Precisamos de nos ouvir (39) – Helena Valentim: Entre o absurdo e a melhor viagem

| 23 Mar 21

Caminho, bosque

“Sei que sou uma privilegiada por ter a três minutos da porta um parque urbano…” Foto © Helena Topa Valentim

 

Lembro-me de, há um ano, nas vésperas de a nossa vida ficar virada do avesso com a pandemia, ter lido, entre a indignação (que sempre rende um desabafo nas redes sociais) e aquele esgar de quem ouve a piada do dia (ou vá lá, do antropoceno), que havia cientistas a discutir se a nossa seria a quinta ou sexta extinção que o planeta regista. E lia também, aí uns quinze dias antes, que, na Gronelândia, se montava uma campanha feroz para atrair turistas a ver os glaciares. Seria algo como Venha ver os glaciares antes que glup glup glup glup – imagino eu, uma vez que se queria eficaz e, para tal, nada como ser gráfico, onomatopaico mesmo. E tudo para que não restem dúvidas – de nenhum tipo, nem da urgência; aliás, muito menos da urgência. Precisamos de clarividência. E andámos tanto tempo para aqui chegar, entre veredas de obscurantismo e ignorância, afeitos à tirania do espaço e do tempo, coordenadas que não podíamos superar. Viajar, podemos agora viajar de toda as maneiras! Temos o mundo ao alcance de um braço estendido, para trás e para diante, e em todas a direções, numa rede complexa. Então, mas será a quinta ou sexta extinção? A minha curiosidade intelectual deixa-me numa suspensão difícil. Todavia, acredito que o saberei em tempo útil. Restam-me mais dúvidas quanto a se irei a tempo de ainda ver os glaciares… Maldita pandemia! Mas quem poderá agora ir ver os glaciares?

Caminho, bosque, rio

“Corre uma ribeira que ora me vai ensinando a urgência ora me dita a limpidez e o reflexo da luz…” Foto © Helena Topa Valentim.

Gostaria muito de poder dizer que isto é uma caricatura. É pelo menos gráfico, sim. Nada como ser gráfico, para que nos restem muitas dúvidas sobre a justeza da forma como estamos a viver. Há dois mil anos, também o Nazareno precisou de procurar as palavras desenhando com o dedo no chão. O que desenhava ele diante do absurdo?

Estamos num tempo assim, de ganhar balanço enquanto discernimos como agir, o que fazer a seguir. Entretanto, Entro. Conheço a minha casa. É mansa – um verso de Daniel Faria que venho repetindo como mantra. Sei que a condição de sobrevivência em que nos encontramos não pode, por isso, deixar de ser fecunda. As perdas de todo o tipo – as perdas de vidas logo à cabeça, mas também as perdas do acontecer que preenchia os nossos dias de pessoas nos espaços em que rasgávamos o ar comum – nada disso nos pode separar do Amor de Deus. Nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, escrevia Paulo aos Romanos.

Pensar com o chão – ocorre-me como expressão daquilo em que se tornou este tempo para mim. Sei que sou uma privilegiada por ter a três minutos da porta um parque urbano onde, por entre árvores que albergam muitos chilreios, corre uma ribeira que ora me vai ensinando a urgência ora me dita a limpidez e o reflexo da luz. Entre o mundo liso e acético da tecnologia que se impôs como nunca e os baldios que calcorreio de manhã cedo, o que destaco é a forma como se interpenetram, por um lado, as vozes e os rostos de tantos com que interajo nos ecrãs e, por outro, o som dos meus passos.

Tudo parece exacerbar-se. Há um carinho acrescido pelos familiares, pelos amigos, pelos alunos, pelos colegas. Todos me inspiram agora mais cuidado. Na distância em que nos sabemos, acompanhamo-nos como podemos e quantas vezes apenas adivinhamos uma travessia difícil. E há o ritmo da marcha. Caramba, o que de mais ancestral conhecemos e que só agora descubro verdadeiramente! Os passos feitos ao terreno, aquele desequilíbrio necessário para que se avance. Afinal, precisamos do desequilíbrio do corpo num diálogo permanente com o chão. É para isso que serve o corpo, para, sabendo-se em missão de viagem, desenhar no chão. A melhor viagem são os próprios pés – eis um verso de Vasco Gato que aprendo nestes dias de pandemia.

Pois. Vamos ter que redescobrir os pés no chão comum para sabermos o que é respirar juntos e tudo isto ser uma grande viagem com futuro para os que vierem depois de nós.

Entretanto, cá por casa, os abraços são mais demorados.

 

Helena Valentim é professora universitária

 

Jorge Sampaio, um laico cristão

Jorge Sampaio, um laico cristão novidade

Já tudo, ou quase tudo, foi dito e escrito sobre a figura do Jorge Sampaio. Assinalando a sua morte, foram, por muitos e de múltiplas formas, sublinhadas as diversas facetas definidoras da sua personalidade nos mais diversos aspetos. Permitam-me a ousadia de voltar a este tema, para sublinhar um aspeto que não vi, falha minha porventura, sublinhado como considero ser merecido.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Escutar todos, com horizontes para lá das “fronteiras” da Igreja

Inquérito sobre o Sínodo

Escutar todos, com horizontes para lá das “fronteiras” da Igreja novidade

O Papa observava, no encontro sinodal com a sua diocese de Roma, no último sábado, 18, que escutar não é inquirir nem recolher opiniões. Mas nada impede que se consultem os cristãos sobre as “caraterísticas e âmbito” que “entendem dever ter a escuta que as igrejas diocesanas são chamadas a realizar, desde 17 de outubro próximo até ao fim de março-abril de 2022. Era esse o terceiro ponto da consulta feita pelo 7Margens, cujas respostas damos hoje a conhecer.

Nova estratégia de combate ao antissemitismo será apresentada em outubro

União Europeia

Nova estratégia de combate ao antissemitismo será apresentada em outubro novidade

A União Europeia (UE) deverá divulgar, no próximo mês de outubro, uma “nova estratégia de combate ao antissemitismo e promoção da vida judaica”. A iniciativa surge na sequência da disseminação do racismo antissemita em inúmeros países da Europa, associada a teorias da conspiração que culpabilizam os judeus pela propagação da covid-19, avançou esta quarta-feira, 22, o Jewish News.

Livrai-nos do Astérix, Senhor!

Livrai-nos do Astérix, Senhor! novidade

A malfadada filosofia do politicamente correcto já vai no ponto de apedrejar a cultura e diabolizar a memória. A liberdade do saber e do saber com prazer está cada vez mais ameaçada. Algumas escolas católicas do Canadá retiraram cerca de cinco mil títulos do seu acervo por considerarem que continham matéria ofensiva para com os povos indígenas.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This