
Francisco Melo, arquiteto: “Partilhava os seus gostos, dava a conhecer, vivia lentamente…” Foto reproduzida da página da Casa da Arquitetura no Facebook.
Entre o primeiro e o segundo confinamento, a 14 de novembro, o meu Pai morreu. Tinha 89 anos, era um arquiteto prematuramente aposentado devido, em parte, à revolução digital. Em tempo de falta, de ausência, muitas recordações sobrevêm. Gratas umas, outras nem tanto. Cresci, aprendi, aceitei e recusei, em relação com ele. Lembro, com gratidão, o gosto que tinha pela leitura, dos jornais diários, de romances policiais e de tantos outros géneros; pela música clássica, levando-nos, desde muito novos, a mim e a meus irmãos, a concertos, ouvindo o Requiem da Guerra de Britten ou os Planetas de Holst, discos cuja chegada lá a casa lembro. E as belas artes à mão em livros, reproduções, idas a museus. Partilhava os seus gostos, dava a conhecer e assim alimentava a fruição estética. Mas há uma maneira de ser do meu Pai, que neste tempo incerto e imprevisto que vivemos me tem acompanhado e sobre a qual tenho meditado. Vivia lentamente, tinha propensão para adiar, o que frequentemente incomodava e lhe era apontado como defeito. Aceitar o que a vida nos traz, sem a querer determinar, viver lentamente. Nunca lhe conheci grandes ambições nem em relação à sua carreira profissional ou património, nem em relação à dos filhos. O meu Pai era assim. Evitava as festas e encontros de sociedade, criava cumplicidades com aqueles, familiares ou amigos, de quem gostava. Cultivava uma indolência que não era necessariamente estéril e que, para mim, foi, neste segundo confinamento, motivo de reflexão e edificação. Num tempo em que a produtividade, a performance, o reconhecimento público são valores socialmente dominantes, reconheço no jeito de viver do meu Pai, com defeitos e manias, um desafio a reavaliar o que realmente conta na vida. Quando limitados ao espaço das nossas casas, a trabalhar via internet, convivendo com os mais próximos, esmagados por circunstâncias que não controlamos com reduzida capacidade de ação, corremos o risco da revolta inconsequente, da amargura, da maledicência, da procura incessante do culpado. Aceitar que foi este o tempo que nos foi dado viver e é nele que tentamos ser testemunhas de Ressurreição com gestos de dádiva e consolo, fazendo, sem demasiadas queixas, o que tem que ser feito e sabendo esperar com serenidade.
Paulo Melo é professor de História










