Tolentino recebeu Prémio Pessoa

“Precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança”

| 20 Jun 2024

Cardeal Tolentino Mendonça. Foto Vatican Media

Em Lisboa, o cardeal Tolentino Mendonça defendeu a importância de reabilitar o lugar da comunidade. Foto © Vatican Media

Na cerimónia em que recebeu o Prémio Pessoa 2023 – que decorreu esta quarta-feira, 19 de junho, na Culturgest, em Lisboa – o cardeal Tolentino Mendonça falou daquela que considera ser “talvez a construção mais extraordinária do nosso tempo”: a “ampliação da esperança de vida”. Mas deixou um alerta: “não basta alongar a esperança de vida, precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança e a deseje fraternamente repartida, acessível a todos, protagonizada por todos”.

Num discurso em que sobressaiu o seu otimismo, Tolentino disse estar “convencido” de que “tal acontecerá na medida em que ganharmos consciência do papel crucial que representa a comunidade, cujo lugar deve ser reabilitado. Comunidade que, por sua vez, é feita de uma constelação de comunidades, saudavelmente diversas, mas com competências para estabelecer interseções justas, diálogos abertos e colaborativos, possibilidades e práticas de reconhecimento e de encontro”, adiantou.

Mas “se há encruzilhada da história em que se pressente uma radical metamorfose das formas de habitar o mundo, a desestabilização do que até aqui conhecemos e a emergência de um inédito sistema societário é esta onde estamos”, reconheceu o prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação do Vaticano. E se as nossas sociedades irão tornar-se “diversamente inteligentes”, então “que nessa viragem elas dependam das convicções e dos sonhos de comunidades sensatas e não de pilotamentos automáticos”, apelou.

 

Apoiar a cultura, para que esta possa aproximar as pessoas

Referindo-se às possibilidades abertas pela Inteligência Artificial, Tolentino lembrou que esta, “para estar realmente ao serviço das pessoas, deve ser associada a uma inteligência que não é a das máquinas, mas é a multímoda inteligência humana que torna, por exemplo, possível em nós o espanto e a poesia; a gratidão e o perdão; a alegria, a compaixão ou o amor”.

Citando Álvaro de Campos e Alberto Caeiro – heterónimos de Fernando Pessoa – e ainda José Mattoso – o primeiro Prémio Pessoa, em 1987 – o cardeal madeirense destacou a importância do modo como nos relacionamos uns com os outros. “Como fazemos circular entre nós a curiosidade, o conhecimento e o afeto? Como nos reconhecemos? Como vencemos ou agravamos juntos as barreiras de incomunicabilidade, indiferença ou descarte? Saberemos transformar não em embaraço, mas em oportunidade todas as nossas diferenças? Saberemos consolidar alianças suficientemente fortes para se sobrepor ao deslaçamento ou à estéril polarização?”, questionou.

Uma das chaves para responder a estas perguntas tinha sido dada ainda antes da cerimónia. Em declarações aos jornalistas, José Tolentino Mendonça sublinhara a importância de “tudo aquilo que seja possível fazer para estimular o papel da criação na nossa sociedade”, de “tudo o que puder ser apoio aos artistas e ao mundo da cultura”. “Penso que isso é muito importante para que a cultura não seja um parente pobre, mas seja de facto aquilo que é: um fator extraordinário de desenvolvimento e aproximação entre as pessoas”, afirmou.

 

Condecorado por Marcelo

O vencedor do Prémio Pessoa 2023 havia sido anunciado em dezembro do ano passado. Esta é a segunda vez que o galardão é atribuído a uma figura da Igreja em Portugal (o primeiro a recebê-lo foi o cardeal patriarca emérito, Manuel Clemente). Tem o valor de 60 mil euros e Tolentino Mendonça decidiu entregá-lo a uma instituição de solidariedade social que trabalha com adolescentes e jovens.

Presente na entrega do prémio, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou o cardeal com as insígnias da Grã-Cruz da Ordem de Sant’lago da Espada. Tolentino Mendonça já tinha sido condecorado, em 2001, com o grau de comendador da Ordem do Infante D. Henrique e, em 2015, com o grau de comendador da Ordem de Santiago d`Espada, que se destina a distinguir o mérito literário, científico e artístico. “Merece obviamente ser grã-cruz, e não é por excesso, é por defeito, em nome de Portugal”, defendeu Marcelo Rebelo de Sousa.

Durante o seu discurso, o chefe de Estado reconheceu que José Tolentino Mendonça é “uma das figuras mais necessárias” à sociedade. “O nosso premiado, não sendo um político eleito ou uma estrela mediática, atingiu um outro patamar de notoriedade e relevância”, referiu. “É um homem de diálogo”, que contribui para “equilibrar as tensões que marcam a experiência contemporânea”, e que “sabe muitíssimo bem que os prémios, mais que uma honra, são um gesto”.

 

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