“Podrán cortar todas las flores, pero no podrán detener la primavera.”
(Pablo Neruda)

“Vamos, ressuscitados, colher flores!” Foto: Jardim do Mosteiro do Lumiar das Monjas Dominicanas. Lisboa. © Lucy Wainewright.
Leio que o nosso primeiro-ministro avisou: “Uma coisa é certa: não haverá Páscoa para ninguém” e “este ano a Páscoa não será a Páscoa que nós conhecemos“.
E que Páscoa conhecemos nós?
Penso no que poderiam ser as respostas a esta pergunta. Para muitos evocaria reuniões familiares, pastelarias repletas, comidas da época, ovos coloridos, amêndoas de vários tipos, coelhinhos de chocolate… Muitas imagens seriam referentes à primavera, símbolo da vida que renasce, e que no nosso hemisfério coincide com a festa universal da Páscoa… Os cristãos refeririam o dia em que fazemos especial memória da ressurreição de Jesus, da passagem da Morte à Vida…
No ano litúrgico, a festa da Páscoa é antecedida pelo tempo da Quaresma, recordando os dias de Jesus no deserto; assim, no dia seguinte ao Carnaval, geralmente coincidindo entre nós com uma ante-primavera esfuziante em que a natureza explode de alegria, lembram-nos que somos cinza e, durante 40 dias, os altares ficam despidos de flores, não se cantam Aleluias, a música é reduzida, os paramentos são roxos e o ambiente mais austero.
Neste momento em que se inicia oficialmente na Igreja uma nova Quaresma, sinto que desde março de 2020 já a estamos a viver, num longo tempo de incertezas, de angústia, de medo, de sofrimento, de dúvidas, de noite, de solidão e de morte. Tenho dito a brincar: apetecia-me que o primeiro-ministro pudesse ordenar: “Este ano não há Quaresma para ninguém“.
Mas cada um tem as suas próprias Quaresmas, sem data marcada. E é nesses momentos que nos é pedido que tenhamos as atitudes que Jesus viveu e nos ensinou, de coragem, de confiança, de tentar mudar o que está mal, de manter a Fé e a Esperança num Deus que é totalmente Amor por todos e de o testemunhar.
Em 2020, celebrámos a Páscoa, já de modo diferente, a 12 de abril. E vão-nos acontecendo outros momentos de Páscoa sempre que a vida triunfa, que o bem vence o mal, nos muitos gestos de ajuda, de presença, de acompanhamento, de “dar a vida para que os outros tenham vida”.
Celebrações, rituais, comemorações, festas, são necessárias… Dão-nos ritmo e referências. São momentos de união e de sentimento de pertença a um grupo. Mas as grandes, autênticas celebrações, antes de serem exteriores acontecem no nosso interior, no nosso “coração”. Só precisamos de encontrar gestos e símbolos que nos ajudem a vivê-las.

“Podrán cortar todas las flores, pero no podrán detener la primavera.” Foto: Jardim do Mosteiro do Lumiar das Monjas Dominicanas, Lisboa. © Lucy Wainewright
Este ano, ainda que confinados, talvez em sofrimento, a Páscoa acontecerá, nenhuma autoridade o pode impedir e tentaremos responder ao Convite de Miguel Torga:
Vamos, ressuscitados, colher flores!
Flores de giesta e tojo, oiro sem preço…
Vamos àquele cabeço
Engrinaldar a esperança!
Temos a Primavera na lembrança;
Temos calor no corpo entorpecido;
Vamos! Depressa!
A vida recomeça!
A seiva acorda, nada está perdido!
(Diário XI)
Lucy Wainewright










