Precisamos de nos ouvir (5) – Lídia Jorge: Metamorfose

| 15 Fev 21

(e foto da página principal): Tollymore Forest Park, Irlanda do Norte. © Maria Marujo

 

“A Terra gloriosamente azul continuará a rodar pelo Espaço quer nós estejamos sobre ela, quer não estejamos.” Foto: Glendalough Lake, Wicklow Mountains, Irlanda. © Maria Marujo (foto da página principal: Tollymore Forest Park, Irlanda do Norte. © Maria Marujo)

 

Quando fiz treze anos passei a interessar-me pelos bichos da seda. Passava horas debruçada sobre uma caixa de cartão onde uma vintena de lagartas tosavam folhas de amoreira. Vi como cresciam, engordavam, iniciavam o casulo, como se escondiam no seu interior e passado algum tempo, de lá saíam borboletas esbranquiçadas que começavam a pôr dezenas de ovos. Assisti ao eclodir dos ovos e ao aparecimento de novas lagartas. E o ciclo recomeçou até que de novo a caixa se encheu de muitos mais casulos, tantos que levei a caixa para o Liceu para mostrar ao professor de Ciências Naturais. O professor aproximou-se da minha caixa e perguntou-me – Das várias formas por que passa esse animal, qual preferes? Eu respondi – Prefiro a lagarta. O professor de Ciências respondeu-me – Fazes mal, a melhor fase desta metamorfose são os vestidos de seda.

Passei muito tempo até deduzir o que me queria dizer aquele professor de Ciências Naturais. E hoje de novo penso nele e na sua resposta quando me perguntam o que acho que vai acontecer ao mundo e eu não sei responder porque o presente, por mais informação que exista sobre o momento que passa, tem sempre a forma de um casulo. Este nosso presente vergastado pela pandemia tem o condão de esclarecer o caminho do passado recente, mas dá poucas indicações sobre o que vai ser o futuro. Do passado, salta à vista que a exploração sobre os recursos da Terra, que iniciámos no século XVIII, acabou por ter dimensões assassinas no início do século XXI, e agora que o coronavírus veio desencadear a demonstração do erro, se uns acham que se deve parar o processo, outros, muitos, entendem que o retrocesso se torna impossível. Como se o desastre iminente fosse invencível, e estivesse escrito na natureza da nossa espécie como um destino.

Na verdade, quer queiramos quer não, o espectáculo desenrola-se diante dos nossos olhos como num filme. A Terra ensina que não se importa connosco. Desiluda-se quem julga que a Natureza tem uma alma caridosa para os homens só porque nos dá animais, chuva, fruta e legumes. Não é verdade. A Terra permaneceu insensível quando desapareceram os grandes répteis, e depois os grandes mamíferos, e assim será connosco. A Terra gloriosamente azul continuará a rodar pelo Espaço quer nós estejamos sobre ela, quer não estejamos. Nos últimos meses, temo-lo confirmado. Por entre os aviões parados nos aeroportos, os pássaros e os animais selvagens, como as lebres e as raposas, passeiam e fazem ninhos. As árvores crescem na direcção das casas e dos arranha-céus. Este é o paradoxo que temos por resolver – Nós somos filhos da Terra mas a Terra não é nossa mãe. Custa muito dizê-lo, mas nós somos bastardos da Terra.

Lamento que as crianças de hoje tenham de empunhar pelas ruas cartazes dizendo que não há planeta B. Sem o saberem, que desamparadas estão as crianças! Marte encontra-se demasiado longe, e os veículos de Elon Musk, não sabemos se lá chegarão. Nós, os da minha geração, estávamos aconchegados aqui, nos diferentes continentes da Terra, e a definição de Carl Sagan, de que somos pó das estrelas, não passava de uma metáfora. Agora ela passou a ser uma expressão da consciência. Às nossas crianças, pela primeira vez, dizem-lhes que são apenas pequenas partículas dos astros.

A minha pergunta é o que se pode dizer às crianças para que possam sentir-se sentadas sobre alguma coisa humana, segura e coerente. O que lhes podemos dizer quando as relações de trabalho se desmoronam, a cultura tecnológica incita loucos a dirigirem as nações? As democracias se deixam corromper por extremistas de instintos sanguinários, e nós nos rodeamos de montanhas de objectos inúteis, produzidos cada vez em maior quantidade, e cada vez por menos mãos humanas, através da destruição dos recursos naturais?

“Este é o paradoxo que temos por resolver – Nós somos filhos da Terra mas a Terra não é nossa mãe.” Foto: Dark Hedges, Bregagh Road, Irlanda do Norte. © Maria Marujo.

 

O que lhes podemos dizer? Se eles tiverem treze anos e possuírem uma caixa de cartão com casulos, podemos dizer-lhes que o objectivo é criar uma peça de seda tão ampla que cubra o novo mundo com a utopia de uma nova fraternidade, mais justa, mais pacífica, sem mentira e sem sangue, valorizando a partilha e a beleza. Esse será o  nosso vestido de seda, tecido pelas mãos daqueles que, no dia de hoje, têm treze anos.

 

Lídia Jorge é escritora; os seus últimos livros são Estuário (ficção, 2018), O Livro das Tréguas (poesia, 2019) e Em Todos os Sentidos (crónicas, 2020). Este texto foi publicado no site da France Culture no dia 11/12/ 2020 e é aqui reproduzido por cedência e com autorização da autora.

 

Escutar todos, com horizontes para lá das “fronteiras” da Igreja

Inquérito sobre o Sínodo

Escutar todos, com horizontes para lá das “fronteiras” da Igreja novidade

O Papa observava, no encontro sinodal com a sua diocese de Roma, no último sábado, 18, que escutar não é inquirir nem recolher opiniões. Mas nada impede que se consultem os cristãos sobre as “caraterísticas e âmbito” que “entendem dever ter a escuta que as igrejas diocesanas são chamadas a realizar, desde 17 de outubro próximo até ao fim de março-abril de 2022. Era esse o terceiro ponto da consulta feita pelo 7Margens, cujas respostas damos hoje a conhecer.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Nova estratégia de combate ao antissemitismo será apresentada em outubro

União Europeia

Nova estratégia de combate ao antissemitismo será apresentada em outubro novidade

A União Europeia (UE) deverá divulgar, no próximo mês de outubro, uma “nova estratégia de combate ao antissemitismo e promoção da vida judaica”. A iniciativa surge na sequência da disseminação do racismo antissemita em inúmeros países da Europa, associada a teorias da conspiração que culpabilizam os judeus pela propagação da covid-19, avançou esta quarta-feira, 22, o Jewish News.

Livrai-nos do Astérix, Senhor!

Livrai-nos do Astérix, Senhor! novidade

A malfadada filosofia do politicamente correcto já vai no ponto de apedrejar a cultura e diabolizar a memória. A liberdade do saber e do saber com prazer está cada vez mais ameaçada. Algumas escolas católicas do Canadá retiraram cerca de cinco mil títulos do seu acervo por considerarem que continham matéria ofensiva para com os povos indígenas.

A dança dos bispos continua em Leiria e Braga

João Lavrador deixa Açores para Viana

A dança dos bispos continua em Leiria e Braga novidade

Com a escolha de João Lavrador para a sede vacante de Viana fica agora Angra sem bispo. Mas Braga já está à espera de sucessor há dois anos, enquanto em Leiria se perspectiva a sucessão talvez até final do ano. Há bispos que querem sair de onde estão, outros não querem alguns para determinados sítios. “Com todas estas movimentações, é difícil acreditar que a nomeação de um bispo seja obra do Espírito Santo”, diz um padre.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This