mas com o nosso futuro.
Que inquietações, que aprendizagens?

“Aprendi a esperar coisas diferentes e a curtir a deriva de simplesmente estar. Foto © Inês Azevedo
Neste ano de vida em pandemia, deriva é a palavra que considero ser capaz de criar as imagens que melhor ilustram as sensações, as emoções e os esforços vividos.
Pode ser boa esta deriva. Caminhando nos perdemos para encontrar algo que vibra em nós, recolhemos, criamos, renascemos e partilhamos essa viagem com os outros.
Viver tanto tempo seguido com os meus filhos – já não o fazia desde que eles nasceram (as férias são estados de exceção que passam rápido) – ensinou-me a ouvir melhor e a ir transformando esse ouvir em ações com mais intenção e valor para a nossa vida em comum.
Aprendi a esperar coisas diferentes, a ir dizendo que não ao que já não serve e a curtir a deriva de simplesmente estar.
Mas esta deriva pandémica é como estar em mar alto, a flutuar. É como estar imersa em algo mole, que escapa pelos dedos.
Andar à deriva em mar alto não é viver, é sobreviver. É confiar que o nosso pequeno esforço se há de juntar ao de quem nos possa resgatar. Em quem confiar?
O isolamento da vida plural tem promovido a mesmidade, a crescente polarização dos discursos e das ações, muito potenciadas pelas redes sociais, de onde surge uma radicalização dos discursos aparentemente inócua, mas pegajosa.
Que gestos a encantaram, revoltaram?
Revoltou-me o modo como os média acompanharam as eleições presidenciais e noticiaram os seus resultados, apregoando em tom de feira a subida da extrema-direita e dos discursos antidemocráticos.
Revoltou-me que o Governo tenha utilizado a “justiça social” como justificação para a sua incompetência e incapacidade de agir.
Revolta-me o modo como aqueles que constroem e criam cultura, com gestos singelos, poéticos e fortes, que traduzem a emoção e o desconforto, são desvalorizados e remetidos à precariedade.
Encantam-me os gestos de âncora, simples, que permitem a união e a empatia entre as pessoas. A generosidade das pessoas que amam.
Encantam-me as tentativas coletivas de tomada de poder sobre os assuntos que nos apoquentam, a associação comum despreocupada do poder individual, focada na discussão e na tentativa de resolução de inquietações partilhadas.

“Quem deveríamos cuidar? Aqueles que não têm proteção institucional….” © Foto Inês Azevedo.
Qual a pergunta que mais lhe vem à mente?
Será que vamos conseguir travar o crescimento da extrema-direita?
Mirando o retorno à vida “normal”, cíclica e autofágica, qual o ato radical que me permitirá não fazer o que, em confinamento, aprendi já não me servir?
Que (quem) deveríamos cuidar mais, agora e no pós-covid?
Aqueles que não têm suporte familiar. As pessoas para quem o estar em casa representa uma ameaça, seja pela solidão, seja porque estão rodeadas de quem as põe em perigo.
Aqueles que não têm proteção institucional. As pessoas a quem o sistema laboral em que vivemos submete à precariedade, sem direito a segurança social ou a fazer parte dos contemplados pelos apoios previstos nas alíneas da legislação.

“Há que prestar atenção aos que estão desprotegidos, aos idosos, às crianças e aos jovens.” Foto © Inês Azevedo.
O que é preciso mudar, em cada um de nós e na vida pública?
É preciso que cada um/uma se informe e tome a responsabilidade individual que lhe compete perante a vida em comum.
É urgente que a fragilidade individual deixe de ser entendida como um peso para os demais, mas como algo que é parte da condição humana e, por isso, parte integrante de todos.
É urgente compreender que cuidar é um verbo vital à vida pública.
Atrás da tragédia sanitária vem a crise económica e social. A quem há que prestar atenção?
Há que prestar atenção aos que estão desprotegidos, aos idosos, às crianças e aos jovens. Atender aos adultos, a quem as oportunidades de viver dignamente tenham sido dificultadas. Estas atenções não se resumem a dar o que consideramos ser melhor, mas a dar ouvindo as suas inquietações e agindo em colaboração.
Há que ouvir quem sabe. Quem quer pôr ao serviço dos outros a sua experiência e saber crítico acumulado.
Inês Azevedo é mãe de duas crianças crescidas e artista educadora.










