Precisamos de nos ouvir (37) – Paulo Melo: Memória de meu Pai

| 19 Mar 2021

Francisco Melo, arquiteto, © Facebook da Casa da Arquitetura

Francisco Melo, arquiteto: “Partilhava os seus gostos, dava a conhecer, vivia lentamente…” Foto reproduzida da página da Casa da Arquitetura no Facebook.

Entre o primeiro e o segundo confinamento, a 14 de novembro, o meu Pai morreu. Tinha 89 anos, era um arquiteto prematuramente aposentado devido, em parte, à revolução digital. Em tempo de falta, de ausência, muitas recordações sobrevêm. Gratas umas, outras nem tanto. Cresci, aprendi, aceitei e recusei, em relação com ele. Lembro, com gratidão, o gosto que tinha pela leitura, dos jornais diários, de romances policiais e de tantos outros géneros; pela música clássica, levando-nos, desde muito novos, a mim e a meus irmãos, a concertos, ouvindo o Requiem da Guerra de Britten ou os Planetas de Holst, discos cuja chegada lá a casa lembro. E as belas artes à mão em livros, reproduções, idas a museus. Partilhava os seus gostos, dava a conhecer e assim alimentava a fruição estética. Mas há uma maneira de ser do meu Pai, que neste tempo incerto e imprevisto que vivemos me tem acompanhado e sobre a qual tenho meditado. Vivia lentamente, tinha propensão para adiar, o que frequentemente incomodava e lhe era apontado como defeito. Aceitar o que a vida nos traz, sem a querer determinar, viver lentamente. Nunca lhe conheci grandes ambições nem em relação à sua carreira profissional ou património, nem em relação à dos filhos. O meu Pai era assim. Evitava as festas e encontros de sociedade, criava cumplicidades com aqueles, familiares ou amigos, de quem gostava. Cultivava uma indolência que não era necessariamente estéril e que, para mim, foi, neste segundo confinamento, motivo de reflexão e edificação. Num tempo em que a produtividade, a performance, o reconhecimento público são valores socialmente dominantes, reconheço no jeito de viver do meu Pai, com defeitos e manias, um desafio a reavaliar o que realmente conta na vida. Quando limitados ao espaço das nossas casas, a trabalhar via internet, convivendo com os mais próximos, esmagados por circunstâncias que não controlamos com reduzida capacidade de ação, corremos o risco da revolta inconsequente, da amargura, da maledicência, da procura incessante do culpado. Aceitar que foi este o tempo que nos foi dado viver e é nele que tentamos ser testemunhas de Ressurreição com gestos de dádiva e consolo, fazendo, sem demasiadas queixas, o que tem que ser feito e sabendo esperar com serenidade.

Paulo Melo é professor de História

Uma exposição que é “um grito de alerta e de revolta” contra a perseguição religiosa

No Museu Diocesano de Santarém

Uma exposição que é “um grito de alerta e de revolta” contra a perseguição religiosa novidade

Poderá haver quem fique chocado com algumas das peças e instalações que integram a exposição “LIBERDADE GARANTIDA” (escrito assim mesmo, em letras garrafais), que é inaugurada este sábado, 20 de abril, no Museu Diocesano de Santarém. Mas talvez isso até seja positivo, diz o autor, Miguel Cardoso. Porque esta exposição “é uma chamada de atenção, um grito de alerta e de revolta que gostaria que se tornasse num agitar de consciências para a duríssima realidade da perseguição religiosa”, explica. Aqueles que se sentirem preparados, ou simplesmente curiosos, podem visitá-la até ao final do ano.

“Tenho envelhecido de acordo com aquilo que sempre gostaria de ter feito”

“Tenho envelhecido de acordo com aquilo que sempre gostaria de ter feito” novidade

O 7MARGENS irá publicar durante as próximas semanas os depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Este primeiro texto inclui uma pequena introdução de contextualização do autor aos textos que se seguirão, bem como o primeiro de 25 depoimentos. De notar que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

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Dois meses e meio depois, está na hora de reconstruir

Mosteiro Trapista de Palaçoulo

Dois meses e meio depois, está na hora de reconstruir novidade

As obras de requalificação do Mosteiro Trapista de Palaçoulo já se iniciaram. Numa primeira fase, procedeu-se à retirada de escombros, pela mesma empresa que realizou a construção do mosteiro. Desde o fim do período pascal estão em andamento os processos de reconstrução, tendo estes começado por “destelhar a casa”. Em breve, esperam as irmãs, será possível “voltar a oferecer a hospedaria aos hóspedes”. 

A família nos dias de hoje e não no passado

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Quando dúvidas e confusões surgem no horizonte, importa deixar claro que a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, aprovada pelo Concílio Vaticano II nos apresenta uma noção de família, que recusa uma ideia passadista e fechada, rígida e uniforme. Eis por que razão devemos reler os ensinamentos conciliares, de acordo com a atual perspetiva sinodal proposta pelo Papa Francisco, baseada na liberdade e na responsabilidade.

Convento das Capuchas: “Cem anos depois, aqui estamos… a ver as maravilhas multiplicar-se”

Comprado pela Madre Luiza Andaluz, em 1924

Convento das Capuchas: “Cem anos depois, aqui estamos… a ver as maravilhas multiplicar-se” novidade

Um século volvido sobre a compra do edifício do Convento das Capuchas, em Santarém, por Luiza Andaluz (fundadora da congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima) para ali acolher cerca de cem raparigas que haviam sofrido a pneumónica de 1918 ou que por causa dela tinham ficado órfãs… o que mudou? O 7MARGENS foi descobrir.

A Poesia na Rua

A Poesia na Rua novidade

“É preciso ajudar. Ajudar quem gostaria que a poesia estivesse na rua, que a alegria fosse um privilégio de todos. Ajudá-los contra os que lubrificam a máquina do cinismo e do ódio.” – A reflexão de Eduardo Jorge Madureira, na rubrica À Margem desta semana.

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