Precisamos de nos ouvir (34) – Joana e Andrea Rigato: Chegar ao lugar onde está o outro

e | 16 Mar 21

Joana Rigato, Andrea Rigato

Val di Rabbi (Alpes), Agosto de 2020.

 

“Quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á. (Mateus 16, 25)

“Yo sé perder, yo sé perder…” (José Alfredo Jiménez)

 

Estamos por estes dias a passar o marco de um ano de pandemia, que nos levou ao limite.

Os desafios ao princípio eram óbvios: um casal (a Joana e o Andrea) com três crianças, uma delas bebé, em teletrabalho num apartamento em Lisboa. A loucura. Mas não foi essa a nossa maior prova.

A maior dificuldade nesta fase da nossa vida, foi um desafio de muitas cabeças: uma, o facto de o Andrea ser italiano e a pandemia ter começado por atacar em força em Itália, de onde chegavam notícias que lhe traziam grande angústia e medo, sendo ele proveniente da segunda região mais afetada e filho único de pais já com uma idade de risco; a segunda, e em contraponto, o facto de a Joana provir de uma família onde a pandemia tem sido vista de forma muito ligeira, inclusive com críticas acesas às medidas de proteção, confinamento e afins.

A acrescer a isso, a ansiedade do Andrea, que ele já conhecia bem, mas que se agudizou com a pandemia, em choque com a congénita dificuldade da Joana em reconhecer o ponto de vista do outro. Para complicar mais, o facto de o Andrea roçar a hipocondria, enquanto a Joana é uma pessoa tendencialmente despreocupada e pouco atenta a questões de higiene. Foi esta a nossa Hidra, criatura mitológica de várias cabeças que, metida no caldo do stress do confinamento com miúdos pequenos, tinha tudo para nos levar à rutura.

Mas curiosamente, aprendemos tanto quanto sofremos e ainda estamos aqui, juntos, para contar a história.

 

Conto eu, Andrea:

Fui confrontado objetivamente com o facto de ser uma pessoa ansiosa e com traços de hipocondria. Dantes ainda tinha uns bichinhos de negação, a tentação de dizer que as minhas reações eram “normais”. Com a pandemia, tornou-se inegável que havia aqui um problema. Mas, à parte uma crise inicial muito forte, aprendi que sou capaz, também eu, de me esforçar para não ficar tão fossilizado nas minhas formas de atuar (desinfeção de tudo, higienização compulsiva, ficar fechado em casa, não ir comer fora nunca, não apanhar o avião para ir a Itália ver os meus pais no Verão) e de ultrapassar, passo a passo, as minhas barreiras.

 

Conto eu, Joana:

Percebi que sou feita para a guerra, para as situações-limite. Fico focada e prática e faço mil coisas em poucas horas, para garantir que tudo funciona e que os miúdos estão bem. Consigo espontaneamente disfarçar muita coisa, esconder as tensões debaixo do tapete, para que as crianças vivam um dia a dia sereno e alegre. O desafio é não cair num pragmatismo excessivo, tipo comboio de alta velocidade, supereficiente mas incapaz de interagir com a paisagem. O difícil, nos meses de crise mais intensa que tivemos ao princípio, foi conseguir parar para escutar, para dar prioridade aos sentimentos em detrimento da loiça para lavar, por exemplo.

 

Conto eu, Andrea:

Vi como é difícil que as pessoas se entendam. Não foi nada trivial sair do meu ponto de vista num assunto que me parecia completamente linear (a gravidade da pandemia e a necessidade de fazer sacrifícios como sociedade para a conter). A minha situação pessoal influenciou a minha perspetiva, claro (nomeadamente, o facto de não ter perdido rendimentos e de ter podido, a partir de certa altura, ir viver para o campo, onde o impacto do confinamento é muito mais suave), mas mesmo sabendo que cada um viveu uma situação diferente que moldou o seu olhar, surpreendi-me pela heterogeneidade de visões e a distância que senti, inclusive perante pessoas bastante próximas (amigos ou família).

 

Conto eu, Joana:

O contraste entre as atitudes relaxadas da minha família de origem (e de grande parte dos nossos amigos, sobretudo em Portugal) e o medo do Andrea foi muito difícil de gerir. Percebi que haver uma forte sintonia entre o meu temperamento natural e o de pessoas que sempre tiveram grande influência em mim não nos estava a ajudar. É como ter uma claque a gritar por ti e a reforçar a tua confiança nas certezas que tens, mas numa situação que não devia ser a de um jogo de rivalidades entre quem ganha e quem perde. Se a prioridade tem de ser o acordo, o diálogo e a harmonia do casal e as influências do exterior perturbam um equilíbrio já precário, há que fechar um pouco o canal de comunicação com essas influências. Retirar-lhe peso dentro de nós e salvaguardar o precioso que é este encontro de diferenças e vontades de que somos nós os protagonistas.

Joana Rigato, Andrea Rigato

Homoíne (Moçambique), 2002.

 Conto eu, Andrea:

O choque de visões sobre a gravidade da pandemia estava, não só fora de casa, mas também na nossa família nuclear e aprendi que, apesar desta heterogeneidade, se há vontade de reconciliação e aproximação, o encontro é possível. Senti que a Joana e os nossos filhos mais velhos (de 9 e 8 anos) procuraram adaptar-se às exigências que vinham da minha insistente preocupação com o contágio, o que me deixou mais tranquilo. Por outro lado, também eu consegui, com um grande esforço, sair da posição mais confortável para mim que era evitar todas as situações que me causavam stress, o que acabava por me isolar em casa. Com cedências de parte a parte, fomos conseguindo governar este barco.

 

Conto eu, Joana:

Para o meu feitio, reconhecer a importância do diálogo não é uma tendência natural. Sou das que adora uma boa discussão, mas não tanto as cedências de uma negociação. Percebi o difícil que é para mim aceitar as fragilidades e os tempos do outro, quando não são os meus. Falta-me empatia e paciência, e tendo a subestimar as dificuldades que não vejo e não vivo, subvalorizando, assim, o esforço contínuo que é feito para as ultrapassar. Sinto que o grande desafio da minha vida é saber amar, com um amor real, concreto, que dá valor e acarinha. Muito bonito de ler no papel, mas muito difícil de viver no dia a dia.

 

Conto eu, Andrea:

Aprendi que há uma grande diferença entre aquilo que consigo fazer em família e aquilo que consigo fazer na sociedade. Percebi que ainda não aprendi como lidar com esta diversidade de pontos de vista e que não sinto vontade de alargar para fora de casa o percurso de aproximação, diálogo e negociação que fizemos entre nós. Continuo a pensar que as pessoas deveriam agir como a lei diz (e como eu gostaria que agissem) e custa-me entender porque é que tanta gente adota comportamentos que eu considero perigosos. Se há uma lei, tu tens de obedecer. Confirmei-me muito cumpridor das regras e descobri-me bastante intolerante com quem não cumpre.

 

Conto eu, Joana:

Percebi que sou bem mais compreensiva e empática com os que estão mais longe, do que aqui dentro de casa. Sinto interesse por quem pensa de maneira diferente da minha e sou empática e compreensiva perante quem está fragilizado emocionalmente, quando isso não tem consequências sobre mim. Pelo contrário, quando isso me afeta, a tentação é revoltar-me contra o azar de estar a braços com tantas dificuldades, quando uma relação entre duas pessoas mais semelhantes seria tão mais simples. Mas aí entra a visão poética que o Andrea há mais de 20 anos me ensina: ver a beleza e a poesia que há neste irmos ao encontro um do outro, quando o caminho mais fácil seria ceder perante o cansaço e querer uma relação sem atrito e sem diferenças.

 

Val di Sole (Alpes), Agosto 2020.

Em resumo, foi um ano de conversão do olhar para todos, a nível planetário. Conversão no sentido de mudança na forma de ver, de ser capaz de olhar para uma mesma coisa de outra maneira. Para nós, em especial, foi uma conversão em duas direções que se aproximam. Para o Andrea, aprender um olhar mais otimista, mais acolhedor da diferença, mais confiante. Para a Joana, aprender um olhar que, ao invés de querer fugir das dificuldades, lhes reconhece beleza. E para ambos, ora mais na relação com os outros fora de casa, ora mais na relação íntima no seio da família, o percurso de aprendizagem continuará, para melhor sabermos procurar o encontro, negociar, ceder, se calhar até saber “perder”.

Como na letra de uma velha canção ranchera (protótipo da música lírica e de amor mexicana) de José Alfredo Jiménez, há que chegar ao lugar onde está o outro, deixando o ego pelo caminho:

Llegaré hasta donde estés, yo sé perder, yo sé perder, quiero volver (a ti), volver, volver…

 

Andrea Rigato é formado em Línguas e Literatura e trabalha como tradutor; Joana Rigato é doutorada em Filosofia e professora no ensino secundário. O Andrea e a Joana conheceram-se em Taizé em 1998 e casaram em 2003. Juntos, fizeram voluntariado em Moçambique e viajaram por nove países da América Latina de mochila às costas a visitar projetos de solidariedade durante um ano, quando ainda não havia telemóveis com internet.

 

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