Programa 7MARGENS na Antena1

Presidente da Cáritas pede revisão das prestações sociais

| 22 Mar 2024

É preciso rever as prestações sociais, de modo a torná-las mais eficazes no combate à pobreza, e ter uma estratégia de apoio aos imigrantes que cada vez em maior número enfrentam situações de grande vulnerabilidade. Ideias da presidente da Cáritas Portuguesa, Rita Valadas, em entrevista ao 7MARGENS na Antena 1.

Cáritas, Rita Valadas, Pobreza, Antena 1

Rita Valadas: “Ninguém pensava que uma pessoa que trabalha era pobre.” Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

Há em Portugal 500 mil pessoas em situação de pobreza severa, recorda a presidente da Cáritas Portuguesa, para defender a necessidade de rever as prestações sociais existentes, de modo a dar mais eficácia ao combate à pobreza. Em entrevista ao programa 7MARGENS, da Antena 1,

Rita Valadas dá o exemplo de duas delas: o Rendimento Social de Inserção (RSI), “criado com o objectivo de fazer inserção”, mas que, com a evolução dos problemas sociais, passou a ser essencialmente uma forma de dar dinheiro para minorar a pobreza dos seus beneficiários; e o abono de família, que era universal e deixou de o ser: “Passou a ser mais um recurso para afastar as pessoas da pobreza.”

Qualquer prestação social era indispensável no momento em que foi criada, diz a presidente da Cáritas. Mas agora é importante olhar para a razão que levou à sua criação e ver se ainda se justifica tal qual. “Se olharmos para estas prestações e as utilizarmos de forma conjunta conforme o problema, talvez seja mais fácil” combater o fenómeno da pobreza, diz a responsável da instituição católica. “As estratégias são muito importantes para saber qual é o caminho que nós devemos seguir; mas a leitura da pobreza e a resolução dos problemas da pobreza têm de ser feitos na proximidade”, acrescenta ainda. E essa revisão deve ser feita tendo em conta também as diferentes realidades do país, “de acordo com os tesouros dos territórios e as condições das pessoas”.

Na entrevista, emitida depois da meia-noite desta sexta-feira, 22, Rita Valadas considera que a chave da solução do problema da pobreza é o rendimento: “Ninguém pensava que uma pessoa que trabalha era pobre. Aliás, até era um contrassenso dizer uma coisa dessas; se uma pessoa que trabalha é pobre, é porque não sabe gerir os seus recursos, mas é evidente que não é isso.” Esta situação, acrescenta, “é tanto mais grave que, enquanto as pessoas achavam que trabalhar afastava a família da pobreza tinham um argumento para procurar trabalho; o desalento que dá trabalhar e não conseguir sustentar a família e não tirá-la da pobreza começa a criar outros problemas de desesperança.”

Na entrevista, que passa na íntegra depois da meia-noite desta sexta-feira ma Antena 1, Rita Valadas fala também do grande aumento de pessoas, sobretudo imigrantes, que acorrem aos serviços das 20 Cáritas diocesanas de todo o país a pedir ajuda: “Até há muito pouco tempo era uma realidade das grandes cidades, neste momento está espalhada por todo o território e chegam à Cáritas local; há mais pessoas a chegar e chegam mais próximo. E isto fez soar um alarme”, afirma.

 

Uma “população cada vez mais vulnerável”

 

A presidente da Cáritas no final da entrevista: os imigrantes estão “em situação de emergência” e em “grande aflição”. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

“Esta população chega cada vez mais vulnerável”, diz, e “a Cáritas não tem recursos para essa missão, está a chegar ao fim da sua capacidade”, avisa, repetindo o que foi dito em comunicado, domingo passado, na sequência da reunião do Conselho Geral da instituição católica. “Nuns territórios chegam essencialmente brasileiros, mas estão a chegar do Paquistão, da Índia, do Nepal, do Bangladesh, dos países de língua oficial portuguesa”, descreve. “Estamos a ser confrontados com uma realidade muito complexa, muito ainda por caracterizar e com indefinição total dos recursos existentes para esta situação.”

As pessoas acorem à Cáritas “em situação de emergência” e em “grande aflição” e recorrem à Cáritas “pelo mais básico dos básicos: não têm que comer, vêm de países quentes e não têm roupa; quando falamos de emergência é todo o contínuo de necessidades que as pessoas trazem”. As realidades de origem são diferenciadas: há pessoas “que vêm já especificamente na busca de um projecto de trabalho – por exemplo, as que vêm trabalhar na agricultura; “mas cada vez mais chegam ainda com um projecto indefinido, o que torna ainda mais difícil o primeiro passo”.

Para tentar dar resposta imediata a esta situação, foi constituída “uma comunidade prática para este tema”, que inclui 13 Cáritas diocesanas e que vai “tentar fazer uma caracterização das necessidades e dos recursos para ter uma leitura mais fina das pessoas” que se confrontam com essas dificuldades.

Rita Valadas espera a constituição do próximo Governo para partilhar “de forma construtiva aquilo” que neste momento aflige a instituição, mas insiste na definição de uma estratégia clara para estas áreas: “Aquilo que mais me preocupa é a definição de uma estratégia e dos recursos para essa estratégia.”, afirma. “Há muitas instituições a trabalhar e preocupadas com este tema – não é só a Cáritas; e se não houver orientações alinhadas, o que certamente vai acontecer é que vamos estar todos a gastar recursos que podíamos juntar em fez de dispersar.”

 

Jornalismo com dignidade e um fim de tarde “apetecível”

 

Banner promocional da greve geral de jornalistas, 14 de março de 2024

Cartaz da greve de jornalistas, do passado dia 14: “A comunicação social tem sido importantíssima para a forma como a população portuguesa olha para as situações de vulnerabilidade”, diz Rita Valadas. Direitos reservados.

 

Nos minutos finais do programa, Rita Valadas comentou uma das notícias dos últimos dias do 7MARGENS, tendo escolhido a que falava da adesão à greve dos jornalistas.

“A intervenção junto das pessoas mais vulneráveis carece de uma perspectiva positiva, de jornalismo positivo, preocupado e apostado em também fazer parte da diferença”, afirmou Rita Valadas, justificando a escolha da notícia. “Sinto-me muito sortuda com isso, porque considero que a comunicação social que nos dá colo, pergunta e acompanha tem sido importantíssima para a forma como a população portuguesa olha para as situações de vulnerabilidade e se faz presente.”

Por isso, a presidente da Cáritas considera que não pode “deixar de dizer que importa também olhar para a dignidade” da profissão de jornalista. E cita uma frase ouvida no dia da greve na Rádio Renascença: “Se um jornalista incomoda tanta gente, nenhum jornalista incomoda muito mais.” Concluindo: “Eu acredito mesmo nisso e acho que é muito importante que os próprios jornalistas assumam a importância que têm na resolução dos problemas e neste caso na resolução dos problemas sociais.”

Como sugestão, Rita Valadas referiu a iniciativa Chá com Livros, da responsabilidade da Junta de Freguesia do Parque das Nações, em Lisboa, e que se realiza no Esplanando, um café daquela zona da capital, em regra uma vez por mês (excepto em Agosto)

Trata-se de um “espaço de tertúlia em que um autor fala sobre a sua obra, a sua vida e as suas esperanças” e que constitui “um óptimo fim de dia”. A última sessão decorreu na quinta-feira, 21 de Março, a propósito do Dia Mundial da Poesia, com a poeta Ana Marques Gastão. “Tudo ali é apetecível.”

O programa pode ser ouvido na íntegra em https://www.rtp.pt/play/p12257/e753535/7-margens

 

Catarina Pazes: “Sem cuidados paliativos, não há futuro para o SNS”

Entrevista à presidente da Associação Portuguesa

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“Se não prepararmos melhor o nosso Serviço Nacional de Saúde do ponto de vista de cuidados paliativos, não há maneira de ter futuro no SNS”, pois estaremos a gastar “muitos recursos” sem “tratar bem os doentes”. Quem é o diz é Catarina Pazes, presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP) que alerta ainda para a necessidade de formação de todos os profissionais de saúde nesta área e para a importância de haver mais cuidados de saúde pediátricos.

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Bahá’ís plantam árvores em Lisboa, para que a liberdade religiosa floresça em todo o mundo

Em memória das "dez mulheres de Shiraz"

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Quem passar pela pequena zona ajardinada junto ao Centro Nacional Bahá’í, na freguesia lisboeta dos Olivais, vai encontrar dez árvores novas. São jacarandás e ciprestes, mas cada um deles tem nome de mulher e uma missão concreta: mostrar – tal como fizeram as mulheres que lhes deram nome – que a liberdade religiosa é um direito fundamental. Trata-se de uma iniciativa da Junta de Freguesia local, em parceria com a Comunidade Bahá’í, para homenagear as “dez mulheres de Shiraz”, executadas há 40 anos “por se recusarem a renunciar a uma fé que promove os princípios da igualdade de género, unidade, justiça e veracidade”.

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