Precisamos de nos ouvir (13) – Teresa Vasconcelos: Ponto Pé de Flor e confinamento

| 23 Fev 21

Bordados, Flor, Teresa Vasconcelos

“Fazer ponto pé de flor relaxa-me, insere as minhas mãos num movimento rítmico, libertando o meu pensamento para outras coisas.” Foto © Teresa Vasconcelos

 

Bordar a ponto pé de flor é uma atividade muito repousante, pelo menos para mim. Sempre um ponto maior à frente e um ponto menor atrás, traçando linhas e curvas que trazem ritmo e consistência ao bordado. Tenho feito muito ponto pé de flor ao longo de um confinamento que dura há quase um ano. Fazer ponto pé de flor relaxa-me, insere as minhas mãos num movimento rítmico, libertando o meu pensamento para outras coisas, incluindo para uma oração mais concentrada. O ponto pé de flor é como a respiração que aprendi no yoga e que se destina a purificar o corpo e a libertar a mente. Uma expiração mais longa, uma inspiração mais curta. Sinto também que estou a criar beleza e a conversar com Deus através dessa beleza. Vou-me “bordando” em ação de graças apesar da destruição causada pela covid-19.

Ao fazer ponto pé de flor também me vou unindo às dores da humanidade em ferida, aos velhinhos que nos morrem nas mãos, a tantos que infringem as regras do confinamento esquecendo a nossa profunda interdependência e arriscando pôr em risco a saúde dos outros. Ao bordar envio energias de coragem para os que estão “na linha da frente”, desejando que persistam na sua postura ética e generosidade sem limites. Que grande exemplo nos estão a dar! Penso também nos familiares e amigos/as doentes na certeza de que Deus não quer o sofrimento, mas nos ajuda, sim, a ter força e fé mesmo quando sofremos.

Queria abordar então os dois movimentos no meu confinamento que se prendem com o bordado, mas também com a minha respiração. Uma inspiração menos longa, deixando que o ar renovado encha os meus pulmões, ao jeito do ponto mais amplo do bordado. Foi assim, logo a seguir à decisão governamental do primeiro confinamento: a experiência de um vazio regenerador, de solidão fecunda, quebrada apenas por uma breve saída para apanhar ar fresco no jardim público ao lado de casa e comprar os víveres essenciais para me alimentar.

Bordados, Flor, Teresa Vasconcelos

“Prevaleceu um movimento para o interior, um renovar espiritual.” Foto © Teresa Vasconcelos

 

Rezei muito, como disse acima; li muito, escrevi muito, ouvi boa música, estive em alguns concertos online e fui comunicando com as pessoas através das redes sociais. Mas o que prevaleceu foi um movimento para o interior, uma espécie de retiro de Quaresma e de Páscoa, um renovar espiritual enquanto ia ouvindo as notícias avassaladoras e repetidas à exaustão, muitas vezes alarmando desnecessariamente as pessoas e criando inúteis bolsas de inquietação e de medo.

Aí comecei a fazer ponto pé de flor e inundei amigos e familiares no Natal com breves e simples panos de tabuleiro, combinando tonalidades e linhas retas. Deparei-me com pessoas próximas a viverem obcecadas com os perigos do contacto com os outros, fechando-se em si mesmas numa doentia tática de sobrevivência. Já não suportava as mensagens cheias de “dicas” e sentenças sobre como proteger a própria saúde. Limitei-me a cumprir as recomendações da Direção-Geral de Saúde e mandava as outras mensagens diretamente para o caixote do lixo do meu computador ou do telemóvel. Ficava-me pelas que traziam beleza, alegria e sentido ao meu confinamento. Nesta fase perdi uma pessoa de família muito jovem que partiu de forma violenta e inesperada, o que deixou a minha família devastada e numa fragilidade imensa.

Uma expiração mais longa e um ponto mais curto simbolizam a segunda fase do meu confinamento. Estive a cuidar, num movimento para o exterior: acolhi dois familiares na minha casa, um sobrinho e o seu filho adolescente. A família tinha recentemente comprado a casa e foi forçada a fazer obras profundas as “meninas” ficaram nos sogros do meu sobrinho, os homens ficaram comigo.

Bordados, Flor, Teresa Vasconcelos

“Tornei-me uma hospedeira de uma paciência que não esperava.” Foto © Teresa Vasconcelos

 

Acolhi-os como diz S. Paulo aos Efésios (13.2): “Não vos esqueçais de praticar a hospitalidade; pois agindo assim, mesmo sem perceber, alguns acolheram anjos”: os meus “dois anjos” inesperados, os “refugiados” que me pediram abrigo, os “desarrumados” que viraram toda a minha vida do avesso. De pensar no sacrifício e simples solidariedade familiar, tornei-me uma “hospedeira” de uma qualidade e paciência que não esperava, habituada como estou a viver ao meu próprio ritmo e no meu espaço físico e espiritual.

Vi toda a minha casa devassada – são muito desarrumados e não pensam nesses detalhes quotidianos –, tive de cozinhar duas refeições por dia para duas pessoas sistematicamente esfomeadas (e de tratar das correspondentes compras no supermercado), pois um trabalhava e outro tinha aulas. Tive menos tempo para ler ou escrever, ou mesmo gozar o meu abençoado e geralmente produtivo sossego. Tudo teve de ser negociado com infinita paciência e a firmeza necessária para garantir colaboração nas tarefas domésticas. Mas vi a casa tomada por conversas inteligentes, por gestos delicados e reconhecidos, e muitas, muitas gargalhadas. Cultivei amplamente o meu sentido de humor e aprendi a estabelecer prioridades – nomeadamente com o jovem adolescente de 16 anos preguiçosos e metidos consigo, eivados de alguma impaciência face às exigências de uma tia-avó como eu. Partiram no dia em que escrevo esta crónica, impacientes por se apropriar da casa nova, despedindo-se e dizendo que foram felizes comigo. Experimento uma sensação de alívio e simultaneamente de vazio – afinal habitaram os meus dias ao longo de quase sete meses e encorajaram a uma desinstalação, mas já tenho saudades da sua presença bem invasiva.

Bordados, Flor, Teresa Vasconcelos

“Neste segundo movimento a oração foi escolha teimosa, insistida…” Foto © Teresa Vasconcelos

 

Entretanto, de panos de tabuleiro passei a bordar uma toalha, a partir de um lençol usado: as flores vão-se multiplicando em mandalas, ouso maior criatividade e confiança nos meus dotes… Cá fora assistimos ao prolongado momento da saída de Trump da Casa Branca e ao ponto maior do acolhimento de Joe Biden. Assisti preocupada à ascensão do Chega e à emergência de um certo país fragmentado, ferido e desconfiadamente intolerante e egoísta. A boa notícia de as vacinas estarem finalmente a ser aplicadas na nossa população é ensombrada pela constatação de que o perigo e desafio comum que estamos a viver não erradicou o chico-espertismo, a pequena corrupção que corrói e mata, a necessidade de satisfação imediata atropelando os outros.

Se a oração emergiu espontaneamente na primeira fase do confinamento, neste segundo movimento a oração foi escolha teimosa, insistida, repetida, mesmo que só conseguisse balbuciar um Pai Nosso antes de fechar os olhos e dormir. Mas continuei a dar graças a Deus pelo que tenho, pelos gestos solidários e belos de quem vê nesta crise uma possibilidade de maior humanização e crescimento ético e espiritual, pela esperança de que venham dias melhores, mas, sobretudo, no desejo de que esta crise nos converta por dentro e por fora – que seja uma real metanoia: que nos vinculemos ao essencial, que encontremos a alegria das pequenas coisas, que inventemos novos pontos para muitos bordados – convictos de que a beleza e a arte salvam, que a frugalidade se pode tornar uma forma solidária de ter qualidade de vida, que a criação em perigo por causa da nossa cegueira pode encher os nossos corações de generosidade criativa e de amplitude solidária, na certeza de que Deus está presente no horizonte de todas as coisas, especialmente no Bem, na Justiça e no Belo. Que, confinados, confiemos, ainda que não possamos ver. Confiemos na fraternidade e na “amizade social”, ao jeito do Papa Francisco.

 

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e participante do Movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com.

 

Precisamos de nos ouvir (24) – Ivo Neto: O que aprendemos na saúde mental com a pandemia?

Precisamos de nos ouvir (24) – Ivo Neto: O que aprendemos na saúde mental com a pandemia? novidade

A avó estava a dias de fazer 90 anos e a mesa para juntar a família reservada, não muito longe de casa para ela não se cansar. Tinha começado há dias no Público e a Rita estava animada com a viagem aos Açores marcada para Maio. Ela foi a primeira. Veio para casa a pensar que na quarta-feira regressava ao trabalho, ao ginásio e, no fundo, à vida normal. Mas não. Na semana seguinte foi a minha vez de fazer da casa, a redacção.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Crónica

Segunda leitura – O caso, a sentença e o debate “na Net”

Segunda leitura – O caso, a sentença e o debate “na Net” novidade

O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a condenação de um homem ao pagamento de mais de 60 mil euros à ex-companheira pelo trabalho doméstico que esta desenvolveu ao longo de quase 30 anos de união de facto. (Público, 24-2-2021)
No acórdão, datado de 14 de Janeiro (…), o STJ refere que o exercício da actividade doméstica exclusivamente ou essencialmente por um dos membros da união de facto, sem contrapartida, “resulta num verdadeiro empobrecimento deste e a correspectiva libertação do outro membro da realização dessas tarefas”.

Breves

Comissão Europeia reduz metas da luta contra a pobreza

A Comissão Europeia (CE) reduziu o objetivo europeu quanto ao número de cidadãos que pretende tirar da pobreza daqui até 2030: a meta são agora 15 milhões no lugar dos 20 milhões que figuravam na estratégia anterior [2010-2020]. O plano de ação relativo ao Pilar dos Direitos Sociais proposto pela CE inclui ainda a “drástica redução” do número de sem-abrigo na Europa, explicou, em entrevista à agência Lusa, publicada nesta sexta-feira, dia 5 de março, o comissário europeu do Emprego e Direitos Sociais, Nicolas Schmit.

Hino da JMJ Lisboa 2023 em língua gestual portuguesa

Há pressa no ar, o hino da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023, tem agora uma versão em língua gestual portuguesa, interpretada por Bruna Saraiva, escuteira do Agrupamento 714 (Albufeira) do Corpo Nacional de Escutas.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Espanha: Consignações do IRS entregam 300 milhões à Igreja Católica

Os contribuintes espanhóis entregaram 301,07 milhões de euros à Igreja Católica ao preencherem a seu favor a opção de doarem 0,7% do seu IRPF (equivalente espanhol ao IRS português). Este valor, relativo aos rendimentos de 2019, supera em 16,6 milhões o montante do ano anterior e constitui um novo máximo histórico.

Frequência dos seminários continua em queda em Espanha

A Conferência Episcopal Espanhola tornou público que a totalidade dos seminários existentes no país é frequentada neste ano letivo 2020-21 por 1893 alunos. O comunicado da Comissão para o Clero e os Seminários, divulgado nesta quarta-feira, 3 de março, especifica existirem 1066 jovens nos seminários maiores e 827 a estudar nos seminários menores (que correspondem ao ensino até ao 12º ano).

O 7MARGENS em entrevista na Rede Social, da TSF

António Marujo, diretor do 7MARGENS, foi o entrevistado do programa Rede Social, da TSF, que foi para o ar nesta terça-feira, dia 23, conduzido, como habitualmente, pelo jornalista Fernando Alves.

Parlamento palestino vai ter mais dois deputados cristãos

Sete das 132 cadeiras do Conselho Legislativo Palestino (Parlamento) estão reservadas para cidadãos palestinos de fé cristã, determina um decreto presidencial divulgado esta semana. O diploma altera a lei eleitoral recém-aprovada e acrescenta mais dois lugares aos anteriormente reservados a deputados cristãos.

Tribunal timorense inicia julgamento de ex-padre pedófilo

O ex-padre Richard Daschbach, de 84 anos, antigo membro dos missionários da Sociedade do Verbo Divino, começou a ser julgado segunda-feira, 22, em Timor-Leste, acusado de 14 crimes de abuso sexual de adolescentes com menos de 14 anos, de atividades ligadas a pornografia infantil e de violência doméstica.

Entre margens

Arte de rua: amor e brilho no olhar

Ouvi, pela vida fora, incontáveis vezes a velha história da coragem, a mítica frase “eu não era capaz”; é claro que não, sempre que o preconceito se sobrepõe ao amor, não é possível ser-se capaz. Coragem?? Coragem eu precisaria para passar pela vida sem realizar os meus desejos, nesse louco trapézio entre doses paralelas de coragem e cobardia.

Eternidade

A vida segue sempre e nós seguimos com ela, necessariamente, como se fôssemos empurrados pela passagem inexorável do tempo. Mas enquanto uns aceitam esse empurrão inexorável como um impulso para levantar voo – inclusive até lugares onde o tempo não domina –, outros deixam-se arrastar por ele até ao abismo. Porque quando o tempo não serve para moldar e edificar pedaços de eternidade, ele apenas dura e, portanto, a nada conduz (a não ser à morte), pois a sua natureza é durar, sem mais.

França: a Marianne de barrete frígio ficou traumatizada

Os políticos europeus em geral não sabem nada do fenómeno religioso. Pior. Fingem que sabem e não se rodeiam de quem os possa esclarecer. Entretanto, a França parece querer trilhar um caminho perigoso. Quando o governo coloca as leis republicanas ao mesmo nível da lei de Deus, faz da república uma deusa e do secularismo uma religião.

Cultura e artes

Canções para estes tempos de inquietação 

No ano em que Nick Cave se sentou sozinho ao piano, para nos trazer 22 orações muito pessoais, desde o londrino Alexandra Palace para todo o mundo, numa transmissão em streaming, o australiano dedicou-se também à escrita de 12 litanias a convite do compositor neoclássico belga Nicholas Lens.

Franz Jalics, in memoriam: a herança mais fecunda

Correr-se-ia o risco de passar despercebido o facto de ser perder um dos mais interessantes e significativos mestres da arte da meditação cristã do século XX, de que é sinal, por exemplo, o seu reconhecimento como mestre espiritual (a par de Charles de Foucauld) pela conhecida associação espanhola Amigos del Desierto, fundada por Pablo d’Ors.

A luta de Abel com o Caim dentro dele

Como escrever sobre um filme que nos parece importante, mas nem sequer foi daqueles que mais nos entusiasmou? E, no entanto, parece “obrigatório” escrever sobre ele, o último filme de Abel Ferrara, com o seu alter-ego e crístico Willem Dafoe: Sibéria.

As ignoradas Mães (Madres) do Deserto

As “Mães” do Deserto foram, de par com os Padres do Deserto, mulheres ascetas cristãs que habitavam os desertos da Palestina, Síria e Egito nos primeiros séculos da era cristã (III, IV e V). Viveram como eremitas tal como muitos padres do deserto e algumas formaram pequenas comunidades monásticas.

Sete Partidas

Vacinas: Criticar sem generalizar

Alguns colegas de coro começaram a falar dos espertinhos – como o político que se ofereceu (juntamente com os seus próximos) para tomar as vacinas que se iam estragar, argumentando que assim davam um bom exemplo aos renitentes. Cada pessoa tinha um caso para contar. E eu ouvia, divertida.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This