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Alguns dos presépios à venda na loja do CIDAC em Lisboa 2. Foto Direitos reservados
Na loja do CIDAC, há "presépios com uma dimensão intercultural muito interessante". Foto: Direitos reservados

Comércio justo

Prendas de Natal que respeitam a dignidade de quem as produziu

| 28/11/2025

Ainda antes de se entrar percebe-se que esta loja é diferente. Espreita-se pela vitrina e o que se vê são panos, brinquedos, tecidos e produtos alimentares que não se encontram noutras lojas. É um mundo de cores que vêm de todo o mundo. “Comprar na loja do comércio justo do CIDAC é ter a certeza de que quem trabalhou, quem produziu o bem artesanal ou alimentar, recebe um preço digno pelo fruto do seu trabalho”, afirma Stéphane Laurent, da direção do CIDAC

O destaque vai, por esta época, para os presépios de terracota, cerâmica, madeira, ou bambu vindos do Perú, do Oeste africano, ou criados pelos povos indígenas da Amazónia. “São presépios com uma dimensão intercultural muito interessante, é a cena da Natividade reinterpretada por artesãos de culturas não cristãs”.

Stéphane não o diz, mas os seus preferidos são os presépios realizados na cooperativa Ichnay Wari. Os Wari são um povo pré-inca do sul do Peru (zona de Ayacucho, 500Km a sudeste de Lima), que migraram para perto da capital, fugindo aos confrontos entre as forças da guerrilha do Sandero Luminoso e o exército peruano. Na sua nova localização construíram uma aldeia em que retomaram a sua tradicional arte de olaria que ainda é, hoje, a sua fonte principal de rendimento.

O destaque vai, por esta época, para os presépios de terracota, cerâmica, madeira, ou bambu vindos do Perú, do Oeste africano, ou criados pelos povos indígenas da Amazónia. Foto: Direitos reservados

Foi há cinco anos, acompanhando estudantes de uma escola secundária de Benfica, que Stéphane conheceu os cooperantes da Ichnay Wari. “Foi uma experiência humana muito profunda” que deu origem a uma relação de proximidade muito forte, enriquecida com uma posterior visita de representantes da cooperativa a Portugal para poderem “trocar ideias com artesãos portugueses e conversar com os consumidores habituais da loja”.

Contudo, nem todos os produtos à venda resultam de relações de proximidade tão fortes. Alguns chegam a Portugal via organizações solidárias e cooperativas estrangeiras como a Artisans du Monde, mas os panos da Guiné-Bissau, tecidos pelos artesãos da etnia Papel, são importados diretamente, resultado de relações de mais de uma dezena de anos. O mesmo se diga dos vindos de Timor-Leste. Ou de todos os bens produzidos em Portugal. “Há cerca de 15 anos, o comércio justo evoluiu para tomar consciência de que a exclusão tocava também a pequena produção artesanal dos países do Norte” e, desde então, passou a aplicar as suas regras e modos de operar à comercialização dos produtos criados por aqueles artesãos.

Alguns produtos chegam a Portugal via organizações solidárias e cooperativas estrangeiras como a Artisans du Monde. Foto: Direitos reservados

É assim que na loja do CIDAC se podem encontrar as roupas criadas pelas mulheres da cooperativa As Capuchinhas da serra de Montemuro, ou os camiões e os quebra-cabeças, vindos das mãos das mulheres da aldeia da Torre, perto de Loulé, no Algarve, ou ainda a famosas trufas de figo da Quinta da Fornalha, uma quinta tradicional de agricultura biológica, em Castro Marim.

 

O que é o comércio justo?

Stéphane Laurent chegou ao CIDAC, vindo da Universidade de Bordéus para um estágio de meses. Foi há 24 anos, ficou por cá e não faz tenção de regressar a França. Agora é membro da direção do CIDAC, o Centro de Informação e Documentação Anti-Colonial criado em 1974 que hoje conserva o acrónimo, mas com outro significado: Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral. Se conservou a sigla, conservou também o seu carácter de associação sem fins lucrativos.

Mas o que é o comércio justo? O conceito e a prática têm os seus primórdios nos Estados Unidos da América, nos anos 40 do século passado, com a união de consumidores para importarem produtos dos artesãos de Porto Rico. Uma década depois, o exemplo é retomado pelo Reino Unido com a criação da Oxfam e reforçado pela palavra de ordem saída da Conferência dos Países Não-Alinhados (1964): “Comércio sim, ajuda não!”.

De modo simples, dito pelo próprio Stéphane: “Cada euro gasto aqui na loja alimenta uma cadeia comercial eticamente estruturada que paga a cada artesão, a cada agricultor, o que cada produto vale. Não se trata de enviar donativos, mas sim de pagar o produto pelo que ele realmente vale. Fazemos parte da economia solidária e por isso não visamos a acumulação ou a remuneração de sócios ou proprietários, visamos a dignidade humana. Na Europa, estamos habituados a preços muito baixos à custa da exploração humana pois não remuneram dignamente o trabalho. Quem compra no comércio justo sabe quem é a pessoa que produziu o bem comprado e tem a garantia de que o preço pago é em boa parte entregue a esse produtor.”

Chocolates à venda na loja do CIDAC em Lisboa. Foto Direitos reservados

O chocolate fairafric é diferente: é feito no Gana, com o cacau local. Foto: Direitos reservados

E além do comprar pelo valor justo e digno, a relação comercial não fica à mercê da oportunidade ou das modas. “Quando iniciamos uma ligação com um produtor, assumimos uma relação de longo prazo, um compromisso duradouro entre parceiros que estão no mesmo barco num mundo económico que é extremamente violento”.

São essas relações comerciais e humanas estáveis e o facto de boa parte do preço de venda ser entregue ao produtor que permitem realidades tão novas como o chocolate fairafric. É muito raro poder-se comprar chocolate feito no país produtor de cacau. Habitualmente o cacau é exportado para os países do Norte que confecionam o chocolate. Este fairafric é diferente: é feito no Gana, com o cacau local. E é um excelente chocolate!

A loja do CIDAC na Rua Tomás Ribeiro, n.º 9  1050-225 LISBOA está aberta das 10h30 às 19h00, de segunda-feira a sábado (ao sábado fecha às 14h00, mas em Dezembro vai ficar aberta até às 19h00). Pode também ser contactada através do mail: loja@cidac.pt

 

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