Entre vários “candidatos” alinhados pelos vaticanistas, Leão XIV fez esta sexta-feira, 26 de setembro, a sua primeira nomeação de vulto: escolheu o arcebispo Filippo Iannone, até agora prefeito do Dicastério para os Textos Legislativos, para lhe suceder no cargo de prefeito do Dicastério para os Bispos. A nomeação não permite grandes especulações sobre as intenções do Papa, mas é legítimo ver nela a vontade de tranquilizar a Cúria Romana e de exigir uma melhor coordenação entre os seus diversos serviços.
Esta é a interpretação de Matthieu Lasserre, jornalista de La Croix, quando escreve que Leão XIV escolheu um “canonista como ele”, “um homem do círculo interno”, do status quo do Vaticano, e assim tranquiliza uma Cúria “que se sentiu maltratada durante o pontificado anterior”. O jornalista chama a atenção para o perfil do arcebispo Iannone para concluir que corresponde na perfeição ao compromisso assumido por Leão XIV na recente entrevista concedida ao jornal digital Crux [ver 7MARGENS]: “Uma das questões específicas em que espero começar a trabalhar num futuro muito próximo é continuar a romper, ou transformar, com a maneira isolada como cada dicastério opera.”
De facto, o homem que vai ocupar o cargo deixado vago pela escolha do cardeal Prevost para suceder a Francisco é um grande conhecedor dos corredores do Vaticano, sendo membro de cinco dicastérios.
Filippo Iannone, carmelita, chegou a Roma há 13 anos pela mão de Bento XIV que o escolheu para vice-gerente da diocese de Roma. Em 2017, o Papa Francisco colocou-o no então Conselho Pontifício para os Textos Legislativos, do qual foi nomeado presidente no ano seguinte. A agência brasileira GaudiumPress classifica-o como “um arcebispo de ascensão discreta, mas notável” que “recebeu a delicada e titânica tarefa de presidir, na sequência da nova Constituição Apostólica Praedicate Evangelium, à comissão interdicastério para a revisão do regulamento geral da Cúria Romana”.
O arcebispo napolitano conviveu longamente com o então cardeal Prevost, “com quem acompanhou as discussões sinodais com a Igreja da Alemanha e os procedimentos aplicados nos casos de abuso”, lembra a GaudiumPress.
Conservadores satisfeitos
Já em meios conservadores como os que dominam no jornal digital The Pillar, prefere-se sublinhar que: “Durante o seu mandato como secretário e presidente do Dicastério para os Textos Legislativos, Iannone rejeitou a pressão para reformas radicais do Código de Direito Canónico”, além de que “terá supervisionado a revisão de 2023 do Vos estis lux mundi, o documento papal que estabeleceu procedimentos para investigar alegações de abuso ou negligência administrativa por parte de bispos e outros líderes da Igreja.”
Em artigo de opinião no mesmo jornal, o colunista Ed Condon, refere que “nos primórdios do Caminho Sinodal Alemão, foi o cardeal Ouellet, antecessor do Papa Leão no Dicastério para os Bispos, que teve de assinar cartas à conferência episcopal, pedindo [aos bispos alemães que recuassem, mas era o nome de Iannone que surgia a assinar o resumo jurídico de quatro páginas que pacientemente explicava que o que estavam a fazer ‘não era eclesiologicamente válido’”.
Contudo foi o mesmo Iannone que, embora prefeito de um dicastério não foi feito cardeal, e em março de 2024 declarou na Sala de Imprensa da Santa Sé que o Sínodo é “um movimento que transforma, liberta, une e harmoniza, sem nunca achatar, homologar, homogeneizar”; tendo como “única missão” “proclamar Cristo ao mundo”.
Agora, além de prefeito do Dicastério para os Bispos a quem cabe ajudar o Papa a escolher os pastores a quem confiar as comunidades eclesiais nos territórios sob sua jurisdição, o arcebispo irá presidir à comissão pontifícia para a América Latina, como decorre da função de prefeito para os Bispos.
Leão XIV não nomeou ainda sucessor de Filippo Iannone no cargo de Prefeito do Dicastério para os Textos Legislativos, mas confirmou por mais cinco anos o bispo brasileiro Ilson de Jesus Montanari e o bósnio Ivan Kovač como, respetivamente, secretário e subsecretário do Dicastério para os Bispos, funções que já desempenhavam sob a direção de Prevost.
Recorde-se que Francisco havia nomeado, em julho de 2022, três mulheres como membros do Dicastério para os Bispos: a irmã Raffaella Petrini, atual presidente do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano, Yvonne Reungoat, ex-superiora geral das Filhas de Maria Auxiliadora, e Maria Lia Zervino, ex-presidente da União Mundial das Organizações Femininas Católicas.










