Precisamos de nos ouvir (33) – Emília Leitão: uma procura orante diante da pandemia

| 15 Mar 21

Jurga Martin, escultura

“Pergunto-me muitas vezes qual é o meu lugar.” Imagem: Jurga Martin, escultura em argila

 

“Jesus aproximou-se e, quando viu a cidade, começou a chorar.” (Lucas 19,41)

Desde muito cedo e em particular nesta última fase da pandemia, vivo, recorrentemente, habitada por esta imagem – Jesus a chorar diante de Jerusalém. O meu corpo chora diante da cidade onde as ruínas e a morte na vida dos meus concidadãos se tornaram palavras escritas na carne para exprimir o inexprimível.

No silêncio das cidades desertas ecoam gritos de sofrimentos resultantes de uma enorme diversidade de experiências – nos hospitais, nos centros de saúde, nas casas, nos centros de abrigo, nas ruas das pessoas sem abrigo, nas equipas que trabalham com populações vulneráveis, nos trabalhos, na vida social e familiar, na vida afetiva… As palavras PERDA e FRAGILIDADE unem-nos no tumulto desta vida a que um vírus nos obrigou. As tonalidades destas palavras em cada um de nós são diferentes. Conforme as circunstâncias em que nos encontramos – uns estão mais perdidos que outros!…

Sou assim remetida com frequência à leitura de vivências-limite, como foram as experiências de pessoas sujeitas à vida em campos de concentração – privação das privações; brutalidade das brutalidades – de que nos falam Viktor Frankl ou doutra forma Boris Cyrulnik. De maneira diversa ambos nos dizem: dos que ficaram vivos, reergueram-se com maior probabilidade os que transportaram, dentro de si, memórias de pessoas, presentes ou ausentes, que os fizeram sentir amados; pessoas que os fizeram sentir gente cuja existência valia a pena!

Pergunto-me muitas vezes qual é o meu lugar, buscando um sentido diante de vivências e sentimentos tão contraditórios e habitados por tantas aflições. Releio Maurice Bellet:

“Receais que eu seja humano, demasiado humano? Desconfiai desse receio; por essa via, podereis derivar para o desumano, acreditando que assim vos aproximais de mim, ou mesmo que falais em meu lugar.

Engano total.

Se quiserdes estar próximos de mim,
tornai-vos tão humanos quanto possível.
É essa a vossa maior proximidade.

Porque a minha distância está para além de toda a distância que vos é dado criar ou compreender.

Permanecei, pois, no vosso lugar.
É aí que Eu estou.”

Pois é, não vale a pena fugir! É naquilo que vivo que é preciso ver para lá do visto:

– resistir no quotidiano e no espaço publico a participar na tagarelice de que nos fala Arendt;

– discernir no que escutamos e dizemos, o que ajuda a salvar/dar saúde, a reerguer das feridas, daquilo que intoxica e, como o bicho da maçã, corrói e faz apodrecer;

– acolher o que é possível prever, mas preparar-se para o inesperado e o improvavel – o meu internista disse-me um dia “a medicina é a ciência do provável e a arte do possível”:

– procurar os gestos diários que tornam concreta a consciência de que precisamos uns dos outros – desde a partilha do pão à partilha da beleza:

– não ceder à ilusão de que a fragilidade não é sempre nossa companheira e por isso precisamos ainda mais uns dos outros.

Surpreendi-me comigo quando tive de aprender a consolar através dum acrílico. Morreu-nos um familiar. As lágrimas da minha mãe ouviam-se e viam-se, mas não era possível o amparo pele a pele. Apenas o olhar e os gestos separados pelo acrílico. Valeu o coração de uma vida. Esse lugar onde pode estar a luz dos afetos que acompanham para lá da destruição ou o vazio da noite sem nome que faz emergir a ideia de que o desalento e o desastre são o nosso horizonte possível. Mas com Sophia grito: “Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo diz: ‘Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres’”.

 

Emília Leitão é médica

 

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