Precisamos de terapias neuroteológicas

| 20 Mar 2023

“A prática espiritual, como a leitura, podem levar a mudanças estruturais no nosso cérebro, por exemplo, aumentando as áreas associadas ao processamento das emoções.” Foto © Deepmind/Unsplash

 

 

Desde que saiu o relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais na Igreja Católica que a atenção das nossas comunidades e da sociedade civil se volta para todos os desenvolvimentos que resultam desse processo. Queremos acção como sinal do apoio incondicional a dar às vítimas e pelo sentido de haver alguma justiça. Mas nestas alturas, pouco se pensa nos abusadores e no conflito interior que terá levado a uma atitude contra a sua natureza vocacional. Se quisermos compreender o mal na sua raiz, importa reconhecer a ligação entre a neurologia e a espiritualidade.

A razão de nos darmos conta das experiências espirituais está no nosso cérebro. Sem um cérebro que processa as experiências que fazemos, é como pensar na Lua onde a ausência de seres conscientes isola aquele lugar de qualquer experiência espiritual consciente. A investigação tem mostrado que a meditação, oração ou postura de coração aberto ao que Deus nos diz leva a que a actividade cerebral se processe de maneira diferente.

Uma pessoa que abusa sexualmente de outra pessoa, sobretudo criança, ou usando o “poder” que a sua função lhe confere, tem um problema de saúde mento-espiritual com um défice elevado de empatia, a qualidade de nos colocarmos na pele do outro e sentir o que sente. Se as práticas espirituais estão ligadas ao processamento das emoções e regulação da atenção, estas pessoas parece que não as têm, o que no caso dos sacerdotes demonstra a necessidade de as comunidades estarem mais atentas à saúde espiritual dos seus pastores.

A prática espiritual, como a leitura, podem levar a mudanças estruturais no nosso cérebro, por exemplo, aumentando as áreas associadas ao processamento das emoções. Os estudos associaram as experiências espirituais ao aumento da actividade de neurotransmissores como a serotonina (sentimento de felicidade) e a dopamina (sentimento de realização), ambas envolvidas no efeito de bem-estar e devidas implicações no relacionamento com os outros.

Um estudo coordenado por Marc Potenza, por exemplo, notou numa redução da actividade do lobo parietal inferior esquerdo quando alguém se envolve numa actividade de teor espiritual, quando comparada a uma actividade neutra e relaxante. Os processos neurológicos nessa região do cérebro parecem associar-se à dissolução do eu e a uma maior conexão com o mundo ao seu redor.

O neurocientista Andrew Newberg, conhecido pelo trabalho que tem feito de aproximação das neurociências ao estudo da experiência espiritual, através de imagiologia do cérebro, sintetizou no seu livro The Metaphysical Mind os resultados das experiências espirituais na maior actividade no lobo frontal que processa a direcção da nossa atenção, a modulação do comportamento e a expressividade da linguagem. Quando as pessoas rezavam em línguas, como acontece nos grupos do Renovamento Carismático, reduzia-se a actividade nos centros do lobo frontal associados ao discurso e aumentava a actividade no tálamo, uma pequena estrutura cerebral que regula a informação sensorial que chega de outras partes do cérebro. Este trabalho que depois desenvolveu numa outra obra dedicada aos Princípios da Neuroteologia poderia fazer mais do que mostrar como a espiritualidade interage com o nosso cérebro. Dá-nos pistas sobre como desenvolver terapias neuroteológicas, sobretudo para os padres que vivem distúrbios desta natureza que os levam a praticar actos de sacrilégio contra menores, pela incapacidade de verem neles Jesus, a quem entregaram toda a sua vida.

Todos estamos cientes da subjectividade das experiências de teor espiritual, sendo difícil medir e analisar cientificamente, sem haver algum grau de incerteza. Há sempre o risco de algum reducionismo da espiritualidade à neurologia, quando ambas estão em planos distintos de vivência da realidade, sem se contraporem, mas cuja síntese oferece uma visão mais abrangente da experiência humana de Deus. Porém, a imagiologia da actividade cerebral é indiferente à verbalização que as pessoas fazem da sua experiência, pelo facto de a linguagem padecer de alguma subjectividade.

Sabemos, hoje, que as práticas espirituais afectam a saúde mental: reduzem o stress e ansiedade; melhoram a regulação emocional; aumentam o bem-estar subjectivo; melhoram a resiliência diante de situações difíceis e a qualidade do sono; e reduzem a possibilidade de depressão. Dado tudo isto, parece-me urgente explorar a natureza das patologias neuroteológicas se quisermos enfrentar o mal dos abusos pela raiz. Talvez a redenção comece pelo maior cuidado pela saúde mento-espiritual dos nossos sacerdotes.

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra. Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos aqui. Contacto: miguel@miguelpanao.com

 

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