Vem dos Estados Unidos, mas esteve 20 anos no Perú como missionário e conhece bem muitos bispos e cardeais da América Latina – e assume na sua biografia esse lado latino-americano, com a dupla nacionalidade, tornando-se assim o primeiro Papa dos EUA, mas também o primeiro peruano. Conhece bem muitos bispos e cardeais da América Latina, é da Ordem dos Agostinianos, e na sua primeira alocução pública insistiu várias vezes no tema da paz para todo o mundo. O até agora cardeal Robert Prevost, prefeito do Dicastério dos Bispos, é o novo Papa, tendo adoptado o nome de Leão – numa clara homenagem e referência a Leão XIII, fundador do moderno pensamento social católico, pois foi ele que escreveu, em 15 de Maio de 1891, a encíclica Rerum Novarum, sobre a condição dos operários.
“A paz esteja conosco! Caríssimos irmãos e irmãs, esta é a primeira saudação de Jesus Cristo ressuscitado, o bom pastor que deu a vida pelas suas ovelhas. Desejo que esta saudação de paz chegue ao coração das vossas famílias onde quer que estejam, a todos os povos, a toda a terra. A paz esteja convosco!”, começou por dizer o novo Papa Leão na sua saudação à multidão presente na praça, alargada a todas as pessoas que seguiam o acontecimento “através da rádio, da televisão e de outras tecnologias de comunicação”. “Esta é a paz de Cristo ressuscitado. Uma paz desarmada e desarmante que vem de Deus, um Deus que nos ama a todos de forma incondicional.”
Os 133 cardeais reunidos em conclave desde quarta-feira à tarde não precisaram mais do que 24 horas e quatro votações para elegerem o sucessor de Francisco, 267.º na lista de papas da Igreja Católica – mesmo se nos primeiros séculos ainda não se falava desse título. Foi uma das mais rápidas escolhas dos últimos tempos. No século XX, apenas Pio XII (1939) foi eleito mais rapidamente (após três votações), tendo João Paulo I (1978) sido eleito na quarta votação. Em 2005, Bento XVI também foi eleito à quarta ronda de votos, enquanto Francisco (2013) foi à quinta e João Paulo II (1978) à oitava.
Eram 18h08 em Roma, menos uma hora em Lisboa, e o fumo surgiu com intensidade na chaminé instalada na Capela Sistina, ajudado pelo vento. O clima de festa que já se vivia na praça de São Pedro passou da expectativa para um imenso júbilo. O fumo saiu branco, quando já poucos estariam à espera que houvesse resultado positivo do quarto escrutínio do conclave – havia passado mais de meia hora sobre a hora previsível para que a chaminé desse sinal de vida. De repente, além dos milhares que já enchiam a praça e a via della Conciliazione, outros milhares correram para não deixar um centímetro livre à espera do anúncio sobre quem seria o eleito.
E nos primeiros momentos houve muita surpresa: “Quem? Americano?” [ver perfil biográfico no 7MARGENS]. A adesão, no entanto, foi imediata e os aplausos e aclamações confirmaram-no: a figura do Papa é, no mundo católico, a referência da unidade, para lá de todas as divergências e diferenças de opinião. Com Prevost, o primeiro norte-americano a ser eleito para o lugar (depois do primeiro latino-americano), isso verificou-se de novo e o choro de muitas pessoas pelo desaparecimento de Francisco transformou-se rapidamente, 17 dias depois da sua morte, no júbilo pela notícia da escolha de um sucessor.

A emoção do Papa Leão XIV visível num dos ecrãs gigantes instalados no Vaticano. Foto © António Marujo/7MARGENS
“Conheço o Papa Leão XIV como um homem amável, aberto, humilde, modesto, decidido, trabalhador, directo, digno de confiança e terra-a-terra. Uma escolha brilhante. Que Deus o abençoe”, reagiu, na rede social X, o padre jesuíta dos EUA, James Martin, que acompanha muitas pessoas e grupos LGBT.
Na saudação inicial que dirigiu à multidão, visivelmente emocionado em vários momentos, o tema da paz foi uma insistência importante do Papa Leão. Isso não é de somenos quando ainda esta semana o ressurgimento do conflito entre a Índia e o Paquistão, mas também quando se agrava a tragédia do genocídio em Gaza ou as mortes provocadas pela Rússia na Ucrânia, além dos muitos outros conflitos em África e na Ásia. O papel dos Estados Unidos enquanto superpotência pode ser fulcral em vários desses conflitos. Enquanto norte-americano, talvez Prevost/Leão XIV possa ter mais capacidade de influência junto de uma Administração dos EUA apostada num nacionalismo exclusivista, no sentido de voltar a uma lógica de trabalho pela paz e democracia.
A escolha do nome traz também associada uma ideia: Leão XIII percebeu que, na segunda metade do século XIX, não se vivia apenas um conjunto de mudanças sociais, mas antes uma mudança de época. “A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social”, escrevia Leão XIII no início da Rerum Novarum, justificando o seu interesse por abordar a questão social, enquanto Papa.
Uma mudança de época é o que vivemos também hoje, dizia muitas vezes o Papa Francisco. Nesse sentido, Leão XIV pode ter intuído também, na escolha do seu nome, que ele traduz a possibilidade de enfrentar a mudança de época que hoje se vive: o poder da tecnologia, a pós-verdade, o disseminar dos populismos e da xenofobia, os conflitos e as guerras, as migrações, o crescimento das desigualdades…

Rostos de alegria nos ecrãs à volta do Vaticano, depois de anunciado o resultado da eleição do conclave. Foto © António Marujo/7MARGENS
Enquanto descendente de migrantes – franco-italianos pelo lado do pai, espanhóis, pelo lado da mãe – Prevost é sensível ao tema das migrações e nessa medida criticou as opções da actual Administração dos EUA naquela matéria. Em 2 de Março de 2025, escrevia na sua conta na rede social X (ex-Twitter), numa alusão a declarações do vice-presidente a “J.D.Vance está errado: Jesus não nos pede que façamos hierarquias no nosso amor pelos outros”.
Na revista America, dos jesuítas dos EUA, citavam-se duas mexicanas, mãe e filha, felizes por testemunharem o anúncio da eleição e por o novo Papa ter dito algumas palavras em espanhol, mas não em inglês. “Foi uma mensagem, penso eu”, disse Valeria Villabelle. “Porque a língua, bem como as pessoas que a falam, foram atacadas no seu próprio país. Por isso, penso que foi uma bela mensagem humanitária”.
A mensagem inicial do Papa Leão também se dirigiu para dentro da Igreja Católica. “Temos de procurar juntos como ser uma Igreja missionária, construindo pontes, dialogando, sempre aberta a receber com os braços abertos a todos, como esta praça, aberta a todos, a todos os que precisam da nossa caridade, da nossa presença, do diálogo, do amor.” Acrescentou depois querer “uma Igreja sinodal, que caminha e procura sempre a paz, a caridade, a proximidade, sobretudo com aqueles que sofrem”.
Nessas duas frases, o Papa Leão está a dizer que a Igreja Católica não pode ficar quieta apenas a contemplar a herança de Francisco: ela só se pode entender como missionária “construindo pontes” com o resto da sociedade – pessoas, grupo, organizações internacionais – e reafirmando esse caminho sinodal lançado pelo Papa Francisco e que tem já uma nova etapa que vai ser dinamizada até à Assembleia Sinodal de 2028, convocada ainda pelo Papa Francisco.
Isso mesmo dizia o agora novo Papa há pouco mais de dois anos, em entrevista ao jornal digital espanhol Religión Digital, citada pelo 7MARGENS pouco depois de ter sido nomeado para o Dicastério dos Bispos: “Fui missionário toda a minha vida e a única coisa que quero é servir a igreja com humildade, com enorme confiança no poder do Espírito.”
Sobre o projeto de sinodalidade na Igreja Católica, lançado por Francisco, o então bispo – nomeado cardeal em Setembro de 2023 – dizia ir recorrer “ao espírito missionário para fazer parte desse serviço único à Igreja e, sobretudo, ver formas de acompanhar os bispos para que tenham abertura ao projecto do Papa” Francisco. Ao desejar “uma Igreja sinodal e de comunhão”, Prevost afirmava não ter dúvidas de que Francisco era “guiado pelo Espírito Santo”. “Esta será uma tarefa árdua entre os bispos e em geral no que diz respeito a todos os agentes pastorais da Igreja”, acrescentava na ocasião.
Nascido em Chicago, EUA) há 69 anos – “não é velho”, comentava um grupo de italianas logo depois do anúncio – Robert Prevost estudou Matemática e Filosofia na Universidade de Villanova, na Pensilvânia, e só depois entrou na Ordem dos Agostinianos. Foi como membro dessa instituição religiosa que passou largos anos como missionário no Peru, tendo sido provincial nos EUA e, por dois mandatos sucessivos, superior geral da Ordem.
Dois temas estiveram ausentes da curta saudação inicial: a emergência climática e os mais pobres e vulneráveis. E sobre o novo Papa pairam as sombras de acusações de encobrimento de abusos sexuais, que terão de ser esclarecidas nos próximos tempos. De acordo com o National Catholic Reporter, três mulheres alegaram que a diocese peruana de Chiclayo, onde o novo Papa foi bispo, não puniu dois padres que acusam de as terem abusado sexualmente quando eram menores. A diocese negou as acusações e em 10 de Setembro último publicou um comunicado dizendo que Prevost recebeu pessoalmente as vítimas e que aquilo que foi divulgado por um programa de televisão no Peru “não é verdade”.
Os dias que aí vêm ajudarão a entender o caminho já percorrido e aquele que agora se inicia.


![Apelo de Metz [texto integral] O Papa no encontro no Centro de Congressos Robert Schuman, em Metz. Foto Vatican Media](https://setemargens.com/wp-content/uploads/2026/09/O-Papa-no-encontro-no-Centro-de-Congressos-Robert-Schuman-em-Metz.-Foto-Vatican-Media-480x252.jpg)







