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Presidente da Conferência Episcopal pede novo paradigma que valorize papel das mulheres na Igreja

| 14/10/2020

Duas peregrinas em Fátima, neste 13 de Outubro: o presidente da CEP destacou a exigência da presença de homens e mulheres “também nos lugares onde se tomam decisões” que a todos dizem respeito. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

É preciso um novo “paradigma” na Igreja que valorize o papel das mulheres em lugares de decisão, afirmou nesta terça-feira, em Fátima, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e bispo de Setúbal, José Ornelas, na homilia da missa eu que encerrou a última grande peregrinação do ano.

“Acentuar o feminino e o materno não é apenas buscar um equilíbrio de poderes ou de influências na organização funcional da Igreja”, afirmou o bispo. “Trata-se é de mudar de paradigma, de mudar o modo de pensar: o mundo não é de quem mais manda, é de quem mais constrói a vida. A liderança eclesial não está fundada sobre a ideia de poder, mas na vida, no cuidado e no serviço.”

Diante dos cerca de seis mil peregrinos que cabiam no recinto de oração do santuário, tendo em conta as limitações de distanciamento físico impostas pela pandemia, José Ornelas afirmou que valorizar “o papel da mulher contribui decisivamente para a valorização dos ministérios na Igreja, hoje demasiado concentrados nos ministérios ordenados”.

Referindo-se a recentes afirmações do Papa Francisco, acrescentou, como exemplos: “A primazia da vida, do serviço, do cuidado do mundo e da humanidade exige a presença de homens e mulheres, na diversidade dos dons de cada um para o serviço dos irmãos e para a missão de construir um mundo mais justo, mais fraterno, mais inclusivo, também nos lugares onde se tomam decisões para todos.”

Na sua intenção de oração para este mês de Outubro, divulgada no início do mês, o Papa Francisco afirmara: “Ninguém foi baptizado como padre ou bispo. Todos nós fomos baptizados como leigos” e “leigos e leigas são protagonistas da Igreja”. E, em especial, “deve-se sublinhar o feminino, pois as mulheres costumam ser deixadas de lado”, acrescentara o Papa, para concluir: “Devemos promover a integração das mulheres em lugares onde são tomadas decisões importantes.”

 

Mulheres são importantes na construção da Igreja

Referindo-se a alguns textos bíblicos – ele próprio é biblista – o presidente da CEP, eleito para o cargo em Junho, acrescentou que a “presença feminina e materna de Maria, a que se junta, desde a missão de Jesus e desde o início da Igreja, um grupo de outras mulheres, lança uma luz de entendimento sobre a identidade e a missão da Igreja”. E nessa identidade e missão as mulheres não são “um facto secundário”, de “decoração”, perante “o protagonismo masculino”, mas antes “um importante e determinante elemento na construção da Igreja”.

Com a mesma referência bíblica, D. José Ornelas acrescentou que, juntamente com o ministério dos apóstolos – aos quais sucedem os bispos –, é necessário valorizar os “sinais femininos” e que é preciso sentar à mesa, “com toda a dignidade”, todos os filhos e todas as filhas de Deus.

Na homilia, o bispo de Setúbal acrescentou que “Deus não se encontra num monumento de pedra, mas no coração e na vida” dos que formam a Igreja. Espaços como santuários e igrejas – “lugares de relação e de comunhão” – mostram que Deus “não está longe de nós, não se alheia dos nossos percursos, dores, lutas e esperanças”. Por isso é importante que paróquias e comunidades, dioceses “e a Igreja disseminada pelo mundo sejam verdadeiras casas de Deus no meio da sociedade, pontos de referência e de acolhimento de quem busca apoio, sentido de vida e esperança”.

Insistindo numa ideia que já afirmara na véspera à noite, na missa depois da procissão das velas, o bispo condenou os movimentos populistas que “manipulam a nostalgia do passado, o medo real ou imaginário, o perigo do estrangeiro e do que pensa diferente, a ganância de possuir e dominar e até modelos religiosos para os seus interesses”. Esses movimentos “constroem muros, exacerbam nacionalismos egoístas e conflituosos, que impedem que se chegue a consensos mundiais para encontrar soluções para os problemas de todos, como a pobreza, a injustiça, a guerra e a depredação do planeta, que coloca em perigo o futuro, como indica o Papa Francisco na sua última encíclica Todos Irmãos.”

A pandemia, concluiu, “veio tornar mais visíveis estes problemas e também mostrar a necessidade de encontrar caminhos e soluções para todos”. E acrescentou, referindo-se de novo a afirmações do Papa: “A dimensão dos problemas com que nos defrontamos exige soluções que contem com a participação de todos e cujos benefícios possam ser disfrutados também por todos. Estamos no mesmo barco é só é possível salvar-se se todos colaborarmos para que todos se salvem.”

 

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