
Campo de refugiados de Um Rakuba (Gedaref, Sudão): “Não sei que lições esta pandemia trará à humanidade…” Foto © Homero de Jesus, cedida pelo autor
Curiosamente, nunca tinha vivido no decorrer de um ano em tantos lugares – e tão diversos – como aqueles em que habitei em doze meses de pandemia.
O confinamento foi, para mim, algo de atípico se compararmos com aquele que a maior parte das pessoas terá experienciado. Seria, já de si, particular devido à minha condição de médico, à minha idade e especialidade, que me colocariam, naturalmente, no contacto direto com doentes infetados por covid. No entanto, os meses passados resultaram numa sucessão de acontecimentos e desafios que tornaram este último ano, também para mim, profundamente marcante. É nesse sentido que partilho o meu testemunho e algumas reflexões que as circunstâncias me fizeram despertar.
Há sensivelmente um ano, a Europa fechava(-se) progressivamente, país atrás de país, com o número de casos aumentando de dia para dia e invadindo todas as fronteiras. Na altura, eu encontrava-me em Liverpool a fazer uma pós-graduação na universidade. A Inglaterra, convicta de uma estratégia diferente, adiava as medidas de confinamento. Vi ao longe o nosso país recolher a casa enquanto à minha volta os anfiteatros continuavam cheios de alunos e os bares transbordavam de cerveja. Inevitavelmente, o encerramento da universidade acabou por se concretizar pouco depois. Com a transposição das últimas aulas do curso à distância propus-me regressar a Portugal e trabalhar nessa ainda imprevisível linha da frente que a todos nos assustava.
Não obtive, contudo, qualquer resposta por parte da Ordem dos Médicos portuguesa – onde estou inscrito – que na altura tomou a iniciativa, junto dos seus associados, de angariar profissionais não vinculados ao Serviço Nacional de Saúde.
Disponibilizei-me, então, para trabalhar no hospital em Lausanne onde tinha estado no ano anterior. A Suíça, nesse mês de março, apresentava-se como um dos países com maior número de casos por habitante no continente europeu e, no mesmo dia em que os contactei, recebi um contrato para assinar: arranjaram-me casa e enviaram-me os documentos de livre passagem na fronteira, uma vez que nem visto de residência possuía na altura.
O pico passou, o número de doentes internados foi diminuindo, mas a doença e as suas consequências permaneciam uma constante quotidiana.
Terminado o meu contrato, voltei para Portugal em Novembro, num momento em que uma segunda vaga se instalava de novo no país. Mais uma vez, voluntariei-me para integrar o Serviço Nacional de Saúde, trazendo comigo agora, ao contrário da primavera anterior, a experiência clínica nesta doença. De novo, nenhuma resposta me foi dada e, pouco depois, era a organização internacional Médicos Sem Fronteiras que me contactava.
Os nossos principais noticiários continuavam em uníssono, ora inventando a cada dia novos tópicos relacionados com o vírus, ora relatando as mais tremendas minudências das eleições norte-americanas. Em simultâneo, uma guerra esquecida reacendia-se no Sahara Ocidental após quase trinta anos de cessar-fogo; o conflito entre a Arménia e o Azerbaijão aproximava-se de mais um fim diante do silêncio da comunidade internacional; e no norte da Etiópia, o povo tigrés era sujeito a uma limpeza étnica sob as mãos do exército eritreu e milícias amáricas. Nomes, lugares e pessoas de que muito pouco se ouve falar.
Pela imprensa portuguesa, pouco ou quase nada se noticiou.

Refugiados tigrés no campo de Um Rakuba, em Gedaref (Sudão); a 18 de fevereiro, a Frente de Libertação do Povo Tigrés festejou no campo a data da sua fundação. Foto © Tomás Sopas Bandeira, cedida pelo autor.
Apanhei o avião em Dezembro para o Sudão, onde fui integrar uma missão humanitária num acampamento junto à fronteira etíope com refugiados fugidos do Tigré.
Estamos em Janeiro de 2021. Através da família e pelas notícias que o tempo me permite aceder, vou inteirando-me da maior onda de infeções pelo vírus da covid-19 até então registada em Portugal.
A realidade que testemunho à minha volta é, porém, estranhamente distinta. As Nações Unidas calculam em mais de um milhão o número de pessoas deslocadas. Cerca de 60 mil cruzaram a fronteira sudanesa, e são mais de 20 mil as realojadas no campo em que fui destinado para trabalhar. Vivem, desde há pouco mais de um mês, em tendas de plástico, chão de terra, sendo que muitas ainda nem abrigo têm atribuído.
Inicialmente, todas as comunicações com a região em guerra estavam cortadas e só semanas mais tarde as ligações se irão restabelecer. Surgem os primeiros relatórios sobre massacres indiscriminados. Homens, mulheres, crianças: assassinados sem critério. A guerra. As pessoas que vejo diante de mim são aquelas que conseguiram fugir. Há marcas de ferimentos de explosões e tiros, mas são sobretudo as doenças decorrentes de um ambiente já de si tão vulnerável que, perante um contexto extremamente precário, se multiplicam, atingindo todos, mas em particular os mais vulneráveis. Somos a única organização com a capacidade de internar doentes no campo. Pessoas diabéticas em coma por falta de acesso a insulina, infeções parasitárias em fases de doença avançada e fatais se não forem tratadas agressivamente, crianças – demasiadas – com desnutrições severas agudas…
Recebo, a certo momento, no hospital de campanha, uma mensagem da Ordem dos Médicos solicitando a minha disponibilidade para trabalhar num centro de atendimento de chamadas telefónicas para seguimento de doentes suspeitos ou confirmados de covid-19.

“Venho de um país que vive numa bolha, de uma sociedade que desconhece o mundo em que habitamos.” Foto: vista do campo de refugiados de Um Rakuba, em Gedaref (Sudão). © Tomás Sopas Bandeira, cedida pelo autor.
O sofrimento não se mede por uma escala. Não há vidas mais e menos importantes. Mas não consigo negar o meu ensimesmamento diante de um mundo que me parece demasiado estranho. Venho de um país que vive numa bolha, de uma sociedade que desconhece o mundo em que habitamos.
As campanhas de vacinação vão avançando em alguns países. Há quem levante a voz por uma distribuição global das vacinas mais igualitária. Mas quantos de nós em Portugal sequer ouvimos falar desse milhão de vidas que de um dia para o outro perderam tudo o que tinham?
Mencionei este conflito, mas infelizmente não é o único a acontecer neste momento…
Não sei que lições esta pandemia trará à humanidade, quão transformados estaremos depois de tudo isto passar. Mas num período em que somos atingidos por um problema que se universalizou, apenas me pergunto: seremos capazes, individual e socialmente, de nos tornarmos menos indiferentes perante os problemas e o sofrimento que ocorrem distantes do nosso jardim?
Tomás Sopa Bandeira é médico
Nota: este texto decorre apenas das minhas observações e reflexões pessoais e em nenhum momento pretende representar a opinião ou perspetiva de qualquer organização mencionada.









